Bode na Sala
Críticas Destaque Filmes

Em Chamas | Crítica

Em Chamas | Crítica

Em Chamas (Beoning)

Ano: 2018

Direção: Lee-Chang Dong 

Roteiro: Lee Chang-dongOh Jung-mi

Elenco: Yoo Ah-in, Jeon Jong-seo, Steven Yeun

Pouco baseado no conto Os Celeiros Incendiados, de Haruki Mirakami, Em Chamas, apesar de mudar a ambientação da história do Japão para a Coreia do Sul e estender uma história de 13 páginas para um filme de duas horas e meia, mantém os aspectos básicos da narrativa e os expande de maneira impressionante. O primeiro longa do diretor Lee Chang-dong em oito anos é um conto de solidão, desejo, inveja e obsessão.

Jong-su (Yoo Ah-in) é um entregador que estava em mais um dia de trabalho quando reencontra Hae-mi (Jeon Jong-seo), uma antiga colega de escola e vizinha. Ele não se lembra dela, mas a jovem diz que é por causa da cirurgia plástica que ela fez alguns anos antes. Eles saem juntos algumas vezes e não demora a garota o pedir um favor: cuidar do gato dela enquanto ela viaja para a África.

Quando vai buscá-la no aeroporto, Jong-su se surpreende ao vê-la acompanhada por um belo jovem. Ben (Steven Yeun) é um misterioso e enigmático milionário que conheceu Hae-mi durante a viagem para África e logo ficaram amigos. Essa amizade incomoda o protagonista, que criou sentimentos românticos pela garota.

A primeira coisa que impressiona no filme é o quanto seus três personagens principais são complexos e bem desenvolvidos. Jong-su é construído como uma pessoa reservada, que fala mais quando está sozinho do que quando está na presença de outras pessoas; sua vida, que era composta apenas de trabalho e tentar tirar o pai da prisão, muda completamente ao se reconectar com Hae-mi. Por sua vez, a protagonista feminina é de uma espontaneidade encantadora, note a cena em que ela dança na frente dos amigos de Ben e é completamente alheia ao fato de que eles riam dela. A estreante Jeon Jong-seo faz um excelente trabalho e confere complexidade emocional o suficiente para sua personagem ser convincente.

Mesmo que completamente diferentes, os dois são figuras solitárias que não tem praticamente ninguém além de um ao outro e isso justifica a amizade deles, uma vez que ele não tem nada em comum.

A estrela do filme é Steven Yeun. O ator sul-coreano, que ficou famoso ao estrelar The Walking Dead como o simpático Glenn, aqui mostra todo o seu talento e que ele é um nome a se antecipar em futuros projetos. Ben também é de poucas palavras, então boa parte da atuação de Yeun se ancora no quanto suas expressões faciais conseguem dizer. O ator realmente vende a natureza misteriosa de seu personagem enquanto permanece com um semblante sempre amigável, até quando ele admite seu peculiar hábito de queimar celeiros.

A primeira metade de Em Chamas é lenta, mas não entendia. O roteiro escrito por Lee Chang-dong e Oh Jung-mi é muito envolve e sedutor, capaz de prender enquanto a narrativa é um mero drama comportamental e adquirir tensão e inquietação quando a trama se torna um mistério na sua segunda parte. Um evento inesperado acontece e Jong-su suspeita da figura enigmática de Ben, que nunca confiou nem por um instante. Enquanto os dois se invejam por causa de Hae-mi, Jong-su pela facilidade que Ben tem de se comunicar com ela, enquanto Ben desdenha da confiança que a garota nutre pelo amigo, a relação dos dois nunca vira uma disputa clichê pela preferência da garota.

No entanto, alguns elementos apresentados pelo filme parecem não se integrar com o resto da história. Tem dois longos minutos com a TV ligada passando um discurso do presidente dos Estados Unidos Donald Trump falando das políticas de imigração do país sem qualquer motivo aparente. O mesmo vale para o fato do bairro onde Jong-su mora (e Hae-mi morava) ser próximo da fronteira entre a Coreia do Sul com a Coreia do Norte. São duas coisas que parecem que vão resultar em algum tema que será explorado ou terão algum significado na trama, mas nunca acontece.

Outro fator que envolve o espectador no universo de Em Chamas é a sua fascinante fotografia. Concebida por Hong Kyung-pyo, que colaborou neste departamento em Expresso do Amanhã e Mother: A Busca Pela Verdade, filmes do excelente Bong Joon-ho, o aspecto visual do longa é impressionante e cria momentos de pura beleza. A cena em que Hae-mi dança ao anoitecer é hipnótica. A atmosfera é marcada pela trilha sonora composta por Mowg é inquietante, sempre parecendo anteceder algo ruim que está prestes a acontecer.

Chegando a uma impactante conclusão causada pela obsessão de seus personagens, Em Chamas é outro filme que marca a riqueza e a qualidade do cinema sul-coreano. Mesmo que o diretor Lee Chang-dong demore mais oito anos para o seu próprio filme, o cineasta prova que qualquer espera é bem-vinda.

Nota do crítico:

 

Nota dos usuários:

[Total: 0    Média: 0/5]


Quer ficar por dentro de todas as novidades sobre filmes e séries? Curta a nossa página no Facebook!

The following two tabs change content below.
Estudante de jornalismo, tem 19 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close