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Velvet Buzzsaw | Crítica

Velvet Buzzsaw | Crítica

Velvet Buzzsaw

Ano: 2019

Roteiro: Dan Gilroy

Direção: Dan Gilroy

Elenco:  Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Toni Collette, Zawe Ashton, Tom Sturridge, Natalia Dyer, Daveed Diggs, Billy Magnussen, John Malkovich

 

Depois de duas décadas atuando como roteirista, Dan Gilroy estreou na direção com o impressionante O Abutre, marcado por uma das melhores performances da carreira de Jake Gyllenhaal como uma afiada crítica ao sensacionalismo do telejornalismo que visa explorar a violência como um meio de garantir a audiência. Após seu segundo filme, Roman J. Israel,ter críticas divisivas, Gilroy agora se reúne mais uma vez com Gyllenhaal para o seu novo longa, onde a sátira agora se destina a indústria da arte e do criticismo como um todo.

Morf Vanderwalt (Jake Gyllenhaal) é um cultuado e igualmente temido crítico de arte moderna que já destruiu as peças e as carreiras de inúmeros artistas com suas críticas ardilosas, que dizem coisas como “Desde o Titanic não havia um desperdício tão grande de metal”. Morf tem um relacionamento com a sua amiga e agente Josephina (Zawe Ashton), que trabalha em uma famosa galeria e pretende subir na vida como agente. A dona da tal galeria, Rhodora Haze (Rene Russo), antiga integrante da banda de punk rock Velvet Buzzsaw, está disposta a tudo para assegurar as melhores peças de arte para a sua galeria.

Existe também a ambiciosa Gretchen (Toni Collette) que deixa de ser a curadora particular de Morf para exercer a mesma função com clientes mais ricos; um funcionário da manutenção da galeria, Bryson (Billy Magnussen), que é um artista fracassado e Damrish (Daveed Diggs), um ex-morador de rua que conseguiu se dar bem na vida quando repararam na sua arte. Por fim, John Malkovich dá a vida a Piers, um talentoso artista abstrato que saiu do seu auge por causa da sobriedade – suas melhores pinturas eram fruto de seu forte alcoolismo.

Se o conteúdo dos dois parágrafos anteriores soa como informação demais, eu ainda não cheguei ao enredo da narrativa, indo direto para o maior problema de Velvet Buzzsaw, seu enorme número de personagens, cada um com seu drama individual, e a progressão na história. A trama acaba não sendo tão focada quanto deveria por conta de todos os personagens que o roteiro tenta balancear, sem sucesso. O romance entre Morf e Josephina, por exemplo, nunca cativa e toma um bom tempo da projeção.

Os conflitos começam quando Josephina se depara com as pinturas de seu vizinho, Ventril Dease (Alan Mandel), recentemente encontrado morto. A qualidade e o assombro que as obras do artista, marcado por um passado trágico e misterioso, causam, fazem com que a agente ignore as instruções deixadas pelo falecido de destruir tudo para fazer desta a sua grande chance de fazer a carreira deslanchar. As obras viram sucesso instantâneo e seu valor rapidamente chega aos oito dígitos. No entanto, todas as peças ganham vida e tendem a assassinar quem pretende faturar com elas ou possuí-las.

A comédia de horror acerta em um dos gêneros e falha no outro. Enquanto o filme da Netflix é bem humorado, ele funciona. Jake Gyllenhaal se mostra um ótimo ator cômico com seus maneirismos e o jeito afetado com a qual entrega as suas falas – a cena do enterro é hilária. Quando Velvet Buzzsaw se entrega ao terror, o longa perde totalmente a força. Mesmo que os enquadramentos, movimentos de câmera e trilha sonora assumam características mais sombrias e antecipem o mal que está prestes a ocorrer, a tensão e o suspense são pouco efetivos. E em nada colabora o fato de que todos os personagens da trama são fúteis, arrogantes e ambiciosos. Não tem como criar nenhum tipo de afeto por eles, e quando morrem, pouco importa.

As mortes, além de nada efetivas, são pouco inspiradas – com a exceção de uma que é deliciosamente sangrenta. A dinâmica do filme ecoa franquias de terror como Premonição e Pânico. Outro fator que atrapalha no terror é a falta de regras claras sobre como a tal maldição funciona. Originalmente, o filme dá a entender que apenas as obras de Dease ganham vida, mas diversas outras são reanimadas sem nenhuma espécie de padrão ou relação uma com as outras, pois até as pessoas que tentam tirar os quadros de circulação são afetadas.

O longa também não acerta no ponto das suas ácidas críticas. A sátira ao mercado da moda é divertida e mostra algumas práticas nada respeitáveis do meio, como propositalmente deixar de fora obras da exposição para o valor delas aumentarem o tempo. Todos os personagens do meio artístico, com exceção da estagiária Coco (Natalia Dyer), são impossíveis de agradar, superficiais e insuportáveis. O prospecto da morte deles acaba sendo mais aliviante do que preocupante.

A forma rasa a qual o filme aborda a crítica especializada é um problema. Morf Vanderwalt é construído como um crítico esnobe, auto importante e cruel em seus textos (mesmo que seja assombrado por uma crítica negativa que escreveu de algo que, na verdade, tinha gostado). E as pessoas ao seu redor o criticam, como quando seus comentários fazem uma obra inovadora sair de circulação, mas mesmo que tente, pouco a produção faz a respeito. O que poderia ser melhor se propriamente explorado, como foi o caso de Ratatouille, não vai a lugar algum.

Ancorado apenas por uma ótima performance cômica de Jake Gyllenhaal e um ótimo senso de humor, Velvet Buzzsaw não funciona nem como terror e tampouco como sátira, falhando em duas das suas três propostas. Assim como todas as obras largadas em armazéns no filme, este também em breve será esquecido.

Nota do crítico:

Nota dos usuários:

[Total: 3    Média: 2.7/5]

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Estudante de jornalismo, tem 20 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli e de musicais, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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