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Crimes em Happytime | Crítica

Crimes em Happytime | Crítica

Crimes em Happytime (The Happytime Murders)

Ano: 2018

Direção: Brian Henson

Roteiro: Todd Berger

Elenco: Bill BarrettaMelissa McCarthy, Elizabeth Banks, Maya RudolphLeslie David BakerJoel McHale, Dorien Davies

Bonecos vivendo entre humanos e sofrendo preconceito na rua. Sendo ofendidos, maltratados, sofrendo deboches e agressões. Poderia ser um drama fazendo analogia ao racismo e à homofobia mas, na verdade, é uma comédia com visual leve e linguajar pesado. E não é muito fácil entrar no clima do filme. Até porque o clima do filme não fica muito claro nunca. 

Escrito por Todd Berger e dirigido por Brian Henson, Crimes em Happy Time nos apresenta o investigador particular Phil Phillips (Bill Barretta), um boneco que foi demitido da polícia anos antes após um grave incidente, sendo o primeiro e último boneco a ser aceito como policial. Quando uma sensual boneca o procura para investigar uma ameaça que está sofrendo, Phil acaba descobrindo uma série de assassinatos de bonecos que participavam de um antigo programa de TV. Agora ele vai precisar se reunir com sua antiga parceira humana, a Detetive Connie Edwards (Melissa McCarthy), para solucionar os crimes e impedir que aconteçam novos assassinatos. 

De início, esta interação entre personagens humanos e bonecos remete a Uma Cilada para Roger Rabbit (1988). É claro que, no filme de 1988, os personagens eram animações e desta vez são marionetes, mas o conceito é bem semelhante. E não é só isso. Ambos tem elementos de filme noir bem marcantes. Os mais óbvios são a história envolvendo um investigador particular e a presença de uma femme fatale. Mas já aviso para não esperarem nada imponente como Jessica Rabbit. A personagem Sandra (Dorien Davies) não tem um pingo do carisma dela. E se Roger Rabbit contava com um visual mais colorido, com um impacto visual mais forte, Crimes em Happytime apela para uma paleta de cores mais fria e desbotada. O protagonista, em um azul pálido, é o retrato da depressão que se tornou a vida dos bonecos que sofrem com o preconceito dos humanos e vivem, em grande parte, marginalizados. 

E, apesar de todo este visual deprimente, o humor não consegue se aproveitar deste tom. Muito pelo contrário. É um senso de humor tão apelativo e escrachado que quebra todo o clima que foi realmente bem construído para o filme. Não há dúvida de que um humor mais ácido e discreto encaixaria muito melhor e ajudaria a compor a narrativa. Com o humor restrito quase que unicamente a piadas de cunho sexual, a estratégia foi partir para o absurdo daqueles personagens tão fofinhos serem capazes de tamanha baixaria e falta de pudor. Eu não tenho nenhuma restrição a este tipo de piada, mas quando um filme apela o tempo inteiro para isso, a repetição torna aquilo meio chato. 

Tecnicamente, os movimentos dos bonecos estão muito bem executados. Claro que muito se deve à experiência do diretor em diversos filmes dos Muppets. Quase todo o tempo, eles são mostrados em planos médios ou fechados, o que obviamente auxilia para esconder os humanos que os manipulam. No entanto, eles eventualmente aparecem de corpo inteiro, e seus movimentos são exatamente o que esperamos de seres feitos de pelúcia. É durante os créditos finais que talvez esteja a melhor parte do filme, pois é quando mostram algumas filmagens de bastidores que explicam como algumas cenas foram gravadas. Assistindo aquilo, ficamos com a certeza de que a equipe se divertiu demais durante as filmagens. Certamente muito mais do que boa parte do público se divertirá assistindo. 

Este desacerto entre os tons do filme também está presente no roteiro. A história começa de forma coerente e intrigante. Existe uma explicação razoável por trás dos crimes, mas alguns elementos foram mal aproveitados. O relacionamento entre Phil e sua ex-parceira, ficou muito mal explicado. Não chega nem perto de justificar o rompimento da relação dos dois. Além disso, apesar de Melissa McCarthy aparecer co destaque no pôster e praticamente tomar conta do trailer, no filme ela é claramente uma coadjuvante. Em apenas uma cena ela realmente domina a ação e o humor. É um desperdício.

Outra coisa que podia ser melhor explorada era o programa de tv das marionetes, pois mal foi possível identificar seus personagens e a relevância deles para a trama de tão superficiais que foram as cenas em que apareceram. Não é que fique difícil de compreender, porque não há nada de complexo no roteiro. Simplesmente, parece que existem personagens que não precisavam estar ali. E é realmente uma pena que algumas analogias que surgiram ao racismo tenham sido simplesmente abandonadas ainda no primeiro ato do filme, mostrando que estavam servindo apenas como piada e não como denúncia. Para não parecer que tudo está ruim, existem algumas referências a outros filmes, inclusive com uma cena clássica de interrogatório, que foram muito bem boladas.  

Sendo assim, o que vemos são ingredientes que, quando unidos, não conseguiram fazer um filme equilibrado. É uma produção voltada para um público muito específico, pois não é apropriado para crianças e não são muitos adultos que vão se interessar por um filme com bonecos vivendo entre humanos. Ele vai funcionar, talvez, para aquele público que gosta da “zuêra”. Mesmo assim, é totalmente esquecível, e a falta de carisma dos bonecos faz com que o filme não consiga empolgar em momento algum. 

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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