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Vice | Crítica

Vice | Crítica

Vice 

Ano: 2018

Direção: Adam McKay

Roteiro: Adam McKay

Elenco: Christian BaleAmy AdamsSam RockwellSteve CarellAlison PillEddie MarsanLisaGay HamiltonJesse PlemonsLily RabeTyler Perry.

O cinema muitas vezes é um retrato da época em que vivemos. No entanto, algumas vezes, ele é capaz de nos mostrar como chegamos onde estamos. Um espelho apontado para o nosso passado que explica o nosso presente. E conhecer a história é fundamental para garantir que erros não se repitam. Alguns meses atrás, o sensacional Infiltrado na Klan, de Spike Lee, deu voltas e voltas em sua trama até, em seu desfecho, jogar na cara do público as consequências de antigos discursos que foram disseminados sem controle na sociedade. E agora, com Vice, nós enxergamos os bastidores de outros eventos, que ocorreram quase paralelamente, e que ajudaram a consolidar o clima de medo e ódio que assombra não só os Estados Unidos, mas praticamente o mundo todo nos dias de hoje, principalmente através de grupos como o Estado Islâmico, do qual vemos aqui a semente ser plantada.

Vice, escrito e dirigido por Adam McKay, nos mostra como Dick Cheney (Christian Bale) evoluiu, em pouco mais de três décadas, de um estudante fracassado a um dos homens mais poderosos do mundo, cujas decisões mudaram a história dos Estados Unidos e de muitos outros países. O filme é recheado de informações, mas também de suposições, visto que Cheney desenvolveu o dom de não se fazer notar. Assim, foi passando por cargos cada vez mais importantes dentro dos governos, formando alianças e consolidando seu poder nos bastidores da política, sem jamais precisar estar sob os holofotes.

Logo no início do filme, nos deparamos com dois momentos muito distintos da vida de Cheney. Sendo parado pela polícia enquanto dirigia embriagado, em 1963, e tomando controle das ações de defesa do país após o ataque da Al Qaeda às Torres Gêmeas e ao Pentágono, em 2001. A partir destas imagens, vemos a importância de sua futura esposa Lynne (Amy Adams) para que aquele jovem irresponsável e sem perspectiva se tornasse uma espécie de “mestre dos bonecos” do governo de George W. Bush (Sam Rockwell), um presidente imaturo, que queria provar ao pai sua capacidade de governar, mas sem viver na sombra do mesmo. Nesta versão da história que nos é apresentada, a principal motivação de Dick, inicialmente, é provar para Lynne que ele não era um perdedor, e que podia dar um bom futuro a ela e sua futura família. E esta ideia persiste por muito tempo, até que vemos se confirmar a célebre frase de John Dalberg Acton“O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente, de modo que os grandes homens são quase sempre homens maus” – visto que, em determinado momento, a sede de poder passa por cima até mesmo do cuidado com a família.

Através de uma montagem não linear, enxergamos momentos distintos da vida de Dick Cheney se contrapondo continuamente. Em alguns momentos de rápida alternância entre diferentes fases da vida do então congressista, recheados de imagens que ilustram metáforas sobre suas atitudes ou táticas de persuasão, somos bombardeados de informações que nem sempre são assimiladas instantaneamente, mas começam a fazer muito sentido e ser melhor compreendidas no decorrer da história. Devido a esta montagem picotada, em que avançamos e recuamos no tempo, o ritmo do filme se mantém sempre atraente, não deixando que os temas extremamente técnicos, linguagem jurídica e outros assuntos burocráticos o tornem chato ou cansativo.

