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Todos Já Sabem | Crítica

Todos Já Sabem | Crítica

Todos Já Sabem (Todos Lo Saben)

Ano: 2018

Direção: Asghar Farhadi

Roteiro: Asghar Farhadi

Elenco: Penélope CruzJavier Bardem, Ricardo DarínCarla CampraEduard FernándezBárbara LennieInma CuestaElvira MínguezRamón Barea.

O tempo. Albert Einstein já dizia que “a diferença entre passado, presente e futuro é apenas uma persistente ilusão”. Mesmo que esta frase ilustre apenas um aspecto da sua famosa teoria da relatividade, podemos interpretá-la também de forma mais metafórica. Em Todos Já Sabem, em meio a tantos personagens marcantes, o próprio tempo chama o protagonismo para si. O passado jamais ficou para trás, e o presente não dá nenhuma perspectiva de futuro.

Escrito e dirigido por Asghar Farhadi, o filme nos apresenta Laura (Penélope Cruz), que quando jovem deixou o pequeno povoado espanhol onde nasceu para ir viver na Argentina com seu marido Alejandro (Ricardo Darín). Ela volta à sua terra natal para o casamento de sua irmã mas, durante a festa, sua filha Irene (Carla Campra) desaparece, e logo se descobre que ela foi sequestrada. Em meio às investigações feitas pelos próprios familiares e aos pedidos de resgate, o passado da família vem à tona, fazendo renascer amarguras, revivendo antigos conflitos e revelando importantes segredos.

Não foi à toa que o iraniano Asghar Farhadi conquistou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por duas vezes. A sensibilidade de sua direção, já conhecida nos premiados A Separação e O Apartamento, está novamente presente. Já em seus planos iniciais, vemos detalhes de engrenagens corroídas, movendo-se com dificuldade em um antigo relógio com o mostrador quebrado, na torre de uma igreja. Lá em cima, escondido atrás da passagem do tempo, estão evidências do passado, do qual todos sabem mas, ao mesmo tempo, todos evitam comentar. A direção é também eficiente ao mostrar o crescimento da tensão da relação entre os personagens na medida em que vão se esgotando as possibilidades de solucionar o mistério por trás do rapto. As suspeitas, as mágoas, as cobranças, tudo parece estar em uma panela de pressão que, eventualmente, irá explodir.

O ponto mais forte do filme é, sem dúvida, esta dinâmica das relações familiares. Infelizmente, o terceiro ato apresenta a opção por uma conclusão em um formato previsível, dando um enfoque maior na solução do mistério do que nas consequências daqueles conflitos. Dessa maneira, tudo que foi tão bem construído durante cerca de 100 minutos, se transforma em uma série de pontas soltas, e de histórias inacabadas. E tudo isso apenas para dar uma explicação desnecessária. Uma solução fraca para um mistério que sequer precisava ser solucionado. Assim, um drama familiar cheio de camadas se transforma em um suspense raso, e personagens que pareciam tão complexos são esquecidos e subutilizados. Sem contar, o tempo excessivo dedicado a pistas falsas e inúteis, em planos repetitivos que, no final das contas, não levam a lugar algum.

Enquanto a narrativa ainda está focada nos conflitos entre os personagens, é fantástico enxergar as transformações pelas quais passam todos os membros da família. A chegada de Laura e seus filhos, com demonstrações de amor e euforia por parte dela e das irmãs, a alegria contagiante de Paco (Javier Barden) e a empolgação no reencontro dos primos, de uma hora para outra se transforma em um clima frio e sombrio. Penélope Cruz volta a entregar uma atuação incrível ao mostrar sua personagem desmoronando enquanto teme pela segurança de Irene, deixando bem claro que nada importa mais do que o desejo ter sua filha de volta. Sua fisionomia se altera completamente a partir do momento em que percebe que as opções praticamente se esgotaram, e ela precisa tomar uma atitude drástica. Ricardo Darín aparece tardiamente no filme e, devido às características de seu personagem, pouco pode oferecer. Como diz Laura em defesa de sua aparente tranquilidade, ele não demonstra seus sentimentos.

Javier Bardem está, como sempre, sensacional. Seu personagem Paco toma as rédeas da investigação desde o início, e é quem mais sofre com o desenrolar dos acontecimentos. Sendo ele um ex-empregado da família, que acabou casando com uma das filhas do patrão, não demora para que os eventos do passado respinguem nele. Enquanto corre atrás de pistas e de uma solução para trazer Irene de volta, é evidente o desgaste emocional que sofre devido à pressão em casa por parte de sua esposa, e na casa dos sogros, por parte de toda a família.

Sendo assim, mesmo que o terceiro ato deixe uma sensação de que o filme desperdiçou parte de seu potencial, a sensação final ainda é positiva devido ao trabalho eficiente da direção e elenco, e das reflexões que são apresentadas a respeito do amor, da família, da lealdade e das marcas do tempo. No início do filme, quando Paco está falando para uma turma de alunos de sua esposa sobre o processo de produção de vinho, ele diz que o tempo é que forma o caráter, tanto das pessoas quanto dos vinhos. No entanto, ele aprende da forma mais dura que o vinho, mesmo após anos de fermentação, não deixa de ser apenas um punhado de uvas amassadas.

Nota do crítico:

 

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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