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Green Book: O Guia | Crítica

Green Book: O Guia | Crítica

Resultado de imagem para green book o guia posterGreen Book: O Guia (Green Book)

Ano: 2018

Direção: Peter Farrelly

Roteiro: Nick Vallelonga, Brian Hayes Currie, Peter Farrelly

Elenco: Viggo Mortensen, Mahershala Ali, Linda Cardellini, Dimeter Marinov, Mike Hatton, Iqbal Theba, Sebastian Maniscalco, P.J. Byrne, Montrel Miller, Tom Virtue, Dennis W. Hall, Randal Gonzalez, Maggie Nixon, Brian Distance

Estados Unidos da América é sempre um bom terreno histórico para a exploração de temas raciais, sejam eles durante a escravidão, quanto após a abolição, passando pelo início do século XX, até o os dias de hoje. A principal época explicitada, com a intenção de levantar questionamentos sobre o tema, gira em torno do início dos anos 1960 até os dias atuais, saindo da segregação como lei e chegando para uma segregação através da violência psicológica e física, inclusive de autoridades, como a polícia.

Partindo dessa realidade, diversas obras são realizadas. Infiltrado na Klan, concorrente de Green Book: O Guia, também permeia esse âmago, só que de uma forma mais direta e até visceral. A produção que aqui é avaliada utiliza de uma amizade improvável para realizar desconstruções de personagens e, ao mesmo tempo em que joga o racismo na cara do espectador, passa uma mensagem extremamente positiva, de que as pessoas podem mudar e deixar de lado a sua ignorância particular.

Green Book: O Guia conta a história de Tony Vallelonga (Viggo Mortensen), um descendente de italianos que está encaixado no estereótipo do brigão, beberrão e brutamontes. Ele precisa de um emprego temporário e aceita a proposta de Don Shirley (Mahershala Ali), um músico erudito, para acompanhá-lo durante dois meses em uma viagem para o sul dos Estados Unidos – região conhecida por ser extremamente racista, principalmente em meados dos anos 1960, que é a época em que o longa se passa. O Green Book do título é um guia real, que serviu para auxiliar afro-americanos que estavam viajando para aquela região, indicando rotas seguras, restaurantes e hotéis.

Baseado em uma história real – apesar de membros da família de Shirley alegarem que a amizade nunca existiu realmente, mesmo tendo a mão de Nick Vallelonga (filho de Tony) no roteiro – a produção permeia os personagens, apresentando-os como opostos. O roteiro gosta de deixar tudo mastigado para o público, com cenas expositivas, sempre deixando claro algum fato, não dando margem para a interpretação. Porém, isso acaba sendo negativo quando a proposta é desconstruir essas duas figuras. As duas horas e dez minutos de duração não são o suficiente para que sejamos convencidos da construção dos dois protagonistas, pois, apesar de possuírem uma química absurda em tela, suas bases características são muito fortes.

Esse fato se encaixa principalmente no personagem de Viggo Mortensen, que mesmo acreditando naquela amizade improvável, fica difícil de comprar a mudança que ocorre com ele. O desenvolvimento de Don Shirley é melhor realizado, mas algumas camadas de sua personalidade acabam sendo jogadas e uma das melhores cenas, com um monólogo curto do personagem, não ganha tanta força por conta dessa falta de desenvolvimento.

Porém, as interpretações de Ali e Mortensen são espetaculares, com os dois possuindo uma presença de cena incrível e até um bom timing cômico. Eles funcionam muito bem juntos, são carismáticos e sua sintonia impressiona. Eles acabam carregando muito da história, fazendo com que a experiência seja divertida e tocante em alguns momentos. As explosões de raiva, as expressões faciais, tudo vai de encontro com o que é proposto e ajuda muito com a suspensão de descrença, mesmo que o roteiro falhe nesse aspecto em muitos momentos.

Peter Farrelly passeia com sua câmera expositiva através dos personagens e dos cenários, mostrando a beleza da natureza e a crueldade do ser humano, de forma que não cansa o espectador e deixa tudo mais dinâmico e atraente. O ritmo é intenso e, mesmo quando a produção parece ficar mais lenta, bons diálogos são colocados para fazer com que a história siga em frente e engate em outra problematização ou desfecho de algum conflito.

O racismo daquela época na região em questão é mostrado de uma forma para chocar, mas sempre querendo deixar claro que aquilo existiu e que ainda existe. Mesmo com os subterfúgios utilizados para tocarem o público, é sempre importante retratar esse tipo de atitude das pessoas para que nunca se esqueçam o mal que o racismo causa.

Mesmo com diversas imperfeições, principalmente no roteiro, Green Book: O Guia é mais uma obra importante que fala sobre racismo e, ao contrário de filmes poderosos, mas pessimistas, apresenta uma esperança para o ser humano, conseguindo até ser leve e engraçado em muitos momentos. O desfecho acaba prejudicando um pouco mais o longa, acabando um pouco com a verossimilhança e suspensão de descrença. Dois grandes atores ditam o ritmo de uma produção com boas intenções e diversos méritos, mesmo que contenha seus problemas.

Nota do crítico: 

 

Nota dos usuários:

[Total: 2    Média: 4.5/5]


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Jornalista, pretende seguir carreira como crítico de cinema. Gosta de dar opinião sobre tudo. Reside em Belém Novo, fim do mundo de Porto Alegre.

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