Bode na Sala
Críticas Destaque Filmes Sem categoria

A Esposa | Crítica

A Esposa | Crítica

A Esposa (The Wife)

Ano: 2017

Direção: Björn L Runge

Roteiro: Jane Anderson

Elenco: Glenn CloseJonathan PryceMax IronsChristian SlaterAnnie StarkeHarry Lloyd.

 

Tenho um interesse especial por filmes que flertam com o universo dos escritores. Provavelmente por ainda nutrir a esperança de vir a me tornar um. Quem sabe? O certo é que este tema me atrai, e é sempre gratificante quando vejo que a trama é desenvolvida de maneira tão competente, trazendo a um drama um tom sombrio, que por vezes remete a um suspense. Eu não li o livro de Meg Wolitzer no qual o roteiro de Jane Anderson se baseia, mas não me surpreenderia se fosse uma adaptação praticamente literal. Afinal, tudo que vemos na tela é apresentado de forma tão completa e detalhada que é possível imaginar cada plano sendo descrito em parágrafos minuciosos que nos levariam para dentro daquele ambiente, como observadores invisíveis.

O filme inicia mostrando a ansiedade do casal Castleman, formado por Joan (Glenn Close) e Joe (Jonathan Pryce), de madrugada, enquanto aguardam a confirmação de que Joe receberia o prêmio Nobel de literatura, o que realmente ocorre na manhã seguinte. A atitude de Joe de colocar Joan na linha, para escutar junto com ele o anúncio, dá a entender que ele reconhece o apoio da esposa como fundamental na sua conquista e, inicialmente, isso parece ser o suficiente para ela. No entanto, o desenrolar dos acontecimentos, enquanto se aproxima a data da entrega do prêmio, vai trazendo recordações à tona, e fazendo com que Joan reflita sobre as escolhas que fez na vida para ficar ao lado de Joe por tantos anos. O relacionamento de Joe com o filho David (Max Irons) e o aparecimento do repórter Nathaniel Bone (Christian Slater), interessado em escrever a biografia do escritor, aumentam ainda mais a tensão entre o casal.

Diga-se de passagem, a tensão fica óbvia muito antes de termos ideia dos motivos para aquele sentimento. Enquanto Joe está eufórico aguardando o momento de receber sua consagração, percebemos Joan com emoções conflitantes, demonstrando momentos de alegria e outros onde revela uma crescente amargura. E a química fantástica entre Close e Pryce, aliados às suas atuações irretocáveis, fortalece demais os momentos em que contracenam. Close, em especial, nos apresenta com perfeição o conflito interno de sua personagem. O esforço para sorrir, as abruptas saídas de cena ao se sentir desconfortável, os olhos marejados enquanto tenta se mostrar orgulhosa de seu marido. Toda a linguagem corporal da personagem nos entrega antecipadamente que algo não vai bem. E Pryce, igualmente competente, apresenta um Joe que parece não perceber seu egocentrismo, demonstrando real surpresa quando confrontado em função de suas atitudes.

Nesta dinâmica entre os personagens, é preciso ressaltar a qualidade dos diálogos. Eles são construídos de tal maneira que cada personagem, por menor que seja, demonstra ter vida própria. Cada frase parece ter sido escrita para uma pessoa específica, com uma personalidade definida, e nenhuma fala está fora do lugar. As discussões entre Joan e Joe escancaram a intelectualidade natural de ambos, e são um show à parte. Da mesma maneira, percebe-se nas entrelinhas o tom ressentido de David ou acusatório de Nathaniel, ambos dando a entender, através de suas bem construídas falas, muito mais do que estão realmente externando.

A direção do sueco Björn L Runge é extremamente competente ao dar destaque, lentamente, a vários elementos que nos permitem antecipar a reviravolta da trama, sem que passe uma sensação de que a surpresa foi estragada. A montagem cuidadosamente ritmada e um movimento suave de câmera, como se fossem olhos fazendo a varredura na página de um livro, nos possibilitam analisar calmamente os ambientes, as expressões dos personagens, e as pistas para compreender o mistério por trás da complexa relação entre Joan e Joe. Em compensação, quando o conflito vem à tona, a câmera acompanha o crescimento da tensão passando a tremer fortemente e nos levando ao centro daquela situação.

A direção de arte é muito competente ao recriar a década de 1950, quando Joan e Joe se conheceram na faculdade e iniciaram seu relacionamento. Cabelos, roupas e cenários proporcionam uma ambientação muito eficiente, mesmo que poucas cenas se passem lá. Nestes flashbacks, é fundamental ressaltar a versão jovem de Joan vivida por Annie Starke, filha de Glenn Close na vida real. Annie apresenta uma atuação consistente, além de possuir uma grande semelhança física com sua mãe, tornando sua personagem ainda mais verossímil. Harry Lloyd, que vive o jovem Joe, mesmo que fisicamente não lembre muito a sua versão envelhecida, demonstra um comportamento arrogante e egoísta que explica com perfeição as atitudes futuras do escritor.

Por fim, ao nos depararmos com a explicação ou confirmação das suspeitas sobre o que se passou na vida daquele casal, cada frase, atitude ou citação anterior se mostram justificadas, comprovando a coerência do roteiro e a competência da produção. A noz, os títulos dos livros de Joe, as declarações públicas. Tudo fecha perfeitamente, e mesmo assim o filme termina deixando uma dúvida, que apenas Joan poderia nos responder, ou talvez nem ela. E ficamos com a certeza que, nas próprias palavras de Joan, ela não é uma vítima. Ela é realmente muito mais interessante do que isso.

Nota do crítico:

 

Nota dos usuários:

[Total: 0    Média: 0/5]


Quer ficar por dentro de todas as novidades sobre filmes e séries? Curta a nossa página no Facebook!

The following two tabs change content below.

André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

Latest posts by André Bozzetti (see all)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close