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Black Mirror: Bandersnatch | Crítica

Black Mirror: Bandersnatch | Crítica

Black Mirror: Bandersnatch

Ano: 2018

Direção: David Slade

Roteiro: Charlie Brooker

Elenco: Fionn Whitehead, Will Poulter, Asim Chaudhry, Craig Parkinson, Alice Lowe, Tallulah Haddon, Suzanne Burden, Jeff Minter 

Com os passar dos anos, Black Mirror conseguiu para si uma reputação de ser perturbadora e desconcertante. Pouco conhecida originalmente, a série britânica conseguiu o sucesso mainstream ao ser comprada pela Netflix, que lançou a sua excelente terceira temporada. Após um quarto ano decepcionante, muito mistério rodeou Bandersnatch, o filme interativo em que pouquíssimos detalhes foram revelados ao público – o trailer foi lançado apenas um dia antes de sua estreia.

A trama da nova produção acompanha Stefan Butler (Fionn Whitehead), um jovem programador com o sonho de adaptar Bandersnatch, um longo livro interativo em que as escolhas do leitor impactam a narrativa para um videogame. Após o jogo ter sido aceito pela Tuckersoft, companhia de videogames na qual trabalha o lendário Colin Ritman (Will Poulter), ídolo do protagonista, Stefan começa a trabalhar insanamente para conseguir terminá-lo em um prazo muito apertado, fazendo-o beirar a loucura.

A princípio, as escolhas do filme são a respeito de pequenos detalhes, como qual música ouvir ou o que comer no café da manhã. Apesar do espectador poder fazer a sua decisão rapidamente, o protagonista ainda fica parado por dez segundos com cara de bobo toda vez que existe uma alternativa e acaba distraindo. Agora, as escolhas grandes que realmente impactam a narrativa são problemáticas. As decisões mais intensas prejudicam o desenvolvimento da trama e obrigam o espectador a voltar no tempo, repetir a escolha decidir a que o filme indica que é a certa.

O que torna a experiência de Bandersnatch decepcionante é a falta de livre-arbítrio e a ilusão que ele nos dá de estar no controle. Mesmo que essa seja a intenção e um tema recorrente na narrativa, é frustrante. Da mesma forma que o autor do livro, Jerome F. Davies (Jeff Minter), descobriu que não existia o livre-arbítrio e o Stefan percebe que não está no controle de suas ações, a narrativa metalinguística se consolida ao próprio espectador também não poder escolher de fato qual caminho seguir.

Existem diversos finais com diferentes estados da conclusão do jogo e do estado mental do protagonista e todo final permite que você volte para ver as outras alternativas. Mas existe apenas um final em que a história prossegue durante os créditos, assim como em vários outros episódios de Black Mirror, e um final que não permite que você volte para escolher os outros desfechos, presumivelmente, após você ter visto todos os finais possíveis.

A experiência de recomeçar o filme também não é tão prazerosa quanto deveria ser. Enquanto existem novas coisas legais a serem vistas, novas opções que se mostram mais empolgantes do que a escolhida primeiro, nenhuma impacta a história de verdade para justificar a sua existência e, da mesma forma, todas levam ao mesmo caminho. Assim como em Life Is Strange e games da Telltale. como The Walking Dead ou Game of Thrones, jogos predominantemente de múltipla escolha, o final acaba sendo o mesmo, em uma variação menor.

Fionn Whitehead, que já havia sido o protagonista sem sal de Dunkirk, aqui tem mais espaço para trabalhar, mas mesmo que tenha um passado interessante e sua crescente loucura seja bem executada, Stefan nunca parece ser um personagem real, porque estamos manipulando ele. Will Poulter consegue criar um personagem bem mais interessante, mas a presença misteriosa de Colin nunca é propriamente explorada. Ele parece ser ciente da falsa natureza da sua realidade e nunca é explicado como. Um exemplo é quando você retorna para a reunião no estúdio, no início do filme, e o protagonista sabe como funciona Nosedive, o novo jogo de Colin, porque ele voltou no tempo e se lembra disso; e Colin inexplicavelmente sabe sobre o livro Bandersnatch, sendo que da primeira vez o Stefan precisou explicar pra ele. Em outro instante, quando você volta no tempo e o filme avança as cenas que você já assistiu, Colin quebra a quarta parede ao reconhecer que ele está numa cena repetida e bate palmas para pular para a próxima, mas, de novo, nunca explica como ele sabe disso.

Existem easter-eggs de outros episódios. Nosedive e Metalhead aparecem como jogos desenvolvidos por Colin Ritman; vale ressaltar que esse episódio é dirigido por David Slade, o mesmo de Metalhead e o primeiro diretor a retornar na série. O símbolo de White Bear está muito presente na trama e é um dos principais elementos do filme. Sem dar spoilers, mas mesmo que a trama se passe em 1984, a Netflix dá um jeito de se introduzir na história e o resultado, que quer provocar humor metalinguístico, é completamente idiota e sem graça.

Bandersnatch é a mais novo exemplar na galeria de episódios ruins de Black Mirror. Mesmo que sua história seja inegavelmente ambiciosa, o sistema interativo mais prejudica a experiência do que beneficia. Se filmes interativos, um campo pouco explorado, continuarão a ser lançados após este experimento, é melhor que existam decisões realmente mudem a trama e deixem o espectador no controle.

Nota do crítico:

 

Nota do usuário:

[Total: 8    Média: 4/5]

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Estudante de jornalismo, tem 20 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli e de musicais, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

Comments

  1. Sugiro que você veja novamente. São cinco finais possíveis. Achei a experiência muito interessante e instigante. Acho que merece muito mais que duas estrelas.

  2. Duas estrelas??? Sério…
    Acho q eu vc não viu direito, ou então quis ser o primeiro a comentar e só queria chegar no final…hahahaah
    Sinceramente, o filme é muito bom, uma novidade e com uma história legal…eu achei excelente, mas eu não sou crítico, e fico procurando besteira para ser diferente… eu simplesmente curto o filme, e acho que as pessoas deveriam fazer isso de novo!!!!

  3. Você realmente não viu direito, é sensacional

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