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Como Matrix mudou tudo (pra mim) | Leitor na Sala

Como Matrix mudou tudo (pra mim) | Leitor na Sala

Por Guilherme Beiró

O ano é 1999, é uma sexta-feira, eu convenço minha mãe a deixar eu alugar uma fita na locadora da de vídeo do bairro. Vou correndo buscar o filme que eu tanto ouvia falar e queria tanto ver. Chegando em casa, coloco a fita no videocassete e, quinze minutos de trailers depois — como um selvagem pré-histórico —finalmente o filme começa. No exato segundo em que letrinhas verdes, como de computador, começavam a “escorrer” pela tela da TV, eu estava fisgado.

Era Matrix.

O que se seguiu foram 2h de êxtase. Da vertiginosa sequência de abertura com Trinity correndo por telhados enquanto é perseguida por Agentes e desaparecendo no ar, até a cena final, com Neo distorcendo espaço/tempo e a realidade, eu não conseguia desgrudar os olhos da tela. Smith, instantaneamente, se tornou um dos maiores vilões da história do cinema só com a atuação assustadora e, estranhamente charmosa, de Hugo Weaving. O filme não me deixava respirar, a ação pulava entre metrôs, ruas, topo de prédios, saguões, helicópteros… Era como se tivessem juntado todos os melhores filmes de ação em um só. Eu nem entendia direito o que estava assistindo, mas eu sabia que eu estava vendo algo diferente de tudo que eu, no alto de meus 12 anos de idade, havia visto. E era uma sensação incrível. 

ano é 2003 e eu tenho 16 anos, cabelos compridos e um gosto para moda bem duvidoso. As irmãs Wachowsky tinham lançado Animatrix, nove curtas animados online (algo inovador na época) e eu tinha dedicado boas horas das minhas madrugadas para conseguir ver cada um deles na minha conexão de 56k. Eram pequenas histórias que davam mais profundidade para aquele universo. Aquele mundo havia sido preenchido com mais camadas.  

No dia 23 de maio, eu estava no cinema para ver Matrix Reloaded.

No exato instante que letrinhas verdes começaram a descer pela tela, o meu sangue gelou. Eu estava sentindo a mesma empolgação de anos antes. O que se seguiu, até hoje, não sei explicar direito. Entre cenas de ação incríveis, diálogos praticamente ininteligíveis e muita computação gráfica, eu saí do cinema atordoado. Corridas de carro, de moto, Neo voando, Trinity saltando de edifícios e Morpheus lutando com uma espada de samurai, em cima de um caminhão em movimento, no meio de uma estrada(!). Isso sem falar que, finalmente, conhecíamos Zion, o último refúgio dos humanos contra as máquinas. Era incrível, era barulhento, grandioso e frenético como eu esperava. Menos aquela cena final que, na época, mais me confundiu do que qualquer coisa. E agora eu teria de esperar alguns meses para ver o terceiro filme. 

Dia 5 de novembro de 2003, chegou aos cinemas a terceira parte da trilogia e eu não estava preparado para o que eu veria no cinema. Enquanto os dois primeiros filmes valem-se do mundo dentro dos computadores para justificar suas imensas e elaboradas cenas de ação, o capítulo final apresentava uma trama praticamente toda no mundo real. Extremamente focada no cerco a Zion, o filme vai do embate entre dois personagens (Neo vs. Smith) para algo bem mais amplo, o embate direto entre humanos e máquinas no mundo real. 

Mas nem por isso as cenas de ação foram deixadas de lado, todo o cerco contra Zion é fantástico. Sem a frieza esverdeada da estética estabelecida dentro do mundo dos computadores, a ação agora era cinza, marrom, enferrujada e com sangue real. E funciona. A invasão da cidade humana é incrível tecnicamente e narrativamente.
A grande batalha final no ar é extremamente desafiadora para a tecnologia da época e, sim, talvez demasiadamente inspirada em animes. Mas, ainda assim, até hoje, sem similares no cinema.
E daí veio aquele final com a pequena Sati, Oráculo e Arquiteto… Entre os que amam e os que odeiam, eu me encontro no meio do caminho. 

