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Dumbo | Crítica

Dumbo | Crítica

Dumbo

Ano: 2019

Direção: Tim Burton

Roteiro: Ehren Kruger

Elenco: Colin FarrellMichael KeatonDanny DeVitoEva GreenAlan ArkinNico ParkerFinley Hobbins

A primeira metade do século XX foi marcada por duas guerras mundiais, que deixou um rastro de destruição e morte por onde passou. Walt Disney desempenhou um papel fundamental na segunda, tendo realizado um acordo com Frank Roosevelt de produção de curtas-metragens animados que seriam usados como propaganda antinazista. Os anos 1940 também foram marcados pela Era de Ouro de animação, e Disney foi o principal destaque, sendo responsável pela realização dos principais longas-metragens da época. Dumbo foi um deles e, embora o filme tenha conseguido um bom sucesso comercial (ainda mais em uma fase financeiramente ruim para o estúdio do Mickeiy), ele foi responsável por algo a mais: levar uma mensagem positiva de autoaceitação em tempos pessimistas.

Estamos em 2019 e os tempos são outros. A Disney é uma megacorporação a anos-luz da falência, que compra outras empresas de entretenimento. O mundo não está em uma guerra global, mas está mergulhado em discursos de ódio, diferente de 80 anos atrás, em que eles se concentravam em algumas regiões. E no mundo do entretenimento, quem reina é a nostalgia, com produções cada vez mais populares ambientadas em décadas passadas. É nesse cenário que entra o Dumbo de Tim Burton, em mais uma de suas parcerias com a Disney.

Burton “inaugurou” a fase de remakes live-action de animações clássicas do estúdio, com seu desastroso Alice no País das Maravilhas em 2010. A absurda bilheteria de US$ 1 bilhão deixou a Disney com os olhos de cifrão do Tio Patinhas quando vê dinheiro, e decidiu investir em mais produções semelhantes. Poucos anos depois vieram Malévola, o live-action de A Bela Adormecida, com o ponto de vista da vilã, e então Cinderela, Mogli: O Menino Lobo, A Bela e a Fera e Christopher Robin: Um Reencontro Inesquecível. Todos eles têm um ponto em comum, que é a sensação de ver personagens tão amados em carne e osso (e CGI), mesmo que a qualidade não seja das melhores. Com o Dumbo de Burton não é diferente, embora o filme seja diferente em muitos aspectos do original.

O filme começa com a chegada de Holt Farrier (Colin Farrell) da 1ª Guerra Mundial ao circo em que foi uma estrela anos antes. Tudo está diferente. O local gerenciado por Max Medici (Danny DeVito) está à beira da falência, seus filhos não tem uma conexão com ele, e sua esposa faleceu. Tudo isso se junta ao fato de que Farrier perdeu um braço em uma batalha, o que o torna uma aberração e incapaz de fazer seu antigo número circense. A esperança é mínima naquele lugar, embora todos estejam sempre bem-humorados. O jogo muda quando uma grande elefanta chamada Jumbo dá a luz a um pequeno elefante deformado, com orelhas maiores que o normal, e descobre que a criaturinha é capaz de fazer maravilhas financeiras.

O fator materno do longa clássico permanece aqui, e em mais personagens que na versão original. Existe um paralelo entre Dumbo e os filhos do personagem de Farrell: os três perdem a mãe, a única pessoa que os entendia de verdade, mas ainda existe uma esperança de recuperar a de Dumbo, e o elefantinho digital inconscientemente toma para si esse objetivo de vida. Apesar do amor entre Jumbo e Dumbo, esse é o único elemento do original presente no remake, o que acaba se tornando um problema.

A inserção de tramas importantes envolvendo os humanos não funciona, e isso é péssimo, visto que eles têm uma grande relevância no andamento da história, em alguns momentos até mais que o personagem-título. O elenco recheado de nomes A de Hollywood até está bem escalado, mas um roteiro preguiçoso em diversos momentos torna seus personagens desinteressantes, fazendo com que Dumbo seja o único personagem relacionável e digno de empatia do filme. O vilão caricato vivido por Michael Keaton até tenta fazer uma crítica a monopolizadores (alô, Disney), mas a mão pesada da empresa-mãe que permite até que ponto a liberdade de expressão dos roteiristas é aceitável faz do antagonista um dos mais chatos já apresentados nos remakes do estúdio.

Embora Keaton e seu personagem sejam péssimos, ainda existam alguns elementos a se destacar, como a atuação de Farrell, DeVito e Eva Green. Essa última até alcança alguma relação afetuosa com Dumbo, visto que se apresentam juntos, mas tudo é apenas jogado na tela e facilmente esquecível.

A megalomania de filmes anteriores de Burton também dá sua cara a tapa em Dumbo. O estilo autoral apegado ao gótico e ao grotesco muito presente nos primeiros projetos do cineasta faz sua aparição em um ponto muito específico do megaparque no terceiro ato, mas é perceptível que o diretor ainda possui dificuldade em lidar com projetos de altíssimo orçamento – seu último filme sólido foi Grandes Olhos, de 2014, em que Burton se sentiu à vontade com a estranheza da arte.

Ao final do filme, fica o gosto amargo de que a projeção poderia ter sido muito melhor do que foi. Dumbo é fofo ao extremo e literalmente carrega o filme nas costas com seu voo. É uma pena que uma produção tão caprichosa em figurino, design de produção e efeitos visuais peque naquilo que faz o cinema funcionar: a narrativa. Os tropeços e as cabeçadas que Dumbo teve no primeiro ato antes de aprender a voar já previam o longa nada sóbrio que se seguiria, mas pelo menos é possível tirar a mensagem de autoaceitação de um filme que é nada mais que um espelho do entretenimento desorganizado apresentado pelos seus personagens.

Nota do crítico:

 

Nota do público:

[Total: 2    Média: 3/5]

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João Vitor Hudson

João Vitor Hudson é um publicitário aos 22 anos. Ama cinema desde quando desejava as férias escolares só pra assistir todos os filmes do Cinema em Casa e da Sessão da Tarde. Ama o MCU, e confia bastante no futuro da DC nos cinemas.

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