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A Casa que Jack Construiu | Crítica

A Casa que Jack Construiu | Crítica

A Casa que Jack Construiu (The House That Jack Built)

Ano: 2018

Roteiro: Lars Von Trier

Direção: Lars Von Trier 

Elenco: Matt Dillon, Bruno Ganz, Uma Thurman, Siobhan Fallon Hogan, Sofie Gråbøl, Riley Keough, Jeremy Davies

Conforme sua carreira no cinema foi progredindo, o polêmico diretor dinamarquês Lars Von Trier progressivamente aumentou o nível de violência e teor de choque nos seus filmes. Depois de conduzir a trilogia da depressão, composta por Anticristo, Melancolia e Ninfomaníaca (que, apesar de dividido em duas partes, conta como um só longa), Von Trier se superou de novo, para o bem ou para o mal.

No filme, Jack (Matt Dillon) é um serial killer em sua jornada para o inferno. Depois de ficar na ativa por 12 anos, somando dezenas de cadáveres no seu frigorífico, ele finalmente deve encarar seu destino inescapável e é acompanhado pelo Virgílio (Bruno Ganz) no caminho. Assim, o longa acompanha o desenvolvimento inverso de Jack, que é narcisista e portador de TOC; de um calculoso assassino que tenta não deixar rastros, para um espalhafatoso e exibido matador compulsivo que se permite até deixar evidências aos jornais para alcançar determinada fama.

Apesar de ter sido criado para ser um engenheiro desde criança, uma profissão considerada lucrativa pela mãe, o protagonista sempre se identificou como um arquiteto. Não alguém que apenas constrói as coisas, mas que as projeta. Ele se considera um artista, cada assassinato seu é descrito como uma única e prestigiada obra de arte, algo pelo qual ficará reconhecido. Além de se auto-apelidar de Sr. Sofisticado, o assassino gosta de se comparar a famosos artistas e considera cada morte que causou uma criação única.

Não é preciso pensar muito para estabelecer paralelos entre o Jack e Von Trier, conhecido por ter um árduo processo criativo que, segundo o próprio, vem da depressão e ansiedade. Além das mortes, Jack é empenhado em construir uma casa do zero, mas nunca parece realmente apto para a tarefa. Toda vez que ele começa o processo de construção, ele destrói todo o progresso alcançado e recomeça, incapaz de encontrar um material que consiga transformar  a sua visão em realidade.

No que diz respeito à estrutura, A Casa que Jack Construiu é muito similar a Ninfomaníaca, é só trocar sexo compulsivo por assassinato compulsivo. Da mesma forma que Joe (Charlotte Gainsbourg) compartilhava as suas histórias com o Seligman (Stellan Skaarsgard), aqui Jack encontra no Virgílio o seu confidente. O guia que já acompanhou muitas pessoas assassinas e psicopatas ao inferno durante seus anos na função, desdenha dos incidentes do protagonista com enorme sarcasmo. Ele ri do quanto o Jack se acha único e especial por fazer coisas que dezenas fizeram antes dele.

Os dois primeiros incidentes, protagonizados pela Mulher 1 (Uma Thurman) e pela Mulher 2 (Siobhan Fallon Hogan) beiram, para não dizer se entregam, à comédia. Desde os longos e constrangedores diálogos a rápidos zooms nos rostos das vítimas para destacar as suas expressões de confusão — linguagem que remete a seriados de humor como The Office, que desafiam o espectador a rir, mesmo conhecendo o fatal destino das mulheres que cruzaram o caminho de Jack. Lars Von Trier sempre foi um provocador. Vale ressaltar a hilária sequência de assassinato em que o personagem principal constantemente volta à cena do crime porque seu TOC o faz crer que deixou manchas de sangue no lugar ou algo minimamente desarrumado.

Outra provocação evidente do diretor é mencionar tão passionalmente dentro da narrativa o arquiteto de Hitler. Os elogios tem um tom sarcástico ao se notar que Von Trier foi banido de Cannes em 2011 por elogiar Adolf Hitler durante uma coletiva de empresa de Melancolia, ganhando o status de persona non grata. Curiosamente, após dois filmes de ausência do festival, o diretor voltou para Cannes com A Casa que Jack Construiu, onde foi exibido ao mundo pela primeira vez. Tão irônico.

Mas, conforme o longa avança, o humor cede espaço ao mais profundo desgosto. A natureza cômica das mortes dá lugar a um exercício repreensível de violência gratuita. Não que desconcertar seja algo novo na filmografia do diretor dinamarquês, mas agora ele parece motivado a desafiar os limites da violência. As situações ficam mais tensas e apreensivas, as vítimas ficam mais aterrorizados e o gore é nauseante. Nem crianças e animais ficam livres do vazio sadismo do personagem principal.

Mas é apenas no quarto incidente que as coisas ficam realmente interessantes. Depois da vítima número quatro, Jacqueline (Riley Keough), ser apresentada como uma mulher fútil e estúpida, o Virgílio questiona Jack ao notar que todas as suas histórias que escolheu contar não só envolvem exclusivamente mulheres ingênuas, mas pontua a superioridade que ele sente em relação ao feminino. Esta reflexão traça um paralelo, mais uma vez, com a carreira do diretor, acusado inúmeras vezes de misoginia nos seus filmes. Infelizmente, a questão é rapidamente deixada de lado, não se aprofundando nesta que seria uma discussão e autocrítica interessante.

A jornada para o inferno é longa e o filme também. Separado em cinco capítulos e um epílogo, A Casa que Jack Construiu começa a soar desnecessariamente longo e enfadonho nas excessivas duas horas e meia de duração. Assim como o Virgílio cansa de ouvir sobre tantas mortes, a plateia também. Os momentos finais perdem o valor de choque e deixam de impressionar por acostumar o espectador com o nível de barbárie que acontece em tela, atingindo um lugar-comum e estagnando.

Matt Dillon, desaparecido de papéis de destaque no cinema desde Crash: No Limite, tem todo o espaço para brilhar. Ele compõe Jack como uma figura, à princípio, controlada, mas crescentemente aborrecida com as pessoas à sua volta e a demora em performar seus assassinatos. Se banhando na insanidade com um sorriso de macabra satisfação no rosto, o ator se revla um protagonista muito interessante, que faz valer o filme por conta própria. Infelizmente, o resto do elenco não tem muito tempo em tela para se destacar.

No final, A Casa que Jack Construiu é uma obra igual aos cruéis assassinatos de seu protagonista e, apesar de deslumbrado pelo seu criador, não traz nada de novo, caindo no campo da pretensão. Lars Von Trier entrega um filme que já presentou antes, com o adicional da violência; é uma pena que tanto autocrítica e auto-análise não levem a lugar algum.

Nota do crítico:

 

Nota dos usuários:

[Total: 2    Média: 5/5]

 

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Estudante de jornalismo, tem 19 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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