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A Mula | Crítica

A Mula | Crítica

A Mula (The Mule)

Ano: 2018

Direção: Clint Eastwood

Roteiro: Sam Dolnick 

Elenco: Clint EastwoodBradley Cooper, Alison EastwoodTaissa FarmigaDianne WiestMichael Peña.

Saindo da sessão de A Mula, a caminho de casa, surge na seleção randômica do meu serviço de streaming a música O Velho e o Moço, da banda Los Hermanos. E a seguinte frase cai como uma luva com o que eu acabara de assistir: “E se eu fosse o primeiro a voltar pra mudar o que eu fiz, quem então agora eu seria?”. Isso porque a verdadeira ameaça a Earl Stone (Clint Eastwood) na história não é o departamento de narcóticos, e nem mesmo o perigoso cartel de drogas mexicano, mas sim o seu próprio passado, as decisões que tomou e que deram o rumo de sua vida. Apesar disso, estas decisões foram necessárias para que ele pudesse, muito tempo depois, finalmente enxergar com clareza tudo o que era verdadeiramente importante.

Inspirado na história real de Leo Sharp, Earl Stone é um horticultor, especializado em lírios, veterano da Guerra da Coréia, que negligenciou sua família durante décadas enquanto se dedicava unicamente ao trabalho. Doze anos após deixar de comparecer ao casamento de sua filha Iris (Alison Eastwood, filha do diretor também na vida real) e, por isso, virar persona non grata na família, Earl se vê falido, e perde até sua casa por não conseguir pagar a hipoteca. Sem ter para onde ir, ele aparece no almoço pré-nupcial de sua neta Ginny (Taissa Farmiga), apenas para vivenciar outra briga com a filha e a ex-mulher. No entanto, ao sair da festa, ele é abordado por um dos convidados, que lhe oferece um serviço simples: transportar encomendas de um estado para o outro. Sem ter outra opção para ganhar dinheiro no momento, Earl aceita. Apenas depois de algumas entregas, ele descobre exatamente o serviço que estava realizando. Mas aí já era tarde: ele tinha se tornado a mais eficaz das “mulas” do cartel mexicano nos Estados Unidos.

Diferentemente do que vemos em Feito na América, outra produção baseada na história real de um estadunidense transportando drogas a mando de cartéis estrangeiros, na qual o piloto vivido por Tom Cruise precisa escapar de diversas situações inacreditáveis, Earl carrega centenas de quilos de cocaína em sua picape pelas estradas, praticamente sem ser incomodado pela polícia. O foco desta história não está na aventura e nem na adrenalina das grandes perseguições, e sim na compreensão tardia do personagem sobre como sua vida egoísta e, por vezes narcisista, destruiu quase completamente seus laços familiares. Esta reflexão começa a surgir cada vez com mais força em conversas com as pessoas mais improváveis. Além dos arrependimentos, Earl, em idade avançada, demonstra uma certa dificuldade em se adaptar aos dias atuais, desde manusear aparelhos celulares até saber como se referir corretamente a negros ou homossexuais.

Neste ponto, em particular, a atuação de Eastwood é excelente. Ele faz com que Earl expresse uma certa surpresa e ache graça ao ser corrigido, ao mesmo tempo que demonstra um certo orgulho pelo que aprendeu. Depois, sai repetindo de forma quase infantil os novos termos que lhe foram apresentados. Dá a entender que o personagem, ao ser forçado a abandonar uma rotina que durava décadas, finalmente passou a conhecer outras realidades, outras visões de mundo, e se encantou com a possibilidade de evoluir, mesmo que próximo dos 90 anos de idade. Paralelamente a esta sucessão de aprendizagens, a fragilidade física de Earl o faz efetivamente parecer uma criança descobrindo o mundo. E é divertido ver como seu comportamento inesperado produz mudanças até mesmo no tratamento que os traficantes tinham com ele e entre si.

A reconstrução dos laços familiares que ele busca nesta nova fase de sua vida é o ponto mais forte e bem desenvolvido do filme, apresentando de forma sensível sua relação com Iris, Ginny e sua esposa Mary (Dianne Wiest). E as três atrizes se saem muito bem, com destaque para Wiest que, apesar de todo ressentimento, sempre deixa escapar demonstrações de saudades dos bons momentos passados com o marido, e como sofre por ele ter deixado tudo aquilo em segundo plano. Por outro lado, o núcleo do departamento de narcóticos, cujo principal personagem é o agente Colin Bates (Bradley Cooper), parece totalmente deslocado do filme. Os eventos e diálogos que acontecem entre os agentes influenciam muito pouco no desenrolar da história para justificar o tempo dedicado a eles. Isso faz com que algumas situações presentes no terceiro ato soem artificiais, visto que não tiveram uma boa conexão construída anteriormente. Além disso, as cenas que se passam no ambiente do cartel mexicano são pouco aprofundadas, e possuem uma conclusão pouco coerente com o que foi mostrado até então.

A impressão que fica é que o roteiro do filme cometeu o mesmo erro de seu protagonista: não dedicou à família o tempo que ela merecia. O que é uma pena, já que Eastwood mostrou anteriormente que tem uma grande sensibilidade para histórias focadas em laços de família ou amizade, como visto nos excelentes Sobre Meninos e Lobos e Menina de Ouro. No final das contas, essa transição entre as várias situações paralelas não possui uma fluidez natural, o que dificulta que se crie uma conexão mais profunda com os personagens, consequentemente tornando o filme bem menos tocante do que poderia ser.

Em alguns momentos, Eastwood parece utilizar Earl apenas como uma ferramenta, com o objetivo de dar conselhos que ele gostaria de dar, e fazer questionamentos que ele talvez se faça na vida real. E, assim como Earl, mesmo que tardiamente, se permite evoluir e reconhecer erros. Considerando que ao declarar apoio a Donald Trump em 2016, Eastwood reclamou do politicamente correto e de como tudo era considerado racismo, é curioso que seu novo trabalho dedique pelo menos duas cenas apenas para mostrar Earl revendo seus conceitos sobre raça e sexualidade, e outras duas (uma relativamente longa) criticando a forma como os mexicanos (ou pessoas que “parecem” mexicanas) são tratados pela polícia nos Estados Unidos. Por fim, tanto para Eastwood quanto para Earl, cabe novamente recorrer a um trecho da música citada lá no primeiro parágrafo: “Se o que eu sou é também o que eu escolhi ser, aceito a condição”. Não há porque perder tempo com arrependimentos, mas sim utilizar sua experiência para seguir evoluindo, no tempo que ainda lhes resta.

Nota do crítico:

 

Nota dos usuários:

[Total: 1    Média: 3/5]


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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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