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As dúvidas do Clube: machismo, revolução ou propaganda? | Leitor na Sala

As dúvidas do Clube: machismo, revolução ou propaganda? | Leitor na Sala

Por Rodrigo Ramos

Eu evitei esse filme por muito tempo. Lembro do atirador no cinema de São Paulo que saiu enlouquecido do banheiro durante a exibição de Clube da Luta (Fight Club), em uma das primeiras sessões depois de seu lançamento, em 1999, e matou várias pessoas. No alto dos meus 12 anosm decidi que esse tipo de conteúdo não me faria bem.

Afinal, algo houvera de ter disparado o gatilho em quem disparou o gatilho. Os culpados foram os de sempre: videogames violentos, música pesada e instabilidade mental aliado a um filme considerado perigoso e que esteve ameaçado de ser proibido aqui no Brasil. Além de tudo isso, eu imaginava, pelo nome do filme, que se tratasse de algo envolvendo o MMA, que não me parecia algo atrativo.

Entendam-me, a desinformação na época era grande. A internet por essas bandas ainda engatinhava, eu estava sem computador à época, mesmo que tivesse essa valiosa arma, não havia Google, não havia Wikipédia, nossa rede social era o Mirc. Enfim, pouco sabíamos, e tínhamos que depender de Altavista, Cadê e Yahoo e passar nosso tempo no bate-papo do Zaz ou do Uol.

Talvez, eu nunca devesse ter assistido Clube da Luta. Sei que assim que o fim pensava em me tornar um macaco espacial e fazer transgressões contra obras de arte corporativas, quem sabe virar mais um adepto das artes de rua e registrar minhas façanhas em prédios altos ou em monumentos que somos condenados e incentivados a desconhecer. Com isso, normalmente, nos condenando a repetir nossa história (nem tão) valorosa.

A estética criada por David Fincher é de se admirar. Vemos hoje o filme, um clássico pós-moderno, e sempre achamos alguma novidade e ele parece tão atual, principalmente em questões de aparência e em efeitos que provavelmente poderia ter sido feito ano passado. Outra coisa a se destacar são os monólogos, principalmente, os de Tyler Durden (Brad Pitt). O anti-herói que o novo milênio precisava.

Porém, esses monólogos, os quais só vi parecidos com os feitos em Trainspotting e T2, especialmente, o icônico “choose life…”, flertam com sentimentos complicados e que podem explicar muito do que está acontecendo por aí no momento em que escrevemos, quando o machismo flerta, mais do que nunca, com a misoginia e a aparente revolução é mais uma validação do mainstream, carregada por muita propagando subliminar, na boca de um símbolo da sexualidade e marketing do mundo moderno, tal qual Sr. Pitt.

Logo de cara, é preciso dizer se percebe que há algo muito errado com O Narrador (Edward Norton), que na sua casa ascética e quase perfeita tenta a ilusão da completude a que nos compele inevitavelmente o mundo, quando, na realidade, ele não consegue sentir nenhuma emoção de verdade.

A não ser o ódio que ele tem de Marla Singer (Helena Bonham Carter) que, segundo ele, roubou-lhe a ideia de frequentar grupos de ajuda para doenças, algo que aliviava sua dor e insônia e todos sabemos que com “insônia nada é real”, só quem já ficou mais de 24 horas sem dormir sabe bem o que é isso.

Claro que o amor e o ódio se confundem extraordinariamente. E vamos aprendendo com o curso da vida que os extremos estão muito mais próximos do que imaginamos e nas noites é que se revela a verdadeira natureza dos gatos, sejam eles pardos ou não. Vou deixar em aberto minhas conclusões sobre essa obra tão cultuada, tantas vezes feita de referência.

Apenas quero dizer que esse é um dos poucos filmes que a versão cinematográfica supera o livro, a origem da obra, não vou entrar em detalhes, mas Chuck Palahniuk escolhe caminhos em sua obra que fazem com que o Clube seja ainda mais irrealista na obra literária e que algumas intrincadas relações entre personagens façam menos sentido no livro.

Ao mesmo tempo é isso que faz com que uma continuação de Fight Club seja possível, independentemente de formato, seja em uma graphic novel como já foi cogitado, ou, por que não, imaginar um novo filme. A cronologia do livro permite inclusive imaginar a continuidade dos mesmos maravilhosos atores. No final, quero apenas lembrar que nosso nome é Robert Paulsen e que fazemos parte do projeto Destruição.


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Redação

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Comments

  1. Bem escrito o teu artigo… de fato.

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