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Morto Não Fala | Crítica

Morto Não Fala | Crítica

Morto Não Fala

Ano: 2018

Direção: Dennison Ramalho

Roteiro: Dennison RamalhoCláudia Jouvin.

Elenco: Daniel de OliveiraFabiula NascimentoCauã MartinsAnnalara PratesBianca Comparato, Marco RiccaMarcos Kligman, Cristian Verardi.

Eu tenho sérias restrições a filmes de terror. Não é que eu não goste do gênero, muito pelo contrário. O que eu não gosto é de sentir medo e, por isso, me torno muito exigente com os filmes de terror que assisto. Se é para viver momentos de pânico e sofrimento, o filme tem que valer a pena! Passar 90 a 120 minutos angustiantes por uma história boba e esquecível é, para mim, um péssimo investimento de tempo e dinheiro. Dito isso, confesso que nos últimos anos tive poucas experiências agradáveis com produções do gênero mas, ao que parece, as coisas podem estar mudando.

Morto Não Fala é o primeiro longa-metragem dirigido por Dennison Ramalho, que também assina o roteiro ao lado de Cláudia Jouvin. O filme é baseado em um conto de Marco de Castro, e conta a história de Stênio (Daniel de Oliveira), funcionário do IML em um bairro violento de São Paulo. Stênio possui o estranho dom de conversar com os mortos, algo que ele mantém em segredo, inclusive da própria família — a esposa Odete (Fabiula Nascimento) e os filhos Edson (Cauã Martins) e Ciça (Annalara Prates). Normalmente ele dialoga brevemente com os recém-chegados, enquanto limpa e costura seus corpos após as necrópsias. No entanto, no momento em que o corpo de um homem assassinado lhe informa sobre a infidelidade de Odete, Stênio faz algo que jamais deveria: ele trai a confiança dos mortos e faz uso, em benefício próprio, dos segredos que lhe foram confidenciados . Isso não é nem um pouco bem visto pelos habitantes do além, e Stênio começa a sofrer as consequências por sua atitude impensada.

A premissa do filme já é suficiente para atrair a atenção, mas ele ganha ainda mais força graças ao roteiro cuidadosamente escrito, que apesar de não trazer grandes surpresas, é extremamente honesto, coerente e bem resolvido. A previsibilidade da trama ocorre justamente pelas peças do quebra-cabeças que nos vão sendo entregues pouco a pouco. Uma fala, um objeto, uma reportagem na TV. Qualquer coisa que ganha algum destaque na tela, sem dúvida terá uma consequência a seguir. Ao final, cada evento e reviravolta da trama possui uma justificativa bem adequada em algum momento anterior, sem a necessidade de surpreender o público com algum elemento novo.

No entanto, esta previsibilidade não estraga nem um pouco a experiência. Muito pelo contrário. A direção de Dennison Ramalho é eficiente em nos possibilitar prever apenas o que ocorrerá nos minutos seguintes, construindo a tensão no público pela antecipação do perigo. Perigo este que, quando realmente se apresenta, é quase sempre visualmente impactante, capaz de provocar calafrios. Inclusive, esta construção é tão bem idealizada que podemos antecipar os momentos dos poucos jump scares presentes no filme e, mesmo assim, eles cumprem o objetivo de fazer o público saltar na cadeira. O filme que começa de maneira mais leve, até com toques de humor, tem uma tensão crescente a partir do início do segundo ato e, ao final, está totalmente imerso no horror e flertando com o gore. E o mais importante, em sua conclusão, não são necessários flashbacks com cenas do filme para mostrar as pistas que já tinham sido dadas anteriormente, que algumas vezes são bem utilizados (vide O Sexto Sentido), mas muitas vezes soam como um insulto à inteligência do público (vide Vidro).

O trabalho de Daniel de Oliveira é admirável. Ele conduz muito bem a variação de tom do filme citado anteriormente. Seus diálogos com os mortos, inicialmente, são sobre amenidades, meramente protocolares, e ele transmite com naturalidade a normalidade daquelas conversas. Este dom não é explicado de onde vem e nem quando começou, e fica bem claro que Stênio não possui nenhum temor daquilo. No entanto, quando o assunto das conversas passa a influenciar diretamente na vida do funcionário do IML, a leveza com a qual ele lidava com aquilo some repentinamente. E Daniel de Oliveira passa a apresentar Stênio como um homem confuso, em dúvida sobre sua própria sanidade, com momentos nos quais a sua agressividade aflora de forma abrupta.

Bianca Comparato, que interpreta Lara, tem um crescimento enorme no desenrolar da trama. Enquanto sua personagem demonstra uma personalidade quase passiva, pouco pode se ver da atriz, mas é na transição do segundo para o terceiro ato que ela mostra a que veio e, aí sim, se justifica plenamente com uma atuação fantástica. Fabiula Nascimento, por sua vez, demonstra sua agressividade desde o início, trazendo coerência ao que vemos a partir do segundo ato, também em uma ótima e assustadora atuação. As crianças, Cauã Martins e Annalara Prates também merecem destaque como Edson e Ciça. Edson traz a energia de um pré-adolescente justificadamente revoltado, devido às constantes brigas dos pais e a negligência com que ele e sua irmã mais nova são criados. Já Ciça se mostra muito mais introspectiva, tentando não transparecer o medo e agindo de forma mais respeitosa e compreensiva com os pais, buscando refúgio na confiança que tem no irmão.

A qualidade da direção de arte na confecção dos corpos nos quais Stênio realiza seu trabalho traz muito realismo às cenas do IML. Me remeteram imediatamente às minhas aulas de anatomia nos tempos de faculdade. Os efeitos visuais utilizados para produzir a fala dos mortos, tirando um ou dois momentos, foi muito bem aplicado, com seus corpos imóveis, sem respirar, e apenas o rosto se mexendo, ainda que sem piscar os olhos. Apenas estranhei que nas falas de uma personagem específica, pareceu ter sido feito algo diferente que terminou não funcionando tão bem. O som gutural das vozes do além, por vezes também soou abafado, tornando difícil a compreensão do que estava sendo dito. Mesmo assim, nada que fosse suficiente para tirar o espectador do clima do filme, que segue envolvente do início ao fim.

Morto Não Fala, o filme “cometido” por Dennison Ramalho, como ele tradicionalmente assina nos créditos de seus trabalhos, possui a cara do diretor, e remete em vários momentos aos curtas dirigidos por ele no passado. Em especial, a Amor Só de Mãe, com o qual ele possui algo que podemos chamar de uma mórbida semelhança. Apesar da ideia ter sido inicialmente concebida para ser uma série de TV, a produção decidiu testá-la antes através de um longa-metragem, que pode acabar se tornando o piloto da série. O interesse e a aposta nesta história mostra que o gênero terror, que até pouco tempo atrás era quase restrito ao cinema independente aqui no Brasil, com o lançamento do sensacional As Boas Maneiras em 2018 e este apavorante Morto Não Fala em 2019, devagarinho parece estar ganhando força novamente no cenário comercial. Preparem os nervos, galera. O terror está de volta.

Nota do crítico: 

 

Nota dos usuários:

[Total: 2    Média: 4/5]

 


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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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