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Maniac – 1ª temporada | Crítica

Maniac – 1ª temporada | Crítica

Maniac – 1ª temporada

Ano: 2018

Criador: Patrick Sommerville

Elenco: Emma Stone, Jonah Hill, Justin Theroux, Sonoya Mizuno, Billy Magnussen, Julia Garner, Gabriel Byrne, Sally Field

Não é surpresa que Emma Stone e Jonah Hill são ótimos atores dramáticos. A dupla, que atuou junto em Superbad: É Hoje, primeiro filme da Stone, ficou conhecida por filmes de comédia e hoje têm duas indicações ao Oscar cada — Emma Stone levou a estatueta de Melhor Atriz para casa em 2017. E, ainda assim, ouso dizer que Maniac traz as melhores atuações dos dois até aqui.

Owen Milgrim (Hill) é um adulto esquizofrênico com mania de conspiração que se sente sufocado pela própria família. Por sua condição, ele se sente excluído e cria uma versão alternativa e ilusória do seu irmão mais velho, o carismático Jed (Billy Magnussen), que constantemente lhe dá missões secretas e o alimenta com frases enigmáticas como “o padrão é o padrão”. Quando é forçado a mentir no tribunal para a própria família salvar a pele do Jed real, Owen surta.

Annie Lindsberg (Emma Stone) é viciada em remédios, nutre uma péssima relação com a mãe e perdeu o contato com a irmã, Ellie (Julia Garner). Ao tentar suprimir um enorme trauma não resolvido de seu passado, Annie vive uma rotina não saudável alternando entre álcool e medicamentos privados tentando ignorar a natureza de seus problemas.

A insana e, por vezes, devastadora Maniac junta estes dois falhos protagonistas que se submetem a um tratamento experimental da Neberdine Biotech, uma indústria farmacêutica que visa à extinção da terapia como a conhecemos para substituí-la apenas com remédios. Dá-se início a uma ambiciosa viagem ao passado e a diversas realidades paralelas em que os personagens devem enfrentar os seus traumas, medos e questões não resolvidas para conseguirem seguir em frente.

O tratamento é dividido em três partes: agonia, behaviorismo e confronto. Cada parte tem uma pílula específica para mergulhar a cobaia no seu próprio subconsciente. Cada uma das sequências de sonho, aqui chamadas de ensaios, é única, divertida e melancólica. Seja num mundo medieval de fantasia ou em nos subúrbios da década de 1980, todo ensaio é único e muito bem estabelecido. Por mais louca que a história de cada um deles possa ser, elas estão intrinsecamente conectadas com os passados de Owen ou de Annie, assim como com as situações que passam no presente. Repletos de rostos conhecidos se repetindo e inúmeros detalhes recorrentes relacionados aos protagonistas.

Logo de cara, um dos primeiros temas apresentados pela série é a quebra das defesas do nosso organismo e esse é justamente o que os personagens devem alcançar, admitir que tem o problema para que ele seja identificado e revertido. Com Owen, que vive com a esquizofrenia e os efeitos dela desde sempre é fácil de aceitar; mas Annie é muito mais complexa. Ela rejeita ao máximo seus problemas e resiste ao máximo, mas, quando finalmente se abre, Emma Stone dá um show à parte.

Como mencionado no começo da crítica, os dois protagonistas mostram o melhor deles até o momento. Jonah Hill confere um tom de voz baixo e um olhar depressivo ao seu personagem, é fácil se importar com Owen logo na sua primeira aparição. Mas sempre que Owen divide a tela com Annie, ele é eclipsado. Stone sempre teve um rosto muito expressivo, o que ajuda no timing cômico dela, mas essa mesma habilidade funciona perfeitamente bem para o drama. Ela é capaz de partir corações só com a sua face e os olhos tremeluzindo. A química entre Stone e Hill também é determinante para o sucesso da série, eles se dão tão bem naturalmente que não há problemas em comprar o quão rápido a amizade deles se desenvolve. Owen dá o seu melhor para ajudar Annie a continuar e vice-versa.

E nem tudo se resume aos protagonistas. O Dr. James K. Mantleray (Justin Theroux) é hilário e também traz carga dramática o suficiente para combinar com os temas de Maniac. Apesar de brilhante, ele odeia a sua mãe, a famosa terapeuta Greta Mantleray (Sally Field), e a culpa por basicamente tudo de ruim que acontece na vida dele. Essa disfunção entre os dois não só traz os momentos mais divertidos da série como desenha um paralelo direto com Annie e sua mãe, que era extremamente manipuladora. A família é o marco zero dos problemas de todos os personagens.

Um dos aspectos mais admiráveis de Maniac é como ela consegue alternar entre tramas psicológicas pesadas com um humor mais leve sem nunca deixar a mudança tonal ser brusca. Ela retrata temas como abandono parental, abuso de substância, luto, auto depreciação e negação com muita responsabilidade e oferece uma saída saudável para todos os personagens.

A parte técnica é tão caprichada quanto pode se esperar de Cary Fukunaga. A câmera um pouco mais contida do que o usual, com a exceção de dois planos-sequência; um durante uma insana cena de ação e outro lúdico, que marca a mudança de tom no final da narrativa. Fukunaga, diretor de todos os episódios da temporada — algo raro em séries, mas o mesmo feito dele em True Detective — brinca com a iluminação. Os ambientes internos do prédio da indústria farmacêutica trazem luzes fortes e coloridas que contrastam diretamente com a realidade dos ensaios.

Os ensaios, por mais brilhantes que possam ser, às vezes, são a parte mais fraca de Maniac. A suspensão da descrença é absolutamente necessária, mas as sequências de sonho nem sempre são tão interessantes quanto o que está acontecendo no mundo real. E as ocasionais cenas de violência são muito gráficas e exageradas, acabam destoando do resto.

Com episódios curtos para um drama da Netflix, de 25 a 50 minutos, Maniac, assim como sua original norueguesa, não deve ter continuação. O final da série é fechado e otimista, mas o nível de insanidade, sentimentalismo e diversão oferecidos vão fazer falta.

Nota do crítico:

 

Nota dos usuários:

[Total: 8    Média: 2.4/5]

 

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Estudante de jornalismo, tem 19 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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