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O Menino Que Descobriu o Vento | Crítica

O Menino Que Descobriu o Vento | Crítica

O Menino Que Descobriu o Vento (The Boy Who Harnessed the Wind)

Ano: 2019

Direção: Chiwetel Ejiofor

Roteiro: Chiwetel Ejiofor

Elenco: Maxwell Simba, Chiwetel EjioforLily BandaAïssa MaïgaRobert AgengoRaymond OfulaJoseph Marcell

O aquecimento global não pode mais ser considerado mito. Desde 1993, quando uma tempestade alastrou territórios do Canadá à América Central, estudiosos começaram a considerá-lo como uma real ameaça à vida na Terra como o conhecemos. Os locais mais afetados foram as regiões mais propensas a seca, como o nordeste do Brasil e os países da África Oriental. Por volta de 2001, uma grande seca atacou essa última região, não chovia direito e o acesso a água era muito difícil, e depois dos ataques terroristas de 11 de setembro, tudo piorou. Diante de toda essa tragédia, um jovem estudioso e pobre do Malawi, país da África Oriental, conseguiu algo melhor do que tirar leite de pedra: ele tirou água da seca. E é essa a história de O Menino Que Descobriu o Vento, estreia na direção do premiado ator Chiwetel Ejiofor, de 12 Anos de Escravidão e Doutor Estranho.

O filme é inspirado no livro homônimo de William Kamkwamba e Bryan Mealer. Kamkwamba, protagonista dessa história, viu de perto o que era a fome cruel do Malawi e hoje sai dando palestras pelo mundo como uma figura inspiradora, mas também, e até mais importante, abris os olhos do mundo sobre a situação da fome no país e no mundo. Kamkwamba não é apenas um empreendedor, é um sobrevivente.

William Kamkwamba é interpretado pelo queniano Maxwell Simba. O jovem nunca havia atuado em sua vida e, para um primeiro trabalho, Simba manda muito bem. O garoto emite uma ótima atuação contida na maior parte do tempo e nas poucas vezes em que seu personagem precisa entregar mais emoção, ele também faz o trabalho direitinho. Algumas das cenas finais, principalmente as que envolvem Chiwetel Ejiofor, que interpreta o pai do protagonista, são de doer o coração. Os dois juntos entregam cenas emocionantes.

Assim como em Beasts of No Nation, outra produção da Netflix sobre uma crise em um país da África, vemos toda a situação com o olhar um pouco infantil. Mesmo que William não seja mais uma criança no filme (o garoto tem algo em torno dos 12, 13 anos e trabalha consertando eletrônicos para a comunidade), ele possui uma inocência diante de momentos tão catastróficos. Em uma determinada cena, por exemplo, o jovem não entende que dar comida para seu cachorro significa uma refeição a menos para sua família.

O Menino que Descobriu o Vento dá um bom espaço às personagens femininas. Na família Kamkwamba, temos Agnes (Aïssa Maïga), a mãe de três filhos que fica por conta das atividades domésticas, e temos Annie (Lily Banda), a filha mais velha da casa que teve a oportunidade de estudar e possui capacidade de ingressar em uma universidade, só não tem o dinheiro para isso. Essa característica de Annie permeia boa parte das conversas entre ela e sua mãe, que não quer ver a filha apenas como uma mãe do lar, mas sim como uma mulher com uma vida mais digna. Os diálogos entre as duas são ótimos, mas um pouco mais de desenvolvimento nas personagens faria bem ao resultado final.

O filme tem ainda outros elementos que o tornam uma ótima produção. A direção de Ejiofor, por exemplo, é um deles. O cineasta estreante sabe conduzir cenas que precisam de movimento e em alguns momentos opta por não mostrar a real ação, que acontece em outro lugar e isso gera uma boa tensão; é claramente uma escolha vinda do baixo orçamento, mas mostra que ele soube se virar muito bem. Tudo isso aliado a uma bela fotografia com lindas cenas no crepúsculo mostram que Ejiofor tem um futuro promissor na função.

O Menino Que Descobriu o Vento vai além da técnica e não é só a estreia de um ator no cargo de direção, é um filme reflexivo. Ao final da película (estranho dizer isso, já que é uma produção para o streaming, embora tenha sido exibida em cinemas selecionados), o espectador fica aliviado ao saber que o sofrimento acaba após Kamkwamba construir um moinho de vento para gerar energia e fazer a bomba de água funcionar, mas também reflete sobre a desigualdade social e a corrupção governamental tão presente em praticamente todos os países do continente africano. Seria muito bom se todos pudéssemos fazer alguma coisa a respeito daquele povo, mas no final, a impressão que fica é que nós do Ocidente somos como os dançarinos do Gule Wamkulu, que aparecem só para reconfortar depois da perda e não fazem nada enquanto a desgraça acontece. É estranho porque até eles também estão suscetíveis a morrer de fome…

Nota do crítico:

 

Nota dos usuários:

[Total: 2    Média: 5/5]

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João Vitor Hudson

João Vitor Hudson é um publicitário aos 22 anos. Ama cinema desde quando desejava as férias escolares só pra assistir todos os filmes do Cinema em Casa e da Sessão da Tarde. Ama o MCU, e confia bastante no futuro da DC nos cinemas.

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