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George R. R. Martin escreve carta homenageando Stan Lee; Confira

George R. R. Martin escreve carta homenageando Stan Lee; Confira

George R. R. Martin já tinha homenageado Stan Lee no dia da morte do quadrinista. Dias depois, Martin usou seu blog pessoal para escrever um texto sobre a influência de Lee em sua vida e suas obras. No texto, em formato de carta, Martin relembra sua infância, quando ele enviava cartas à Stan Lee e cita os diversos encontros que teve com Stan.

Confira a carta completa abaixo:

A não ser que você esteve se escondendo em uma caverna, você leu que o Stan Lee morreu aos 95 anos.

Uma boa idade. Sta Lee viveu uma vida longa. E vai deixar um grande e glorioso legado para trás. Ele foi parte do meu mundo por tanto tempo que parece impossível imaginar que fosse embora.

Não posso dizer que ele era um amigo. Nunca tive a honra. Ah, sim, eu conheci Stan várias vezes em Comic Cons por anos afora. Sempre que encontrava ele era como se fosse a primeira vez. Ele nunca se lembrava dos nossos encontros anteriores e eu acho que ele não fazia ideia de quem eu era. Nem importava. Ele sempre foi genial e generoso comigo, assim como ele era com todos os fãs que falam com ele nas Comic Cons. Quando eu estava na presença do Stan, isso que eu era: um fã.

Devo tanto a Stan Lee. Ele foi, em certo sentido, meu primeiro editor. ‘Caros Stan e Jack’. Essas foram as minhas primeiras palavras impressas. Na coluna de cartas de Quarteto Fantástico #20. Meu primeiro texto publicado foi um comentário sobre a edição 17, comparando Stan a… hum… Shakespeare. Um exagero, você diria? Bem, tudo bem. Eu tinha 13 anos na época.

Mas, ainda assim, se você pensar na comparação, ela tem algum mérito. Existiam peças antes de Shakespeare, mas o trabalho de Shakespeare revolucionou o teatro, deixando-o totalmente diferente da forma que era até então. E Stan Lee fez o mesmo para os quadrinhos. Li HQs durante toda a minha infância, mas no final dos anos 1950 comecei a me afastar delas. Estava comprando cada vez menos ‘livros divertidos’ (como os chamávamos, na época) e mais livros de ficção científica e fantasia. Os quadrinhos da DC Comics que dominavam as prateleiras se tornaram estereotipados e repetitivos, não mantinham mais meu interesse da mesma forma como quando eu era criança. Estava ‘superando’ a fase dos quadrinhos.

E então Stan Lee apareceu e me trouxe tudo de volta. A primeira edição de Quarteto Fantástico que eu peguei por um total acaso (foi a #4, em que o quarteto encontra Namor) prendeu minha atenção de um jeito que não acontecia há anos. Pouco depois, veio o Homem-Aranha. E, então, o resto, um por um, em um período surpreendentemente curto. O Hulk. Thor. Homem de Ferro. Homem-Formiga (e a incrível Vespa). Os X-Men. Os Vingadores. Wonder Man (que morreu na mesma edição que foi introduzido). Pantera Negra. Os Inumanos. Galactus e o Surfista Prateado. E os vilões… Dr. Destino, Dr. Octupus, Abutre, Homem-Areia, Mysterio, Loki… e a lista só aumenta.

Esses personagens tinham personalidade. Peculiaridades, falhas, temperamentos. Os heróis não eram inteiramente bons, os vilões não eram completamente ruins. Os personagens cresciam e mudavam… Lá na DC, Superman e Lois Lane estavam presos no mesmo relacionamento há décadas, mas Peter Parker trocava de namoradas como um verdadeiro adolescente, ele se formou no ensino médio e foi para a faculdade, as pessoas podiam e de fato morriam nos seus quadrinhos.

Você tinha que estar lá para compreender o quão revolucionário foi isso. Os quadrinhos como conhecemos hoje não existiriam não fosse por Stan Lee. Eles poderiam nem sequer existir, verdade seja dita.

Não, claro, ele não fez tudo sozinho. Os artistas geniais da Marvel, especialmente Jack Kirby e Steve Ditko, nunca devem ser minimizados. Eles foram uma parte enorme da história também. Mas Lee estava no centro de tudo.

Essa carta para a edição de Quarteto Fantástico foi apenas a primeira de muitas que eu enviei para Stan e Jack, e Stan e Steve, e Stan e … quem quer que o fosse artista desenhando. Algumas delas foram publicadas, inclusive com meu endereço completo em anexo. Outros fãs de quadrinhos de todo o país viram as cartas que eu escrevia e começaram a me enviar fanzines e outras cartas. Minha amizade com Howard Waldrop começou graças a essas cartas para Stan… ele no Texas e eu em Jersey. Depois de ler alguns desses primeiros fanzines, comecei a escrever para eles também. Aí que minhas primeiras histórias foram publicadas. Heróis da minha própria criação. Arraia. Garizan, o guerreiro mecânico. The White Raider (que, como Wonder Man, morreu em sua primeira história). Eu não conseguia desenhar, então escrevia “histórias de texto”, histórias de super-heróis em prosa. E as pessoas gostaram. O que me encorajou a continuar escrevendo. E, sempre que escrevia, tentava fazer o meu melhor para escrever como Stan Lee.

Hoje em dia, em entrevistas, me perguntam quais escritores me influenciaram mais quando comecei. Tinha um monte deles. Para o ficção científica tinha Heinlein, Andre Norton e Eric Frank Russell. Para a fantasia o Robert E. Howard, Tolkien e Fritz Leiber. Para horror o inimitável H.P Lovecraft. Mais tarde, quando eu já era mais velho, havia Jack Vance, Ursula K. Le Guin, Roger Zelazny, Samuel R. Delany e Alfred Bester. Mais tarde ainda tinha William Goldman e F. Scott Fitzgerald.

Mas as maiores influências são as primeiras influências e no começo havia apenas Stan Lee.

Você fez um bom trabalho. Enquanto as pessoas ainda lerem quadrinhos e acreditarem em heróis, seus personagens serão lembrados. Muito obrigado.

Stan Lee morreu aos 95 anos.

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Jornalista, pretende seguir carreira como crítico de cinema. Gosta de dar opinião sobre tudo. Reside em Belém Novo, fim do mundo de Porto Alegre.

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