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Vinte anos de delírios e de Truman | Leitor na Sala

Vinte anos de delírios e de Truman | Leitor na Sala

Por Rodrigo Ramos

No dia 10.909 somos apresentados à vida de Truman Burbank (Jim Carrey). Ele nasceu na televisão. Foi a primeiro nascimento registrado ao vivo por câmeras. O primeiro bebê adotado por uma corporação. Tudo obra do brilhante Christof (Ed Harris), idealizador e diretor de um show de realidade como nunca antes fora visto. É bom lembrar que o lançamento do filme data de 20 anos atrás e, naquela época, na dita vida real, realities eram coisa de MTV americana, sequer existia o Survivor que viraria hit na TV aberta dos gringos e geraria o lendário No Limite, aqui no Brasil. Mesmo que o conceito de Grande Irmão, de teletelas e outras traquitanas tivessem sido desenhadas no anos 1940 por George Orwell em seu clássico 1984.

As coisas se repetem magistralmente na vida de Truman, ela é tão previsível quanto as reações do protagonista dessa história que parecia fantasiosa em 1998 e mostrava o verdadeiro Show da Vida. Quem nunca se perguntou se a sua vida não passa de uma mera peça de teatro, ou para ser mais in uma sitcom prestigiada devido a previsibilidade dos acontecimentos? Já vi gente dizer que temia chegar na hora de seu casamento e ser surpreendida com a notícia de que tudo era falso e estava sendo transmitido. É questão de saber quando e como cruzar os dedos. Quantos distúrbios ver esse filme deve ter causado por aí?

Quem não tem ou teve um amigo parecido com Marlon (Noah Emmerich), que parece, ao mesmo tempo, bruto e sábio, que sempre aparece quando você está mal ou duvidando da vida e do que deveria ser tudo aquilo que você imaginou. E, ao ver que nada daquilo aconteceu, você só precisa de um fardo de geladas para esquecer esses pensamentos ruins que, obviamente, são inadequados nessa era da positividade que alguns pregam viver e acreditam tanto nos seus resultados benéficos e infalíveis.

E o amor tem de ser genuíno, nunca pode ser algo forçado, tem a ver com química. Jamais se deixe levar por uma Meryl (Laura Linney). Certifique-se de que há amor em seu relacionamento, mas, se não houver esse conceito metafísico, que pelo menos haja uma forte camaradagem, uma amizade inabalável que, com os ingredientes certos, faça durar muito tempo uma união, seja de que tipo for.

Claro que você vai encontrar muitas(os) Lauren Garland (Natascha McElhone) pelo caminho. Alguém que vai tentar te mostrar o caminho. Abrir teus olhos. Você vai se deixar levar, felizmente, sem sequer saber o que está acontecendo. Mas esse é você, dançando conforme a música. Fazendo parte do espetáculo de forma passiva e não atuando. Inclusive, “por estarmos cansados de atores expressando falsas emoções com falas decoradas”, é necessário interagir? Todo homem precisa de um lugar para ir, que faça ele sonhar e acreditar no impossível, que não deixe que ele se deixe convencer que é só mais um RG, um CPF, ou seja o número que represente isso para você. Vamos para Fiji? Eu sei que tem bons golfistas lá e áreas inexploradas pelo homem, deve ser um bom lugar.

Peter Weir não enxergou muito a frente de seu tempo, como fez Orwell. Podemos discutir se ele fez melhor ou pior. Mas o que ele conseguiu foi um retrato levemente antecipado do que viria a ser nossa vida de voyeurs, sempre desejando e lutando contra a fama. Quem não queria ser Truman? Quem gostaria de sê-lo? Carrey tem uma atuação brilhante, mostrando que um homem essencialmente cômico pode colocar, à sua maneira, muito drama em uma produção com esse cunho. Quem não entender a big picture do filme pode até achar O Show de Truman um pouco monótono e repetitivo. Entenda o lado do artista que precisa causar desconforto nos telespectadores, leitores, ouvintes, etc, para mostrar uma mensagem maior. Justo o desconforto vai gerar a dúvida e o devaneio. O filme foi recompensado com três Globos de Ouro e foi, de maneira não surpreendente, solenemente ignorado pela Academia.

Não recomendo que assistam ao filme àqueles que tendem a entrar em modo paranoico, que acreditam muito facilmente em teorias da conspiração, que estejam passando por algum problema psíquico, que questionem constantemente o que é realmente vida e se ela está acontecendo e os que se perguntam até que ponto podemos intervir no clima, no dia e na noite. Também pouco recomendável para os que tem sentimentos claustrofóbicos em relação a cidade na qual residem. Feitos os alertas de bula de remédio, resta dizer: “In case I don’t see you again, good afternoon, good evening and good night”.


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