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Nós | Crítica

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Nós (Us)

Ano: 2019

Direção: Jordan Peele

Roteiro: Jordan Peele

Elenco: Lupita Nyong’oWinston DukeShahadi Wright JosephEvan Alex,Elisabeth Moss,Tim HeideckerYahya Abdul-Mateen IIAnna DiopCali SheldonNoelle SheldonMadison CurryAshley Mckoy.

“Portanto assim diz o Senhor: Eis que trarei mal sobre eles, de que não poderão escapar; e clamarão a mim, mas eu não os ouvirei”. Esta linda mensagem, cheia de amor e compaixão, reproduz um texto do livro de Jeremias. Jeremias 11:11, para ser mais exato. O versículo que estava indicado no cartaz de um homem estranho, em 1986, no dia em que a pequena Adelaide desapareceu da vista dos seus pais por cerca de quinze minutos – quinze minutos que mudaram sua vida para sempre.

Escrito e dirigido por Jordan Peele, responsável também pelo excelente Corra!, Nós apresenta Adelaide Wilson (Lupita Nyong’o) agora em sua idade adulta, três décadas após o evento descrito acima, quando ela se perdeu no parque de diversões da praia de Santa Cruz. Ela vive com seu marido Gabe Wilson (Winston Duke), sua filha adolescente Zora (Shahadi Wright Joseph), e Jason (Evan Alex), seu filho mais novo. A família vai passar alguns dias na casa de praia, próxima a Santa Cruz, e lá Adelaide acaba se deparando com fantasmas de seu passado, que conseguem, finalmente, encontrá-la.

Vários sinais e coincidências vão dando as pistas de que algo irá acontecer. Adelaide percebe, mas Gabe não a leva a sério. Quando o pequeno Jason anuncia para a família que há invasores em frente à garagem da casa, a família jamais imaginaria o pesadelo no qual aquela noite se transformaria. O terror vem em sua forma mais assustadora: a nossa própria imagem e semelhança. Os invasores são cópias quase idênticas da família Wilson. No entanto, com algumas características físicas e comportamentais acentuadas. Ah, e claro, repletos de ódio.

Se em Corra! Jordan Peele foi provocando medo em pequenas doses, dessa vez ele resolve construir um clima incrivelmente tenso de uma vez só. Clima este que não se desfaz facilmente ao subirem os créditos, diga-se de passagem, não só pelos eventos que presenciamos na tela, mas também pelas reflexões que eles proporcionam. No momento em que temos a primeira visão daquela família de mãos dadas no terreno da casa dos Wilson, vestidos em macacões vermelhos e portando afiadas tesouras douradas nas mãos, o terror assume o controle e não larga mais até a conclusão. E este é um mérito que Peele precisa dividir com seu elenco, porque as atuações deles como Sombras (a forma que são chamadas as cópias) estão entre as interpretações mais assustadoras apresentadas no cinema nos últimos anos.

Abraham, a sombra de Gabe Wilson, com sua dificuldade para enxergar; Umbrae, a sombra de Zora Wilson, com seu sorriso maquiavélico e movimentos atléticos; e alguns outros personagens assustadores surgem com essa mesma construção. Mas os maiores destaques vão para Pluto, a sombra de Jason, e Red, a sombra de Adelaide. Pluto usa uma máscara cobrindo todo o rosto e se move como um animal. Uma atuação fantástica do jovem Evan Alex. E Red, com seus movimentos que variam de um modo aparentemente truncado a outros de grande agilidade, dá um show também com seu trabalho vocal. A forma que cada palavra parece machucar ao sair forçadamente de sua garganta, é mais um entre tantos simbolismos marcantes que Peele adicionou à sua narrativa.

Vozes engasgadas, roupas vermelhas representando o ódio e a violência, as tesouras como objeto símbolo de ruptura e libertação, e diversos outros elementos simbólicos surgem na trama. Ah, e temos Gabe. O homem que não consegue enxergar o óbvio. O homem que não consegue enxergar as necessidades de seu semelhante. Não consegue sequer, enxergar uma cópia de si mesmo como um semelhante. Muito pelo contrário — ele se espelha em seu amigo mais rico, com um carro mais caro, com um barco melhor, com uma casa super equipada. Se enxerga e cobiça, enquanto é incapaz de criar o mínimo de empatia com aqueles que estão realmente próximos. Entre tantas metáforas que Peele utiliza em seu novo filme de horror, que deixou de tratar tão especificamente de racismo como em Corra!, esta talvez seja a mais dolorosa. Os outros, aqueles que são como nós, são por vezes invisíveis. “Eis que trarei mal sobre eles, de que não poderão escapar; e clamarão a mim, mas eu não os ouvirei”.

O filme faz diversas referências ao movimento Hands Across America que, em 1986, movimentou milhões de cidadãos estadunidenses a darem as mãos por 15 minutos (não por acaso o mesmo tempo que Adelaide ficou desaparecida), formando uma corrente que cruzava diversos estados, para angariar fundos para os sem-teto e para aqueles que passavam fome nos Estados Unidos. Uma ‘muralha humana’ criada, teoricamente, pelo bem dos seus cidadãos. O que mudou nos 33 anos que se passaram após este evento, que uniu até mesmo políticos famosos, músicos e artistas de cinema? Em que momento passou a ser mais importante gastar bilhões de dólares em um muro, não para alimentar pessoas, mas sim para proibir que imigrantes entrassem em seu país? A linda dose de ironia de Peele é quando certo personagem sugere que a família fuja para o México.

Não, Jordan Peele não trouxe algo inédito ao cinema de horror. E isso não diminui em nada o trabalho fantástico que realizou em suas duas produções do gênero. Ele parece sim ter construído uma identidade marcante, utilizando de maneira admirável a sua criatividade para abordar temas atuais e extremamente relevantes, ao mesmo tempo que habilmente manipula um dos nossos sentimentos mais irracionais: o medo.

Nota do crítico:

 

Nota dos usuários:

[Total: 4    Média: 4.5/5]


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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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