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Roma | Crítica

Roma | Crítica

Roma

Ano: 2018

Direção: Alfonso Cuarón

Roteiro: Alfonso Cuarón

Elenco: Yalitza AparicioMarina de TaviraFernando GrediagaJorge Antonio GuerreroMarco GrafDaniela DemesaNancy GarcíaVeronica García

Alfonso Cuarón é dono de uma filmografia invejável. Com uma habilidade ímpar de passear pelos mais diversos gêneros cinematográficos (como Steven Spielberg em seus tempos áureos), o cineasta mexicano faz de sua arte uma verdadeira experiência em cada um de seus filmes. Seu trabalho anterior, o drama disfarçado de ficção científica Gravidade, é um retrato honesto e preciso de como sobreviver a um ônibus espacial danificado, enquanto Roma, um filme bem menor, acompanha a vida de uma empregada doméstica no México dos anos 1970. Apesar de possuírem premissas tão diferentes, ambos os filmes têm dois elementos em comum: o intimismo e o senso de escala.

Roma acompanha a rotina de Cleo (Yalitza Aparicio), uma jovem empregada doméstica trabalhando na casa de uma família da alta classe média da Cidade do México, capital do país. Para quem não sabe, o filme é livremente inspirado nas memórias de infância do próprio Cuarón. Diversos adereços que compõem a mobília da casa vieram de sua família, e a fotografia em preto-e-branco, também realizada por Cuarón, corrobora para a compreensão de que este se trata de um filme pessoal, e não mais uma das trivialidades corriqueiras lançadas pela Netflix.

A sinopse simples do longa é um mero teaser do esmerado produto que viria a seguir. Roma não segue uma estrutura comum de roteiro, e é focado em momentos usuais do cotidiano, mas a grandiosidade da obra reside no modo como a história é contada através de detalhes, e nas mãos de um diretor menos qualificado, este seria um filme vazio. Roma é um longa de memórias, de críticas, de momentos épicos e, apesar de seu baixo orçamento, os longos planos filmados por Cuarón em espaços abertos passam essa impressão de esplendor.

Os inúmeros detalhes podem passar desapercebidos, mas, mesmo que sejam muitos, nenhum deles está ali em vão. O carro que não cabe na garagem, os vendedores de brinquedos na porta do cinema, o reflexo do avião na água jogada para lavar a garagem, o homem-bala ao fundo de um comício… Nada ali é gratuito, tudo tem um propósito narrativo, mesmo que pequeno.

Roma ainda presenteia o público com dois dos momentos mais memoráveis do cinema (ou streaming, dependendo da janela que você vai assisti-lo). A cena do parto demonstra que Yalitza Aparicio é uma das grandes revelações da dramaturgia, mesmo não tendo feito nenhum trabalho anterior como atriz. Com emoções contidas, você assiste Cleo representando uma mulher forte e que não quer demonstrar sua fraqueza, custe o que custar, e dado os acontecimentos anteriores a cena, é muito difícil não ficar emocionado. Mas nada se compara à perfeição da cena da praia. Sem nenhum corte e com movimentos de câmera suaves, Cuarón te leva ao mar sem precisar estar lá. O som é uma ferramenta muito evidente aqui, e a sensação ao assistir é a mesma de estar lutando contra fortes ondas de água salgada. É aqui que o senso de escala do diretor está mais aflorado, apresentando uma das cenas mais lindas, simbólicas e impecavelmente interpretadas, não só pela protagonista, mas também pelas crianças do filme. O momento que toda a família abraça Cleo após a personagem se desmanchar em lágrimas e fazer um ato heroico é extraordinário.

Cuarón, que sempre preferiu destacar as mulheres em seus filmes, apresenta um subtexto sobre a traição em casamentos. Em uma das raras cenas protagonizadas por Sofia (Marina de Tavira), a patroa de Cleo, o cineasta frisa que mulheres estão sozinhas na luta diária, tendo somente a si mesmas como apoio, mas isso em um contexto histórico no qual a sociedade acreditava que mulheres precisavam de um marido para sobreviver. Apesar da luta diária das mulheres continuar, esta ideia já não é tão difundida atualmente, mas isso não invalida a mensagem que o diretor quis passar com tamanha fluidez.

Durante os créditos, quando descobrimos que Cuarón também faz o papel de roteirista, produtor, montador e diretor de fotografia, percebemos como Roma foi um projeto feito com amor pelo cineasta. Mesmo que este seja um longa com críticas tanto políticas como à sociedade (o conceito de pão e circo tão difundido pelo Império Romano é muito presente), este ainda é um filme particular, mas que remete a recordações da infância que estavam ali em sua cabeça, mas você não se lembrava. É uma obra que transmite afeto e, sem dúvida, um dos mais belos exemplares já realizados pela sétima arte. É um pecado que a Netflix tenha distribuído tão porcamente nos cinemas, mas ao menos Roma chegou ao máximo de pessoas possível, e que dificilmente pagariam para assistir.

Nota do crítico:

 

Nota do público:

[Total: 3    Média: 5/5]


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João Vitor Hudson

João Vitor Hudson é um publicitário aos 22 anos. Ama cinema desde quando desejava as férias escolares só pra assistir todos os filmes do Cinema em Casa e da Sessão da Tarde. Ama o MCU, e confia bastante no futuro da DC nos cinemas.

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