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Fé Corrompida | Crítica

Fé Corrompida | Crítica

Fé Corrompida (First Reformed)

Ano: 2018

Roteiro: Paul Schrader

Direção: Paul Schrader

Elenco: Ethan HawkeAmanda SeyfriedCedric Kyles, Victoria Hill, Philip Ettinger, Michael Gaston, Bill Hoag

Paul Schrader é um diretor mais conhecido pelos filmes que apenas roteirizou do que pelos quais dirigiu, mais especificamente com Martin Scorsese na direção. Com Taxi Driver, Touro Indomável e A Última Tentação de Cristo no currículo, é clara a obsessão de Schrader por protagonistas difíceis, quebrados e de formação católica; o próprio diretor cresceu em um lar tão estritamente religioso, que assistiu o seu primeiro filme com 17 anos. First Reformed (tragicamente adaptado para Fé Corrompida no Brasil) é um estudo da fé, bem como uma crítica ao que as igrejas se tornaram hoje.

O longa começa com o reverendo Ernst Toller (Ethan Hawke), responsável pela histórica Igreja Primeira Reformada de Snowbridge, Nova York, iniciando um projeto de manter um diário durante um ano para relatar os eventos de seus dias. Perto do aniversário de 250 anos da reconsagração da igreja, conflitos aparecem na vida do reverendo quando a fiel Mary (Amanda Seyfried) o procura, preocupada com o marido dela. Michael Mensana (Philip Ettinger), ativista recentemente solto após ter sido preso em um protesto, é deprimido por conta de suas aterradoras preocupações com o futuro do planeta: aquecimento global, mudanças climáticas, temperaturas extremas. A vida na Terra deve estar insustentável em 2050. Os medos de Michael se intensificam quando Mary descobre que está grávida e pretende que a esposa aborte a criança.

Ao ouvir tudo que Michael tinha a dizer com suas preocupações em trazer uma criança a esse mundo, Toller se deixa intoxicar pelos ideais do ativista; algo simples de acontecer quando se tem em vista que o pastor também é um homem deprimido. Ernst Toller é um ex-militar que largou o Exército depois do seu filho, alistado por influência do pai, ter sido morto em combate. A morte do filho também resultou em divórcio e, depois de se perder, Toller entrou na igreja. Mesmo com a sua fé, ele está longe de estar totalmente reformado. Com problemas de saúde proressivos, ele nega os cuidados e a preocupações de Esther (Victoria Hill), uma colega, e Joel Jeffers (Cedric Kyles), pastor da mega igreja Abundant Life.

Mesmo sendo uma pessoa completamente fechado, o protagonista deixa Mary entrar na sua vida. Dividindo a preocupação com o estado depressivo de Michael, Toller consegue dividir momentos de intimidade e leveza com a grávida. Algo que é muito importante para a evolução do personagem, que não consegue ver nada além de escuridão no mundo.

À primeira vista, Fé Corrompida é um cínico comentário em como funcionam as igrejas (e os fiéis) atualmente. A Primeira Reformada, apesar de ter uma grande importância histórica, é resumida apenas ao status de ponto turístico, com pouquíssimos fieis presentes nas missas — enquanto a Abundant Life concentra o maior número de pessoas. Em uma cena emblemática num grupo de jovens, o filme aborda os extremismos dos jovens atuais, que são muito intensos com tudo. Toller questiona inúmeras vezes o papel da igreja diante dos conflitos climáticos que o mundo enfrenta (algo que todos sabem, mas são poucos os dispostos a fazer algo a respeito) e no que ele pode ajudar. A hipocrisia também é vista nas boa relação da Abundant Life com Ed Balq (Michael Gaston), industrialista parcialmente responsável pelos problemas ambientais que tenta pegar o auge moral da situação.

Ethan Hawke sempre escolheu ótimos projetos ao longo de sua carreira, mas nenhum papel do ator até agora exigiu tanto dele como o do Reverendo Toller, entregando uma de suas melhores atuações do ano (se não a melhor) — chega a ser revoltante como Hawke foi completamente esnobado nas grandes premiações. O veterano dificilmente conseguirá a chance de brilhar em um personagem não só perfeito para ele, mas tão complexo e frágil. Conforme o filme vai avançado, Toller fica mais absorto em seus próprios problemas e no caos do mundo — e Hawke é brilhante em toda cena. Amanda Seyfried e Philip Ettinger também estão muito bem em seus papéis, mas o destaque do elenco de apoio vai para Cedric, the Entertainer, conhecido principalmente em trabalhos cômicos, mas que aqui entrega uma performance sólida.

O roteiro de Paul Schrader é altamente imersivo e terrivelmente bem escrito, cada diálogo do filme prende a atenção e revela bastante sobre os personagens. Logo no começo, a conversa entre o reverendo e o ativista perturbado, mesmo durando mais de 10 minutos, é nada menos do que emocionante. Apesar do início lento, o filme nunca entedia e escolhas muito corajosas são feitas na meia hora final, onde o filme se entrega a certa insanidade sem se distanciar do que realmente é — mas que, com certeza, pode distanciar certos membros da audiência. A direção de Schrader não fica muito atrás de sua escrita. A atmosfera do filme e sombria e sem esperança, ampliada por uma sóbria trilha sonora e uma fotografia que somada ao aspecto 4:3 da projeção cria imagens assombrosas nas tomadas externas, mas sempre parece mais acolhedora dentro das igrejas, onde o branco e cores pastéis acolhedoras dominam.

Chegando a um final impactante e que convida o espectador a refletir muito após o final dos créditos, Fé Corrompida é um trabalho genial em todos os aspectos possíveis. Mas, infelizmente, não tão apreciado quanto deveria tanto pelas premiações quanto pelo público. Logo no começo da trama, Michael pergunta para o reverendo Toller: “Deus nos perdoará pelo que fazemos com a criação Dele?”, pergunta que é repetida do pastor para o seu superior. E eu vos pergunto, Deus nos perdoará por temos esnobado Ethan Hawke e Paul Schrader?

Nota do crítico:

 

Nota dos usuários:

[Total: 3    Média: 5/5]

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Estudante de jornalismo, tem 20 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli e de musicais, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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