E entre amores e ódios, aquele sucesso imenso e inesperado de 1999 encerrou sua história no fim de 2003. E o que aconteceu com o cinema nesses quatro anos mudou completamente a indústria. A tecnologia foi forçada a novos limites e os padrões de “o que faz um bom filme de ação” foram elevados numa escala sem precedentes. Se isso é algo bom ou ruim… Fica a critério de vocês. 
Mas não escrevo esse texto para falar dos filmes. Escrevo para falar deles para mim e o que eles fizeram comigo.

Essa empolgação juvenil passa e isso é natural, inevitável e nem busco lutar contra. Porém, preciso ressaltar como, desde então, nenhum outro filme conseguiu causar essa sensação em mim. 
Sim, o caminho aberto pelas irmãs Wachowsky segue se desenrolando até hoje e as narrativas conectadas apresentadas por elas entre filmes/curtas/jogos se mantém, de forma mais elaborada até, com Marvel e seus 10 anos de filmes conectados, seriados e HQ’s. 

Talvez fosse da época em que os filmes aconteceram, talvez fosse a época em que eu estava, mas eu nunca mais senti essa sensação de “estou vendo algo inovador e grandioso”. Claro, outros filmes grandiosos existiram, outras cenas incríveis foram filmadas e isso nunca vai parar. Vai sempre existir um novo filme que vai romper barreiras técnicas, mas não é só isso. Não é só o tamanho e a técnica… É o todo. E isso eu posso afirmar, sem dúvida alguma, que vi em dois ou três filmes desde 1999. 

Em 1999, era o visual e a ação o que me grudava naquele filme e em 2003 pouca coisa mudou, não vou mentir, estava lá pelos tiros, kung-fu e slowmotion. Mas, com o tempo, o filme foi mudando pra mim. E não, não acho que seja um roteiro incrível e cheio de metáforas e significados. Mas é um filme de ação que, sim, perto da maioria dos filmes de ação que nos acostumamos a consumir tem bastante subtexto. Não pretendo, de forma alguma, aqui, tentar falar sobre os significados ocultos da história e nem tentar apresentar para vocês a minha interpretação sobre eles. Aqui, eu só quero falar sobre o que ele me faz sentir. 

Qual foi a última vez que um filme Hollywoodiano fez algo realmente novo e foi bem-sucedido? Aqui, os filmes de maior bilheteria de 2004 até agora: 

2004Shrek 2 (continuação)
2005Harry Potter e o Cálice de Fogo (adaptação/continuação)
2006Piratas do Caribe: O Baú da Morte (adaptação/continuação)
2007Piratas do Caribe: No Fim do Mundo (adaptação/continuação)
2008Batman: O Cavaleiro das Trevas (adaptação/continuação)
2009Avatar (original)
2010Toy Story 3 (continuação)
2011Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 (adaptação/continuação)
2012 Os Vingadores(adaptação/continuação)
2013Jogos Vorazes : Em chamas (adaptação/continuação)
2014Transformers: A era da extinção (adaptação/continuação)
2015Star Wars: O Despertar da Força (continuação)
2016Capitão América: Guerra Civil (continuação/adaptação)
2017A Bela e a Fera (adaptação/refilmagem)
2018 Os Vingadores – Guerra infinita (adaptação/continuação)

É gritante, não é? Nos últimos quinze anos, somente um filme de maior bilheteria no ano não é uma adaptação ou continuação. E isso é, além de tudo, sintomático sobre que tipo de filmes e histórias estamos preparados e dispostos a assistir. E, infelizmente, até o único original da lista (Avatar, de 2009) está longe de ser 100% original, os paralelos entre a conhecida história de Pocahontas são gritantes. Mesmo sendo um filme inovador em diversos aspectos técnicos, a história já foi contada e recontada dezenas de vezes em outras roupagens e nós estávamos preparados para assimilar ela. 

Nos dois anos em que Matrix esteve nos cinemas (1999 e 2003), os filmes de maior bilheteria também foram continuações. Em 1999, foi A Ameaça Fantasma, prólogo de Star Wars, e, em 2003, O Retorno do Rei, capítulo final da saga O Senhor dos Anéis. Essa tendência não é nova. Faz pra lá de 20 anos que basicamente todo o cinema de grande porte é dominado por continuações ou adaptações de livros/seriados. 
E não acho que haja nada de errado nisso, considero até natural que estúdios apostem em materiais mais ‘garantidos’ na hora de investir milhões e milhões de dólares. 

