Bode na Sala
Críticas Destaque Filmes

Vox Lux: O Preço da Fama | Crítica

Vox Lux: O Preço da Fama | Crítica

Vox Lux: O Preço da Fama (Vox Lux)

Ano: 2018

Direção: Brady Corbet

Roteiro: Brady Corbet

Elenco: Natalie PortmanRaffey Cassidy, Stacy MartinJude LawWillem Dafoe

O escritor Ernest Hemingway revelou certa vez que, em um momento de crise criativa, decidiu escrever sobre coisas que ele conhecia bem. Essa é a melhor dica que pode ser dada a um roteirista iniciante. Escreva sobre o que você conhece. Parece que Brady Corbet não recebeu este conselho, aventurou-se em um assunto muito complexo, e o resultado acabou sendo bem raso e decepcionante.

Vox Lux: O Preço da Fama nos apresenta a história de Celeste (Raffey Cassidy), uma garota de 14 anos que, por muito pouco, sobrevive a um massacre realizado em sua escola. Devido à visibilidade adquirida após este evento, ela consegue alavancar uma carreira como cantora pop, e entra muito cedo para o mundo da indústria musical, para o qual ela definitivamente não estava preparada. Eleanor (Stacy Martin), sua irmã mais velha, tenta guiar sua carreira e cuidar de sua educação, mas é atrapalhada pelo bem intencionado desejo de proporcionar a Celeste todas as experiências que ela quase deixou de ter ao estar tão próxima à morte.

O filme começa de maneira muito promissora. A sequência inicial onde ocorre o massacre na escola de Celeste, em New Brighton, no ano de 1999, é impactante. Os diálogos, as atuações, a direção e a montagem, tudo funciona bem. Contextualizando com o evento recente ocorrido na escola Professor Raul Brasil, em Suzano, a ambientação criada pelo diretor se torna ainda mais avassaladora. Ainda há um toque muito bem pensado para fechar a sequência, que foi colocar os créditos completos do filme rolando verticalmente, como acontece normalmente no final dos filmes, enquanto Celeste é transportada em uma ambulância em estado crítico. Ali terminou uma história. Na verdade, várias histórias. De todas as vítimas e de seus familiares. E também a história daquela Celeste anterior ao atentado. Infelizmente, pouco a pouco Corbet vai se perdendo, tanto no roteiro quando na direção, e a excelente primeira impressão passa a se diluir rapidamente.

Para começar, há problemas tanto no título original quanto no seu subtítulo em português. Vox Lux, diferentemente do que Brady Corbet acredita (visto que declarou em entrevistas), não significa “voz de luz” em latim. A forma correta de escrever isso seria “Vox Lucis”. E não, eu não falo latim, mas foi fácil descobrir isso com uma rápida pesquisa na internet. Então, Corbet se mostra pretensioso ao tentar demonstrar uma erudição que claramente não possui. O subtítulo em português ainda piora ao complementar Vox Lux com O Preço da Fama. O filme não é sobre isso. O filme busca fazer uma associação entre a sociedade americana neste milênio e a alma de uma artista pop. A ideia é ótima, mas Corbet, infelizmente, não possui estofo suficiente para entregar algo além de uma associação rasa e cheia de senso comum.

Quando avançamos no tempo e vemos a versão adulta de Celeste, agora vivida por Natalie Portman, o ritmo da narrativa, que já estava abalado, acaba despencando de vez. Não por culpa da atriz, que está fantástica como sempre, mas devido aos diálogos pouco inspirados. Por sinal, a duração dos diálogos é um verdadeiro tiro no pé, visto que, quanto mais as personagens falam, mais claro fica que as suas palavras simplesmente dão voltas sobre o óbvio e não levam a lugar nenhum. Então, de tempos em tempos, entra em cena a narração de Willem Dafoe, que vem explicar de forma bem expositiva o que o diretor não foi capaz de transmitir com imagens. E quando somos surpreendidos por um novo massacre, dessa vez com características diferentes daquele ocorrido na escola em New Brighton, é chocante perceber que, coincidentemente, um dos assassinos estava filmando o ataque, da mesma forma que aconteceu na Nova Zelândia, poucos dias após o ocorrido em Suzano. No entanto, o impacto some mais rapidamente dessa vez, já que a relação entre as mortes e a história da cantora acaba sendo subaproveitada, e muito pouco acrescenta à trama.

Voltando à Natalie Portman, ela surpreende novamente ao se transformar completamente, não só pela linguagem corporal, mas também através de um trabalho vocal excepcional. Se analisarmos o currículo recente da atriz, suas atuações em Aniquilação, Jackie e, agora, em Vox Lux: O Preço da Fama, poderemos conferir três personagens totalmente distintas uma da outra, e que cada uma possui uma voz, uma entonação e uma cadência diferente em sua fala. Portman ainda está bem acompanhada por Raffey Cassidy, que interpreta a jovem Celeste e, também, Albertine, destacando-se mais no primeiro papel, que é no melhor momento do filme. Em contrapartida, temos um Jude Law no piloto automático que, surpreendentemente, pouco acrescenta ao filme, apesar de ter muito tempo de tela no papel do agente de Celeste. Stacy Martin também, não está muito inspirada, e é meio estranho que sua Eleanor não tenha envelhecido nada em 17 anos.

É uma pena que todos estes problemas tenham desperdiçado o grande potencial que havia na concepção do filme. Inclusive, a estrutura narrativa, com três atos bem definidos, possui uma ligação bem marcante com uma importante fala de Celeste que, nos instantes finais, acaba ganhando um novo significado. No final das contas, Vox Lux: O Preço da Fama propõe um debate que é incapaz de mediar. É bem provável que seu público encontre respostas e até mesmo questionamentos muito mais relevantes do que aqueles apresentados no filme. Fica então o mérito de ter alavancado as questões, mas seria prudente que, no futuro, Brady Corbet evite dar um passo maior do que as pernas e, quem sabe, ao ter uma grande ideia, busque auxílio com pessoas mais experientes para ajudar a desenvolvê-las. É uma boa forma de evoluir.

Nota do crítico:

 

Nota dos usuários:

[Total: 0    Média: 0/5]


Quer ficar por dentro de todas as novidades sobre filmes e séries? Curta a nossa página no Facebook!

The following two tabs change content below.

André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

Latest posts by André Bozzetti (see all)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close