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O Primeiro Homem | Crítica

O Primeiro Homem | Crítica

O Primeiro Homem (First Man)

Ano: 2018

Direção: Damien Chazelle

Roteiro: Josh Singer

Elenco: Ryan GoslingClaire FoyJason ClarkeKyle ChandlerCorey Stoll

O fascínio do ser humano em desbravar o desconhecido é o que proporciona as novas descobertas e, assim, faz com que a espécie evolua (mesmo que, às vezes, pareça que não). Então, para que isso aconteça, algumas pessoas se jogam em missões arriscadas para explorar o inexplorado e, assim, obter algumas respostas para as nossas infinitas perguntas. Um exemplar de pioneiro que entrou para a história, chegando onde nenhum outro homem havia ido antes dele, foi Neil Armstrong, primeiro terráqueo a colocar os pés na lua.

A façanha do astronauta, realizada em 1969, ou seja, quase 50 anos atrás, segue sendo uma das maiores da história da humanidade — inclusive, até hoje, ela é questionada, envolta em muitas teorias da conspiração. Agora, Damien Chazelle, cineasta responsável pelos ótimos Whiplash: Em Busca da Perfeição e La La Land: Cantando Estações, resolveu levar a história de Armstrong às telonas, desmistificando o personagem e focando no homem (como o próprio título sugere).

Logo no começo da projeção, conhecemos a dedicação de Armstrong (Ryan Gosling) aos seus projetos e as dificuldades enfrentadas como pai de uma menininha doente. Quando a garotinha acaba perdendo a luta para o câncer, o protagonista se volta para o trabalho para esconder a dor. Sem demora, ele acaba integrando a equipe de engenheiros que quer chegar à lua, em missões arriscadas e apressadas, pois a corrida espacial entre os Estados Unidos e a União Soviética estava no auge.

Com o roteiro de Josh Singer, acostumado em contar histórias mais políticas e densas, como West Wing: Nos Bastidores do Poder, Spotlight: Segredos Revelados e The Post: A Guerra Secreta, O Primeiro Homem acaba não encontrando bem o seu tom. O longa é muito mais técnico do que dramático, deixando a parte familiar da história de Armstrong, que deveria ser o grande destaque, muito mais maçante do que tocante. Muitas dessas partes, inclusive, são desnecessárias. A relação do astronauta com os seus filhos, mesmo que saibamos do luto pela sua filha, não convence.

Os garotos escolhidos para viver os descendentes de Armstrong, inclusive, não estão bem em cena — além de serem muito parecidos, confundindo quem é quem. Eles, também, causam a impressão de não estarem dentro da passagem de tempo do longa, pois crescem rápido demais em alguns momentos e, depois, estancam com o mesmo tamanho por anos. Claire Foy, que vive Janet, a esposa de Neil, vai bem, mas não brilha como se esperava. A sua personagem, infelizmente, não cria uma ligação interessante com ninguém à sua volta — além de ter atitudes que contradizem com a sua própria personalidade.

Já Ryan Gosling que, obviamente, tem o maior destaque do longa, entrega um Neil Armstrong contido e pouco expressivo, mas que aparenta carregar uma dor o tempo inteiro. Dentro da trama, a performance do ator se mostra acertada e alinhada com o proposto. Nos momentos em que a carga dramática é maior, Gosling não decepciona. Se Neil Armstrong, realmente, guardou os sentimentos da perda para si, o ator que o interpreta conseguiu captar todo esse dolorido processo e repassá-lo.

Mas, como dito acima, O Primeiro Homem é muito mais técnico do que dramático. Chazelle, que já havia mostrado todo o seu talento em seus dois longas anteriores, não erra a mão nos momentos relacionados à viagem lunar, seja na preparação das naves, nos voos ou no próprio espaço. O diretor é extremamente efetivo na hora de apontar os perigos daquela missão, destacando a precariedade dos equipamentos que levariam os homens ao desconhecido. Chazelle foca nos parafusos sujos que compõem as naves, a lataria batendo e os painéis precários, muito longe do que se imagina de foguetes que podem viajar para fora do planeta.

Com isso, o cineasta reforça a coragem necessária aos homens envolvidos na missão para seguirem firmes em seu propósito. Armstrong, por exemplo, manteve-se firme em seu objetivo, mesmo com muitas baixas próximas a ele. Quando a viagem definitiva acontece, tudo o que se espera é que a célebre frase “um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade” seja dita por Armstrong. E ela acontece de maneira mais forte do que se espera. O diretor não decepciona ao segurar a expectativa, entregando algo a mais, com tensão e emoção.

A chegada do homem à lua por Chazelle é uma experiência sensorial. A câmera do cineasta é sempre trêmula e causa até um certo atordoamento em determinados momentos, por conta do grande tempo de projeção e o efeito sendo repetido à exaustão. E isso faz todo o sentido dentro da narrativa. Tudo envolvendo a ida de Armstrong à lua é incerto e a pressa para superar os soviéticos só piora a situação. Somos colocados na pele do astronauta — e a experiência é cansativa.

Outro ponto excelente de O Primeiro Homem é a sacada sutil de mostrar o momento em que Buzz Aldrin (Corey Stoll), companheiro de Armstrong na missão, chega em solo lunar. Ali, o diretor mostra a diferença como a história tratou os dois astronautas: um recebeu a glória eterna, já o outro se manteve sempre à sombra da façanha do primeiro homem a pisar na lua. No final das contas, o longa é um trabalho que reforça o talento de Chazelle e como ele consegue contar uma história com segurança, como um cineasta muito experiente, mesmo tendo apenas 33 anos. Ele, assim, entrega mais uma obra que fala sobre a obsessão de alcançar um objetivo, destacando os muitos sacrifícios necessários para isso.

Nota do crítico:

 

Nota dos usuários:

[Total: 1    Média: 4/5]


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Jornalista e radialista, é um dos fundadores do Bode na Sala. Tem 26 anos, se orgulha de ter nascido em São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, e, atualmente, mora em Porto Alegre. Trabalhou em todas as áreas que se pode imaginar, mas acabou caindo no submundo geek. É fã do Jim Carrey, acha que o Ben Affleck é o melhor Batman do cinema, não suporta pseudo-cultismo e pretende dominar o mundo.

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