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Infiltrado na Klan | Crítica

Infiltrado na Klan | Crítica

Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman)

Ano: 2018

Direção: Spike Lee

Roteiro: Spike Lee, Charlie Wachtel, David Rabinowitz e Kevin Willmott

Elenco: John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier, Topher Grace

Spike Lee está de volta para um ousado e incendiário novo projeto — e o timing não poderia ser mais perfeito. Com a ascensão do racismo e da intolerância nos Estados Unidos, Lee dirige a adaptação do livro homônimo baseado em fatos reais escrito por Ron Stallworth, relatando as suas experiências para fazer comentários sociais relevantes. No processo, o cineasta também ressuscita a sua carreira de diretor, que não produzia um sucesso de bilheteria desde O Plano Perfeito, em 2006, mas agora volta aos holofotes em grande estilo.

No início dos anos 1970, Ron Stallworth (John David Washington) é o primeiro policial negro da cidade de Colorado e, logo no seu primeiro dia na função, enfrenta preconceito de seus colegas. Após ser transferido para a unidade de infiltração, ele teve como primeira missão monitorar o discurso de Stokely Carmicheal (Corey Hawkins), ex-membro dos Panteras Negras. Depois de ser acusado de se envolver demais com a missão, Ron foi transferido para a inteligência. Ao ver um anúncio no jornal, o policial estabelece contato com o grupo racista Ku Klux Klan e marca um encontro com um dos membros.

Para se infiltrar na organização, Ron usa o seu parceiro, Flip Zimmerman (Adam Driver), passando-se por ele sempre que um encontro presencial é necessário. Juntos, os dois coletam as informações necessárias para comprovar que a Ku Klux Klan, reformada e considerada inofensiva pelas autoridades, ainda representa um risco real não só para os negros, mas para judeus, homossexuais ou qualquer um que não seja da raça ariana.

Durante a maior parte do tempo, Infiltrado na Klan é uma comédia feroz. Com um forte tom satírico e uma acidez intoxicante, o longa cria situações hilárias enquanto tira sarro dos membros da organização racista. Escrito a oito mãos, por Spike Lee, Charlie Wachtel, David Rabinowitz e Kevin Willmott, o roteiro é ágil ao manter um ritmo insano e criar situações hilárias que fazem as duas horas e quinze minutos de duração passarem rapidamente. O filme também tem uma qualidade provocadora, desafiando os espectadores a não rirem de momentos impróprios, mas não menos risíveis.

Apesar da natureza cômica, o filme não tem medo de abordar assuntos mais sérios. Fica claro alerta sobre os perigos de se subestimar grupos que destilam ódio só porque aparentam não serem violentos. A intolerância racial e religiosa é presente não só nos membros da KKK, mas também em policiais, que abusam do poder contra negros; a história real do jovem negro brutalmente linchado no início do século XX é aterrorizadora. Infiltrados até o pescoço, é interessante ver como os dois Ron Stallworth, o Ron verdadeiro e Flip, sofrem com a dualidade que vivem.

Stallworth sempre quis ser um policial e se orgulha de poder exercer a função, mas se sente culpado ao não conseguir fazer nada contra o preconceito na instituição ou por ser obrigado a se infiltrar em um movimento estudantil negro para monitorá-los. A própria parceira de Ron, Patrice Dumas (Laura Harrier), comenta com o protagonista sobre a teoria do duplo pensamento, em que pessoas negras vivem com duas verdades conflitantes para poder se encaixar numa sociedade majoritariamente branca. O próprio discurso de Carmicheal fala sobre como o próprio torcia contra os negros nos filmes quando criança, porque era condicionado a isso e incentiva os seus irmãos de cor a aceitarem a sua própria beleza.

Da mesma forma, Flip é obrigado a confrontar sua identidade judia. Como nunca foi praticante da religião, sequer teve um bar mitzvah, o policial vivia tranquilo com isso até se infiltrar na Ku Klux Klan, onde é obrigado a falar ofensas racistas para manter o seu disfarce e notar o quanto ele se identifica com o judaísmo, uma vez que vê as discriminações que os judeus ainda sofrem: “Eu não costumava pensar nisso. Agora penso o tempo inteiro“, declara o policial para o seu parceiro. Flip ainda tem de lidar com as suspeitas de Felix Kendrickson (Jasper Pääkkönen), que está disposto a desmascará-lo a qualquer custo. Adam Driver faz um excelente trabalho como o usual e John David Washington, filho de Denzel, se mostra muito promissor e carismático, sem nunca ficar na sombra do pai.

Infiltrado na Klan não estaria completo se não trouxesse críticas ferrenhas ao que acontece no mundo agora, mais especificamente nos Estados Unidos. Ainda se beneficiando do clima de paródia, o filme traz trechos de E O Vento Levou… e do infame O Nascimento de uma Nação, para ilustrar como obras que são consideradas clássicas do cinema trazem muitos preconceitos inaceitáveis. Alec Baldwin, que interpreta uma versão caricata de Donald Trump no Saturday Night Live, aparece como o fictício Dr. Kennebrew Beauregard em um forte discurso contra a miscigenação no país. E não para por aí.

David Duke (aqui interpretado por Topher Grace), o famoso suprematista e separatista branco, aparece nos seus tempos de Grão Mago (sim, esse é o título real) da Ku Klux Klan e é enganado por Ron Stallworth em inúmeras ligações de telefone. O filme faz o personagem citar a vontade dele de engrandecer a América novamente e mostrar a intenção de se tornar presidente dos Estados Unidos — uma década depois, Duke tentaria se eleger presidente, pulando do partido democrata para o populista, mas sem sucesso em ambos. Em determinado momento, um personagem questiona se realmente seria possível os Estados Unidos eleger alguém tão abertamente preconceituoso. O filme não é nada sutil.

A mão de Lee na direção é pesada e não segura nenhum soco, criando um final reflexivo e impactante ao provar que os eventos do filme, apesar de serem ambientados na década de 1970, não estão distantes da nossa realidade hoje. O estilo pega emprestado elementos do blaxploitation e ainda traz os personagens se referindo a clássicos do gênero como Shaft e Super Fly. Infiltrado na Klan é um filme por vezes hilário, por vezes incrivelmente tenso, mas sempre relevante. Spike Lee encontrou um novo fôlego com o seu novo longa e, agora, resta esperar para ver onde ele vai a seguir.

Nota do crítico:

 

Nota dos usuários:

[Total: 1    Média: 5/5]


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Estudante de jornalismo, tem 20 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli e de musicais, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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