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Mandy | Crítica

Mandy | Crítica

Mandy

Ano: 2018

Direção: Panos Cosmatos

Roteiro: Panos CosmatosAaron Stewart-Ahn

Elenco: Nicolas Cage, Andrea Riseborough, Linus Roache, Ned Dennehy, Olwen Fouéré, Richard Brake, Bill Duke

Nicolas Cage é um excelente ator que acabou sendo muito desvalorizado na memória recente. Depois dos anos 1990, o ápice de sua carreira, os papéis que Cage pegou não usavam mais o verdadeiro potencial de suas atuações e focavam no overacting pelo qual o ator ficou famoso. Depois de se endividar, começar a aceitar qualquer papel e se tornar sinônimo de filme ruim, a situação de Nicolas Cage começou a melhorar com os projetos recentes que conseguiu pegar — e Mandy é a maior prova disso.

Bebendo da fonte de nostalgia dos anos 1980 até se engasgar, o novo longa do diretor grego Panos Cosmatos é glorioso. Ancorado por uma potente trilha de heavy metal, cenas de ação completamente loucas e uma estética invejável, o papel do protagonista caiu como uma luva para Cage. Como acredito que o ator não esteja interpretando um personagem, mas a si mesmo, o chamarei pelo seu nome na crítica. Nicolas Cage é um lenhador que vive uma tranquila existência com a sua esposa, Mandy Bloom (Andrea Riseborough), uma desenhista de arte fantástica. Essa tranquilidade desaparece quando o líder de um culto hippie religioso, Jeremiah (Linus Roache), vê Mandy na rua e fica obcecado por ela. Não demora para ele ordenar o sequestro da moça.

A primeira hora de projeção beira ao tédio. Enquanto o começo é claramente promissor, é necessário muita espera para que o longa possa corresponder às altas expectativas que estabeleceu. Os excessos visuais e performáticos do filme, enquanto bem-vindos nos momentos certos, deixam difícil de entrar no mundo apresentado. Demora muito para a ação começar, o que não seria um problema se as cenas que a antecedesse não fossem tão longas e exaustivas.  Mandy seria muito favorecido se tivesse meia hora a menos e fosse mais direto. A sensação de introdução alongada no começo do filme é intensificada pelo título, que só aparece em tela na metade da produção.

Quando a vingança do Nicolas Cage finalmente começa, a hora final de Mandy se torna um glorioso exercício de insanidade e violência. E maior parte dos créditos disso vai para o ator principal: o papel parece que foi escrito especificamente com ele em mente, pois não só cai como uma luva, mas abraça todos os histrionismos e exageros do Cage que passamos a amar ao longo dos anos. A cena em que o protagonista, depois de estar entorpecido pela dor, berra, chora e berra de novo é memorável e a primeira numa sequência ininterrupta de momentos geniais do longa. Cage dá a sua alma na atuação e o resultado final é magnifico, de todas suas performances da segunda metade de sua carreira, essa é facilmente a melhor.

Recheado de frases de efeito hilárias, a ação do filme é de outro mundo. Como todo bom herói de ação, Nicolas Cage não é invulnerável e se fere muito durante seus confrontos com os membros do culto, o que ajuda na tensão das lutas e adiciona humor físico às cenas de luta. O gore é estilizado e divertido de assistir. Chapado de cocaína e LSD, o nosso vingador dá tudo de si enquanto enfrenta integrantes da seita, capangas e até mesmo monstros que são invocados.

Apesar de ser exagerado demais para ser um vilão creditável, o líder do culto até que é desenvolvido. O objetivo de Jeremiah é ser amado e ele se desespera ao ver que não foi aceito por alguém. E nos momentos de desespero, ele apresenta uma dupla personalidade, a frágil e a dominante, que reafirma a sua posição de quase divindade e o convence a realizar terríveis ações. É um conceito muito bom que se perde no meio de tanto exagero cômico — Jeremiah poderia ter sido um vilão bem melhor do que de fato foi.

Infelizmente, Mandy não recebe o mesmo desenvolvimento. Seu nome é o título do filme e, ainda assim, a personagem não recebe o foco que merece. Andrea Riseborough faz o melhor que consegue com um papel tão limitado, como na cena em que ela lembra uma traumática história de infância. Sua presença é quase mística, mas não passa de um objetivo/interesse amoroso; um homem quer raptá-la e outro quer resgatá-la. É uma pena que Mandy seja tratado como um objeto em um filme que tanto a venera.

Como mencionado anteriormente, a estética do filme é espetacular. Os visuais concebidos principalmente no começo beiram o surrealismo, dando a impressão de que estamos testemunhando um mundo fantástico. A predominância do vermelho, roxo e verde nas composições é belíssima. Chega a ser contraditório como tanta beleza antecede tamanha violência e tragédia. A trilha sonora composta pelo falecido Johánn Johánnsson contribui para a atmosfera etérea do longa. Quando a ação finalmente toma conta, o que antes era uma linda composição, dá lugar a uma trilha pesada e eletrizante marcada por uma guitarra sempre presente.

O último produto da leva de nostalgia que trouxe Stranger Things e Jogador Nº 1 à vida, Mandy se alinha mais ao que foi visto em Kung Fury pelo seu alto teor estético e temático. A influência de filmes B de terror está por todo lado e existem algumas referências nada sutis ao gênero. Existe uma luta de motosserras como em O Massacre da Serra Elétrica 2; o casal protagonista vive perto de Crystal Lake, onde fica o acampamento onde Jason fez tantas chacinas na franquia Sexta-Feira 13; até Galactus é citado.

O segundo filme de Panos Cosmatos é uma montanha-russa surreal e gloriosa. O futuro da carreira do diretor, se continuar neste nível, é empolgante e promissora. Depois de tanto anos de longas ruins, é bom ver Nicolas Cage dando o seu melhor numa produção que mereça todo o seu talento. Mandy é cruel, impiedoso e inegavelmente lindo, assim como a protagonista homônima, o filme merece o seu amor.

Nota do crítico:

 

Nota dos usuários:

[Total: 2    Média: 3/5]

 

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Estudante de jornalismo, tem 19 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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