Outro ponto que auxilia bastante no ritmo do longa é a química perfeita de praticamente todo o elenco, fazendo com que os diálogos sempre fluam bem, com o timing correto, tanto nos momentos cômicos quanto nos mais dramáticos. Amy Adams, em uma das melhores atuações de sua carreira, faz de Lynne uma personagem fantástica. Uma mulher extremamente inteligente e conservadora, com plena consciência que, apesar de toda sua capacidade intelectual, a sociedade americana machista jamais permitiria que ela alcançasse uma posição de destaque. Sendo assim, a única forma de conseguir esta ascensão é através da figura de seu marido, e ali ela apostas todas suas fichas, e assim vemos que por trás daquele homem que manipulava o povo, a imprensa e os políticos, tinha uma outra pessoa também puxando algumas cordinhas.

A interação entre Dick Cheney e Donald Rumsfeld (Steve Carell), por sua vez, possui um arco sensacional. A dinâmica entre os dois personagens ilustra muito bem a evolução de Cheney. Afinal, ele chega ao congresso americano como uma espécie de estagiário de um arrogante e ambicioso Rumsfeld, e enquanto ocorrem as transformações incrivelmente realistas na aparência de Dick (fruto da dedicação obsessiva de Christian Bale, e uma maquiagem irrepreensível), vemos também o amadurecimento de suas ideias e estratégias, sempre pautadas no grande poder de observação e na paciência para esperar o momento certo de dar o bote. Bale torna seu Cheney cada vez mais autoconfiante, sempre mantendo a discrição, enquanto Carell apresenta um Rumsfeld debochado e por vezes inconsequente, que vê o poder de seu ex-estagiário crescer vertiginosamente até se tornar muito mais influente do que ele próprio chegou um dia a ser.

Algumas reuniões com diálogos absurdos dão um tom de deboche à produção e mostram, através do senso de humor, o quanto os governantes realmente tripudiam sobre a população. Em alguns momentos, o tom se assemelha ao documentário em função da reconstituição de fatos e momentos históricos, e o humor ácido por trás desta realidade remete aos filmes de Michael Moore, em especial a Fahrenheit 11/09. Outro fator que traz um grande realismo ao filme é a caracterização extremamente fiel de seus personagens. Os atores ficaram incrivelmente parecidos com as pessoas que eles representam, que tanto vimos na TV em momentos históricos. Além dos protagonistas da trama, merecem destaque as figuras de Colin Powell (Tyler Perry) e Condolezza Rice (LisaGay Hamilton), que estão absolutamente idênticos.

Vice nos mostra como o cargo de presidente dos Estados Unidos da América passou a dar plenos poderes a quem o ocupa, inclusive de delegar ao vice-presidente funções e permissões jamais antes imaginadas. Enquanto vemos Cheney colocar em prática diferentes entendimentos da constituição americana com o apoio de juristas absolutamente parciais, com interesses próprios, podemos compreender tanto o que se passou nos Estados Unidos pós 11/09 quanto aquele grande acordo nacional “…com o Supremo, com tudo…” que aconteceu no Brasil em 2014.

A criação da Fox, como um canal que daria todo o suporte midiático que o Partido Republicano necessitava, é outro ponto importante mostrado no filme para apresentar as estratégias de manipulação da opinião pública. Assim, percebemos o quão frágeis podem ser nossas instituições e, por consequência, a fragilidade da democracia, quando ela vai de encontro ao interesse dos poderosos. E como é fácil perder, através de uma simples assinatura ou de um telefonema, direitos e conquistas que levaram tanto tempo para serem alcançados.

Nota do crítico:

 

Nota dos usuários:

[Total: 1    Média: 4/5]

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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Comments

  1. Muito bom descobrir suas críticas , Bozzetti, aqui no Bode na Sala. Vou continuar acompanhando. Vice nos deixa meio tontos com tanta informação que desconhecemos a respeito dos retratados, mas em nenhum momento fica confuso ou de dificil compreensão. O diretor Adam McKay continua afiado na cr´ítica às mazelas dos States, repetindo o tom debochado e pendendo para o cômico que foi o tratamento de seu filme anterior, A Grande Aposta.

    • Muito obrigado, Sidnei! Realmente, o filme não fica confuso. É só uma enxurrada de informações que levam um tempo para serem assimiladas. heheheh

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