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Não, Aquaman não prova que os primeiros filmes do MCU poderiam ter feito US$ 1 bilhão

Não, Aquaman não prova que os primeiros filmes do MCU poderiam ter feito US$ 1 bilhão

Aquaman é um sucesso absoluto. E merecido. O longa do Universo Estendido DC ultrapassou a barreira do US$ 1 bilhão nas bilheterias mundiais, alcançando a marca que nenhum dos seus antecessores conquistou (de O Homem de Aço a Liga da Justiça). E isso é motivo de comemoração, pois, assim, o DCEU conseguiu um respiro e, quem sabe, o impulso que precisava para organizar, com calma, os futuros longas de seus personagens – a pressão, os rumores e as dúvidas estavam se destacando mais do que as produções.

Agora, com a glória conquistada por Aquaman, a guerra entre Marvel e DC se acirrou nas redes sociais, em que um lado acusa o outro de ter “roubado a sua fórmula”, enquanto o outro afirma que os primeiros filmes do MCU poderiam ter arrecadado US$ 1 bilhão nas bilheterias, assim como Aquaman fez – usando esse argumento para desmerecer a qualidade das aventuras solo da Marvel.

Bem, vamos aos fatos. O cinema de super-heróis pré-MCU consistia em aventuras do Superman e do Batman – dois personagens da DC e dois dos maiores personagens de HQ’s de todos os tempos -, entre os anos 1970 e 1990. Ambos os heróis foram sucesso em suas produções, ajudando a popularizá-los ainda mais. Pois bem. Nos anos 2000, a Fox resolveu apostar nos X-Men, personagens da Marvel que o estúdio adquiriu os direitos cinematográficos. Foi um sucesso – não estrondoso, mas um sucesso. O mesmo aconteceu com a Sony e o Homem-Aranha. No entanto, esse sim foi um sucesso estrondoso e revolucionário para a época – nem é preciso mencionar que o Amigão da Vizinhança também é um dos maiores e mais populares heróis das HQ’s, né?

E, assim as produções de super-heróis foram seguindo. Quarteto Fantástico, Demolidor, Mulher-Gato e Motoqueiro Fantasma também ganharam suas versões cinematográficas, mas bem infelizes. Obviamente, não podemos esquecer da trilogia O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan, que foi um sucesso arrebatador e ainda ajudou a colocar o personagem em mais evidência, faturando mais de US$ 1 bilhão com cada um dos dois últimos filmes da franquia – os primeiros longas do sub-gênero a baterem essa importante marca. Lembrando, mais uma vez, da popularidade do Batman e que, como se não bastasse, ainda foi impulsionada pela brilhante atuação de Heath Ledger como Coringa na segunda produção da trilogia.

Enfim, nesse meio tempo, a Marvel Studios decidiu apostar em algo inovador e arriscado: um universo compartilhado, tal qual como nos gibis, em que todos os heróis coexistem e, volta e meia, se reúnem para combater um mal maior. Logo de cara, o estúdio decidiu levar às telonas aquele que seria o seu grande expoente: o carisma de Robert Downey Jr. Sim, o ator. Afinal, tirando os fãs de quadrinhos, quem conhecia a história do Homem de Ferro? Quem realmente se importava com o personagem? E assim foi feito. O longa chegou aos cinemas em 2008, foi um sucesso de crítica e faturou US$ 585 milhões de dólares ao redor do mundo. Um sucesso para um herói que não estava no primeiro esquadrão da Marvel.

Assim, o estúdio lançou, na sequência, O Incrível Hulk (US$ 263 milhões), Homem de Ferro 2 (US$ 623 milhões), Thor (US$ 449 milhões), Capitão América: O Primeiro Vingador (US$ 370 milhões) e, finalmente, Os Vingadores, que fez US$ 1,5 bilhão. O primeiro da casa (viriam mais quatro e um, Vingadores: Guerra Infinita, passaria de US$ 2 bilhões). Pronto, a fórmula funcionava. O público comprou a ideia. As portas foram abertas. A partir disso, nenhum longa do MCU ficou abaixo do meio bilhão de dólares em arrecadação mundial – até mesmo o Homem-Formiga conseguiu ficar acima dessa marca. Tá, mas onde quero chegar com isso?

