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Buscando… | Crítica

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Buscando… (Searching…)

Ano: 2018

Direção: Aneesh Chaganty

Roteiro: Aneesh Chaganty Sev Ohanian

Elenco: John ChoSara SohnMichelle LaJoseph LeeDebra Messing.

De vez em quando surge alguma grande novidade no cinema, tecnológica ou de linguagem, mas eu tenho receio de dizer que é uma ideia super original pois sempre existe a possibilidade do verdadeiro precursor simplesmente estar meio escondido, distante do grande circuito comercial. E é por isso que eu não afirmo com certeza que Buscando… é uma inovação surpreendente na forma de contar histórias. No entanto, para mim, foi algo totalmente diferente e inesperado.

O filme dirigido pelo estreante Aneesh Chaganty que também assina o roteiro ao lado de Sev Ohanian, nos apresenta a família Kim, formada pelo pai David (John Cho), a mãe Pamela (Sara Sohn) e a filha Margot (na adolescência, vivida por Michelle La). Acompanhamos os primeiros anos de vida de Margot, sua entrada na escola, a adolescência e acompanhamos a evolução da doença de sua mãe. Em um certo dia, aos 16 anos, mais independente e distante de seu pai, Margot desaparece após uma reunião com um grupo de estudos. A partir daí, seu pai usa todos os recursos tecnológicos aos quais tem acesso para auxiliar a polícia nas investigações pelo paradeiro dela.

E aí está a grande novidade de Buscando… . O filme inteiro é apresentado através de telas de computador, que de certa forma remete ao que foi apresentado anteriormente em Amizade Desfeita (2014), mas de forma muito mais diversificada, demonstrando a evolução dos sistemas operacionais e diferentes equipamentos e softwares de comunicação. Só esta experimentação na linguagem já seria um belo atrativo, mas ela não serve apenas para diferenciar o filme de outras produções do gênero de suspense, e sim como elemento narrativo. Isto porque, desde a primeira cena, que se passa em um sistema Windows 95, é demonstrado o quanto o pai é envolvido com computadores, fotos e vídeos digitais, videoconferências e tudo relacionado à informática. Esta intimidade dele com a tecnologia vai ser fundamental para que o resto do filme funcione e que sua busca pela filha se torne verossímil.

Então acompanhamos suas conversas em vídeo com colegas da filha, com policiais, com familiares, suas buscas no Google, Gmail, Facebook, Instagram e outros sites de relacionamento, sua pesquisa em antigos arquivos de vídeo e fotos de família, agendas e tudo mais, sempre através da tela na qual ele está trabalhando. Algo incrível e que ajuda demais na compreensão do filme é que absolutamente todas as janelas de navegação estão 100% traduzidas para português. Tanto os sites (e até mesmo os anúncios publicitários) quanto os sistemas operacionais são mais facilmente compreendidos, permitindo que nossa atenção fique totalmente voltada à história e às legendas durante as conversas em vídeo. Foi um trabalho realmente admirável que, sem dúvida, ajuda demais na distribuição mundial do filme.

Esta maneira de contar a história onde os personagens aparecem sempre em chamadas de vídeo ou fotos e filmagens de arquivo, funciona muito bem justamente pela naturalidade das atuações e situações apresentadas. Nós podemos visualizar facilmente a nós mesmos ou conhecidos nossos em quase todos os momentos que são mostrados no filme. Não há situações forçadas ou que causem alguma estranheza. Tudo que vemos é uma sucessão coerente de fatos e atitudes que, mesmo assim, consegue trazer surpresas e reviravoltas. Vale destacar a atuação dos protagonistas John Cho e Michelle La, que compõe seus personagens de forma multidimensional, apresentando a personalidade que eles transparecem no dia-a-dia mas também, eventualmente, o que eles tentam esconder dos outros.

Este realismo é muito eficiente em provocar impacto no espectador. Nos primeiros minutos de filme, sentimos um certo estranhamento com aquele cursor, aquelas pastas e arquivos sendo arrastados e renomeados. A seguir, ao nos habituarmos, fica muito fácil enxergar aquilo como se fosse mesmo verdade, visto que a qualidade da imagem varia frequentemente dependendo da câmera dos interlocutores, tornando a fotografia do filme bem heterogênea, como aconteceria na vida real. E no momento em que aquilo parece se tornar real, é muito difícil não ficar tocado pelo desespero do pai em busca da sua filha, mantendo a esperança mesmo quando ele parece se encontrar em um beco sem saída.

Se separarmos a história mostrada da linguagem utilizada, ou seja, o mesmo filme fosse gravado de uma maneira tradicional, o bom roteiro certamente não seria suficiente para tirar Buscando… do lugar comum. No entanto, foi justamente esta maneira de contar a história que acrescentou demais à narrativa, dando uma força enorme ao resultado final. Só não consigo acreditar que esta inovação vá gerar mais filmes no mesmo modelo. É muito difícil imaginar outra história que consiga utilizar este recurso e se manter interessante por quase duas horas. De qualquer maneira, é uma experiência muito gratificante poder ver um filme no qual você se obriga a reconstruir seu olhar já em seus primeiros minutos. Em uma época que tantas vezes só revemos mais do mesmo, um pouco de novidade sempre será bem vinda.

Nota do crítico:

 

Nota dos usuários:

[Total: 1    Média: 4/5]


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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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