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Maratona Marvel #18 | Pantera Negra | Crítica

Maratona Marvel #18 | Pantera Negra | Crítica

Pantera Negra (Black Panther)

Ano: 2018

Direção: Ryan Coogler

Roteiro: Ryan CooglerJoe Robert Cole

Elenco: Chadwick BosemanMichael B. JordanLupita Nyong’o, Danai Gurira, Martin Freeman, Daniel KaluuyaLetitia Wright, Sterling K. BrownAngela Bassett, Forest Whitaker, Andy Serkis

A quantidade enorme de filmes de super-heróis lançados na última década, por vezes, provoca a impressão de que eles estão sendo feitos de maneira automática e, quando não seguem um modelo já pronto e funcional, acabam fracassando em suas invencionices pouco inspiradas. Por outro lado, aqueles que seguem o padrão acabam divertindo na sala de cinema, mas sumindo da nossa mente pouco depois do término da sessão (e das intermináveis cenas pós-créditos), nos deixando sempre esperando pelo próximo filme. Como capítulos de livros de Dan Brown, mesmo que o que vimos não seja tão bom assim, ele deixa alguma coisa em aberto nos atiçando a ver o que virá a seguir. E assim, sucessivamente. Mas não desta vez.

Pantera Negra surpreende em inúmeros aspectos. Em primeiro lugar, um roteiro que toma o cuidado de fazer sentido o tempo todo. Tudo bem, ele é tão redondinho que se torna quase completamente previsível, mas o mais fantástico é que isso não atrapalha em nada o filme. Falei ‘quase’ completamente porque existem algumas surpresas muito bem utilizadas, que não possuem nada de gratuitas. Não estão ali para que eles possam dizer: “Viram só? Enganamos vocês!”. Não. Estas poucas surpresas são peças importantes da história e que constroem um pano de fundo muito mais coerente com as situações apresentadas. É o tipo de filme que mesmo quem tomou algum ‘spoiler’ vai poder aproveitar plenamente.

Não vou entrar nos méritos das práticas da corporação Disney em relação ao mercado de entretenimento, pois seria necessário muito mais tempo, linhas e conhecimento do que possuo para isso. Mas no que se refere ao que ela tem trazido de mensagens em seus filmes, de maneira muito clara para o público, só posso tecer elogios. Primeiramente percebeu-se com mais força (sem trocadilhos) na franquia Star Wars, mas agora, em Pantera Negra, isso foi potencializado. A representatividade estabelecida por se ter um herói negro no nível e importância de T’Challa (Chadwick Boseman), o rei de Wakanda, superou todas as expectativas. Outros heróis negros do MCU como o Falcão e o Máquina de Combate, convenhamos, não fariam a menor falta se desaparecessem dos filmes, de tão insignificantes que eram suas participações. Agora não. Em seu filme solo, o Pantera Negra já demonstra potencial para realizar o papel fundamental que teria nos confrontos contra o temível Thanos em Vingadores: Guerra Infinita.

Além do Pantera, outros personagens do longa empolgam por sua presença imponente. Nakia (Lupita Nyong’o), uma espiã de Wakanda. Apesar de ser ótima em combate, seu maior interesse são as causas humanitárias, colocando as pessoas acima das bandeiras ou das leis. Okoye (Danai Gurira), a leal guerreira e protetora do trono, é uma combatente corajosa, habilidosa e líder nata. Shuri (Letitia Wright), a irmã de T’Challa, uma espécie de ‘Q’ do James Bond. Domina as tecnologias desenvolvidas com o Vibranium de Wakanda, construindo armas, comunicadores, pilotando naves e confeccionando os incríveis uniformes do Pantera Negra. W’Kabi (Daniel Kaluuya), um líder tribal dividido entre a lealdade ao rei e seu ressentimento quanto a um evento do passado. Os antagonistas Killmonger (Michael B. Jordan) e Klaue (Andy Serkis), assustadores, cada um ao seu estilo. Killmonger por suas convicções políticas, muito bem explicadas e discutidas no filme. Klaue por sua insanidade, unida à uma completa indiferença aos lados da batalha, preocupado apenas consigo mesmo. E, diga-se de passagem, todos eles em atuações fantásticas.

Mas o posicionamento político do longa de Ryan Coogler não se restringe à representatividade. Ao apresentar Wakanda como uma nação cheia de recursos e perfeitamente independente, o filme faz uma analogia aos Estados Unidos da América e alguns países ricos da Europa quando demonstra alguns pensamentos relacionados a imigrantes, refugiados e política internacional. É estabelecida uma reflexão a respeito de temas como o intervencionismo em países de terceiro mundo, a forma como países ricos se aproveitam de conflitos internos dos mais pobres para estabelecer bases de poder e se apropriar de seus recursos, e como isso impacta estes países e seus habitantes. E é justamente baseado nesta discussão política que a história do Pantera Negra se constrói e se fortalece.

Tão eficaz como o roteiro, é a direção de Coogler. Na cena inicial quando vemos crianças jogando basquete em uma quadra de rua, sente-se uma intimidade do diretor com aquele ambiente, pela forma como a câmera acompanha os movimentos do jogo, encontrando beleza em meio à simplicidade. Algumas cenas de ação, com destaque para conflitos rituais na beira de penhascos e em uma perseguição de carro pelas ruas de Busan, estão entre as mais empolgantes já feitas no Universo Cinematográfico da Marvel. As lutas em função da bela e até realista coreografia, mas principalmente pela tensão real provocada. A perseguição de carros pela criatividade na forma em que ela é conduzida e concluída. O alívio cômico que fica a cargo de Shuri é sempre bem utilizado, tornando a irmã de Tchala uma personagem extremamente simpática, além de eficiente.

O visual também é, sem dúvida, um dos grandes atrativos do filme. A concepção de Wakanda, uma metrópole futurista escondida sob uma densa floresta, tem seus espaços divididos entre construções altamente tecnológicas e a lindíssima e característica geografia, população e fauna do continente africano. Os figurinos muitas vezes unem visuais tribais com armaduras tecnológicas, ou simplesmente belas vestimentas com estampas coloridas. Apesar de não mostrar praticamente nenhum sangue em função do público ao qual se destina, são mostradas algumas cenas violentas capazes de gerar uma tensão real no público.

No final das contas, Pantera Negra prova que não há mal nenhum em se fazer dezenas de filmes de super-heróis. O que realmente importa é que haja uma preocupação em não torná-los uma espécie de “fast food cinematográfico”. Assim como as histórias em quadrinhos não precisam ser uma literatura de baixo nível, como já foram consideradas, as suas adaptações para o cinema não precisam se transformar em filmes superficiais e esquecíveis. E como é bom quando nos deparamos com uma obra que com certeza merecerá destaque entre outras tantas em seu gênero.

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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