O primeiro longa do Universo Estendido DC foi O Homem de Aço, de 2013. Ou seja, um ano depois da comprovação de que a fórmula de um universo cinematográfico compartilhado daria certo. A DC, que tem dois dos mais famosos heróis de todos os tempos, não precisou desbravar uma trilha inexplorada. O público já havia aprovado a ideia com o MCU, que insistiu e planejou durante cinco filmes o momento máximo de sua franquia e de sua experiência: Os Vingadores. Tudo ousadamente conectado. Quem não queria ver isso também com os heróis da DC, não é mesmo? Eu queria.

No entanto, o DCEU começou a sua trajetória com controvérsias, mostrando o oposto da Marvel: um mundo sombrio e com um clima pesado. O estúdio, então, decidiu acelerar o processo e começar a juntar os heróis antes de histórias individuais. Assim, em 2016, lançou Batman vs Superman: A Origem da Justiça, que não chegou na casa do bilhão, fazendo US$ 873 milhões, mesmo juntando dois personagens de sucesso – além de trazer a Mulher-Maravilha. O longa foi questionado por muitos, por fazer escolhas equivocadas e insistir em um clima excessivamente sombrio. O filme é ruim? Não. Mas a recepção misturada do público o afastou do bilhão (marca que os dois últimos longas do Batman do Nolan haviam batido).

A DC seguiu o seu universo compartilhado, apostando em Esquadrão Suicida, nitidamente inspirada pelo inesperado sucesso de Guardiões da Galáxia, da Marvel. O longa surpreendeu nas bilheterias, faturando US$ 746 milhões. O resultado final foi ruim, pois a produção tem um péssimo roteiro, mas apostou em humor e, isso, fez com que a arrecadação fosse muito acima do estimado. Pronto, a DC viu que tinha que mudar o tom. Mulher-Maravilha veio e, muito menos sombrio que os dois primeiros longas do DCEU, fez US$ 821 milhões – além de conquistar a crítica especializada pela primeira vez. Liga da Justiça, então, que estava sendo produzido nos moldes de O Homem de Aço e Batman vs Superman, tinha que seguir essa tendência. Assim, Zack Snyder foi demitido e, para o seu lugar, veio quem? Joss Whedon, o diretor de Os Vingadores!

Nitidamente, a DC queria o sucesso da Marvel. No entanto, refilmar, recortar e remendar um grandioso filme praticamente pronto não foi a melhor estratégia. De Liga da Justiça saiu um monstro de Frankenstein, que tem coração, mas é feio. O público, já influenciado pelas inúmeras notícias negativas sobre a produção, rejeitou o projeto, que deu um grande prejuízo para a Warner. O estúdio, então, colocou tudo em xeque, desde os atores de Superman e Batman, até as futuras produções dos dois heróis. Coube a James Wan, que tem um Toque de Midas, a missão de resgatar o DCEU da vergonha que foi Liga da Justiça e, assim, recolocar aquele universo cinematográfico nos trilhos. E como ele fez isso? Apostando em cores, piadas, um ator carismático e uma história muito menos densa das apresentadas anteriormente nos longas da DC. E o resultado: o primeiro bilhão para o estúdio.

Aquaman não veio para “falir a Marvel” e nem para mostrar que a Casa das Ideias poderia ter feito US$ 1 bilhão com os seus primeiros longas. Pelo contrário, ele surfou na onda que a própria Marvel criou e, assim, conquistou um merecido sucesso. Não existe necessidade de competição para provar qual estúdio é melhor, pois cria uma guerra boba e, muitas vezes, ofensiva. A DC sempre dominou os cinemas, apostando em Superman lá nos anos 1970, criando o filme de super-herói definitivo e que serve de inspiração para todos os outros. A Marvel, nos anos 2000, criou um ousado universo cinematográfico, que abriu espaço para diversos outros – inclusive, o da DC. Ou seja, ambos são importantes e necessários, mas é injusto comparar o triunfo de um longa que chegou e se estabeleceu em um terreno já fértil e preparado pelo concorrente durante 10 anos. Um viva o sucesso de Aquaman, mas também ao Homem de Ferro, aos Vingadores… Sejamos justos, assim como os super-heróis devem ser!


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Jornalista e radialista, é um dos fundadores do Bode na Sala. Tem 26 anos, se orgulha de ter nascido em São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, e, atualmente, mora em Porto Alegre. Trabalhou em todas as áreas que se pode imaginar, mas acabou caindo no submundo geek. É fã do Jim Carrey, acha que o Ben Affleck é o melhor Batman do cinema, não suporta pseudo-cultismo e pretende dominar o mundo.

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