Não menosprezo, de forma alguma, filmes de super-heróis ou adaptações. Muito pelo contrário, eu também adoro. Mas é um lugar seguro. A gente sabe que, não importa o que aconteça, tal personagem não vai morrer. Ou, se morrer, vai estar só esperando para ser rebootado em uma nova série de filmes. Eu sei que no fim do longa vai haver uma cena pós-crédito que, nada mais é que um minitrailer, me chamando para mais uma produção. E ok, isso é legal e é uma experiência diferente de tudo que se tinha no cinema. Mas ela vem se repetindo nos últimos 10 anos e todo mundo parece alegremente acostumado. O fator ‘novidade’ está cada vez mais escasso e isso é triste, afinal de contas, isso é cinema. Ele deveria nos transportar para mundos e histórias novas… Não ser só uma chuva de referências, lugares comuns e ‘piadas internas’ para que a gente se sinta parte de algo. E não, trilha engraçadinha e cores estouradas não são inovações, são mera roupagem. 

Eu quero deixar uma pergunta antes de seguir: quando foi a última vez que tu ficaste extasiado dentro de um cinema? 
E que não tenha envolvido ver na tela o retorno de algum personagem de outro filme, a união de super-heróis ou a adaptação na tela de um personagem querido da literatura/televisão/HQ? 

Mas como disse, prefiro aqui falar do que Matrix foi e é para mim. 
E, pra mim, é um marco. É um dos filmes que me lembra os motivos de eu amar o cinema, é um filme que, seja por seus visuais ou história, são um lembrete que o cinema não precisa ser só o que a gente espera. Que uma produção hollywoodiana pode, sim, ter espaço pra reflexão filosófica, que um filme de ação pode gastar longos minutos em diálogos que, cansativos ou não, são o desenvolver daqueles personagens que a gente acompanha, nos dando motivo para torcer por eles. Que um filme não precisa me considerar burro e se explicar no fim, não deixando sequer um fiapo de reflexão na minha cabeça. 

E aí, outro grande mérito da trilogia. Poucos filmes me fizeram pensar tanto no final, me fizeram ler tanto e buscar entender o que significava aquele céu colorido de fim de dia. O final, ambíguo, pega tudo que se espera de um ‘final feliz’ e subverte. Nos joga na cara que, talvez, as coisas possam não ser como a gente espera e, mesmo assim, funcionar. Que o cinema hollywoodiano pode ser bem mais do que vilão contra mocinho e vitória do bem no final. 

Tu nunca sentirias isso vendo um filme, por exemplo, da Marvel/Disney/DC. 

Ninguém no mundo entrou no cinema pensando “caramba, será que o Homem-Formiga vai sobreviver a essa aventura?”; “Será que a Mulher-Maravilha vai perder para o Ares?” A gente sabe como esses filmes vão se desenvolver e acabar e isso, numa mídia que se propõe a contar histórias, é um péssimo sinal. O que vai me prender na tela, me engajar naquela jornada, se eu já sei exatamente o que esperar dela? Este é outro ponto que Matrix brilha. Enquanto o primeiro filme segue o esperado de qualquer jornada do herói, os filmes seguintes subvertem tudo que esperávamos. 

Neo, nosso salvador, não é tão crédulo em sua capacidade como todos os outros são. Ele questiona seus superiores, questiona sua sanidade e, inclusive, se luta pelo lado certo. Ele é humanamente falho. 
Enquanto Smith é uma força imparável, movida por um único objetivo (como um vírus, espelhar-se pelo sistema), Neo não sabe se será capaz de fazer o que esperam dele. Mais ainda, se ele é o Escolhido. Essa dúvida permeia todo o primeiro filme e é peça fundamental para desenhar o personagem. 
No segundo filme, já ciente de seu papel para a salvação da humanidade, Neo é atordoado por pesadelos proféticos, aonde se vê incapaz de salvar sua amada. Essa dúvida o faz cogitar desistir de tudo, abandonar a salvação do mundo e salvar somente a ela. Nosso herói cogita salvar uma pessoa e sacrificar a humanidade toda. Ele não é perfeito e é isso que faz ele um personagem verossímil. No terceiro filme, para vencer Smith, Neo faz — spoiler — um acordo com as máquinas. Sim, aquelas mesmas que nos dominaram e escravizam, as mesmas que criaram Smith. Aquelas que as profecias anunciavam que Neo venceria. E essa é a única forma de vencer, não é bonita e nem a ideal… Mas é a única forma. 

A trilogia, por mais que brinque o tempo inteiro com simetrias, yin-yang equilíbrio e afins, sabe que as batalhas não acontecem só nesse espaço de bem e mal definido. Que esse maniqueísmo não é sempre possível. Não somos, felizmente, máquinas. E é essa área cinza que nos faz humanos. Que pode ser o espaço aonde nasce nosso melhor ou nosso pior. E é nisso que os três filmes se equilibram até a última cena: tudo pode mudar a qualquer momento. Não existem garantias, não existem certezas. Existe a frieza numérica das máquinas de um lado, a esperança da humanidade do outro e, no centro, um homem. Um homem falho. Não uma pessoa nascida fadada para o heroísmo, não um Homem de Ferro ciente que faz o correto, não um Super-Homem lutando pelo ‘american way’ e nem um Batman, sendo juiz, júri e executor em prol de sua verdade e noção de justiça. É um cara comum, como a gente, numa situação extrema. Titubeando e se questionando como nós estaríamos. 

Os filmes conseguem debater sobre escolha, livre arbítrio e controle com a mesma facilidade que tem em mostrar cenas de ação grandiosas e embates elaborados. E funciona. Gostem ou não, o filme é permeado por diálogos incríveis, cenas de ação sem precedentes e uma genuína sensação de que quem o fez almejava mais do que só um sucesso de bilheteria. 

E é no embate final entre Neo e Smith que o filme abre seu jogo de vez e um significante diálogo acontece. Após lutarem nas ruas, em um prédio abandonado e no ar, nosso herói e vilão estão agora em uma imensa cratera no chão. Neo está claramente perdendo e Smith declama o seguinte monólogo enquanto Neo tenta levantar-se: 

“Por que, Sr. Anderson? Por que fazer isso? Por que se levantar? Por que continuar lutando? Acha que luta por algo além de sua sobrevivência? (…) Você sabe que não pode vencer. É inútil seguir lutando. Por que, Sr. Anderson? Por que você persiste?”
Perguntas que Neo responde de forma direta: “Por que eu escolhi lutar”. 

E essa é, para mim, a síntese do filme: escolhas. Ele era só mais uma engrenagem de um sistema que tentava ajustar-se. Ele, dito Escolhido, nunca lutou pela humanidade, nunca lutou por algo abstrato e tão amplo como a salvação de todos. Ele lutava para salvar a mulher que ele amava e ela morreu. A única coisa que ele tinha agora, a única coisa capaz de diferenciá-lo do vilão, era sua humanidade. Sua capacidade de desenhar seu destino com base em algo que um programa de computador jamais seria capaz de fazer sem que fosse programado para: escolher. E ali, ciente de que não venceria, ele lutou até o fim sabendo que mais importante do que ganhar é escolher o lado certo. 

Isso é um grande filme. 

Agora, 20 anos depois (!) do lançamento do primeiro filme, eu tenho 31 anos… E eles continuam sendo alguns dos filmes mais inventivos narrativa e visualmente de todos os tempos. Continuam sendo uma das obras pelas quais todos os outros filmes que flertem com temáticas similares vão ser, inevitavelmente, comparados. 

E, 20 anos depois, quando sobe a música e as letrinhas verdes descem pela tela, meus braços e nuca ficam automaticamente arrepiados, o coração acelera e eu volto a sentir aquela empolgação juvenil. Os três filmes seguem sendo um lembrete dos motivos pelos quais eu amoe caramba, como eu amocinema. 

Quantos filmes ainda conseguem fazer isso contigo? 


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