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Yonlu | Crítica

Yonlu | Crítica

Yonlu

Ano: 2018

Direção: Hique Montanari

Roteiro: Hique Montanari

Elenco: Thalles Cabral, Nelson Diniz, Liane Venturella, Leonardo Machado, Mirna Spritzer.

Yoñlu era o pseudônimo de Vinicius Gageiro Marques, um jovem artista nascido em Porto Alegre. Vinicius morou vários anos na Europa, aprendeu diversos idiomas, adquiriu cultura muito acima da média para garotos da sua idade e tinha um talento impressionante para a arte — principalmente, para a música. No entanto, Vinicius sofria de depressão. Uma depressão severa. Nos momentos de crise, Vinicius recorria à internet, onde debatia em fóruns cujo tema era predominantemente formas de se cometer suicídio. Então, em julho de 2006, Yoñlu arquitetou cuidadosamente a sua própria morte, arranjando uma forma de manter seus pais fora de casa o dia todo e dividindo com seus colegas de fórum o passo a passo do que estava fazendo. Inclusive, pedindo dicas e incentivo para seguir seu plano até o final. E seguiu. Vinícius cometeu suicídio aos 16 anos de idade, no banheiro de seu apartamento.

Escrito e dirigido por Hique Montanari, o filme se dedica a apresentar o processo artístico de Yoñlu (Thalles Cabral) e, a partir de muitas falas literais dele e de seu psiquiatra, de certa forma demonstrar o que se passava no interior do jovem, principalmente durante suas crises, que o levaram a esta atitude tão extrema. São mostrados os aspectos internos e as influências externas que influenciaram decisivamente para que ele tirasse a própria vida. 

Em primeiro lugar, é fundamental enaltecer a sensibilidade e a responsabilidade com a qual o tema do suicídio foi abordado no filme. Recentemente, a série da Netflix 13 Reasons Why provocou discussões e declarações revoltadas, inclusive de psiquiatras, justamente por glamourizar e romantizar o suicídio, o apresentando como um ato de vingança contra as pessoas que fizeram mal à protagonista. Em Yonlu, fica muito claro desde o início de que Vinícius era doente e que foi vítima da influência dos participantes do fórum na internet no momento em que estava mais enfraquecido. No entanto, confesso que fiquei um pouco preocupado com a riqueza de detalhes e dicas sobre a “técnica” que Vinícius decidiu utilizar. Entendo que, para contar a história como aconteceu, aquilo se fez necessário, mas ainda assim me senti desconfortável ao perceber que tinha acabado de aprender uma forma de suicídio que eu sequer imaginava que era praticada.

Voltando ao trabalho de direção, Hique Montanari entrega um filme extremamente poético e sensorial. Às vezes, através de planos invertidos, outras com grandes angulares em ângulos que provocavam uma certa distorção, enxergamos Vinicius deslocado do mundo real ou ilustrando a forma como ele se enxergava frequentemente: feio, deformado. A montagem com cortes rápidos, alternando entre momentos e ângulos diferentes, reforça a ideia desta confusão mental, desta overdose de sensações vividas por ele. Diversas vezes, vemos Yoñlu caminhando sozinho pela grama, no topo de um morro, com uma roupa de astronauta. Como se ele estivesse vivendo completamente sozinho em um planeta inóspito. Inclusive, a solidão de Vinicius é representada o tempo todo de maneira muito intensa. Em muitos momentos, vemos que ele está supostamente interagindo com pessoas, mas não vemos ninguém ao lado dele. Escutamos suas vozes, ele até as responde, mas não há ninguém mais na tela. Vinicius estava quase sempre sozinho. Apesar do seu psiquiatra aparecer junto com ele em algumas consultas, outras vezes vemos Yoñlu falando sozinho na sessão, mostrando a sua desconexão com o analista (ou até com a realidade) naquele momento. As únicas pessoas que vemos frequentemente ao lado dele, interagindo de verdade, são os seus amigos do fórum de potenciais suicidas. Sua maior conexão era justamente com aqueles que seriam responsáveis por dar a ele o incentivo que crucial para a sua morte. 

Este mundo virtual foi construído por um lindo trabalho de direção de arte, sendo criado um ambiente sombrio, em tons de preto e verde, tal qual a imagem daqueles antigos monitores de computador. Ali, os atores seguravam máscaras em frente ao rosto, como se fossem avatares que os mantém anônimos, livres para falar o que quiserem impunemente. Naquele ambiente que na realidade era extremamente hostil, Vinicius conseguia interagir mais com as pessoas. Era onde ele realmente tinha companhia e, provavelmente, onde se sentia menos sozinho.

A experiência poética e sensorial se intensifica principalmente a partir da construção do som do filme. Apesar de escutarmos várias das belas canções de Yoñlu, algumas ilustradas por lindas animações inspiradas em desenhos reais feitos por ele, muitas vezes o som de fundo é algo incômodo. Sons de trânsito, ou um ruído constante, muitas vezes quebrando o silêncio e outras por trás da música, dando a ideia de que mesmo aquilo que ele mais amava fazer, nem sempre era o suficiente, nem sempre era bonito, nem sempre servia para ele como o barco salva-vidas que ele tanto necessitava.   

E é fundamental ressaltar também a interpretação sensível e intensa de Thalles Cabral. Carregando o filme quase todo o tempo sozinho na tela, em alguns momentos transmite uma total desconexão com tudo que o rodeia e, em outros, dialoga com pessoas que não estão ali com muita naturalidade. A leveza com que observa os detalhes do mundo, sejam detalhes banais da paisagem urbana ou uma performance em rappel na lateral de um prédio, contrasta com o peso e a agonia que externa enquanto busca concluir seu plano de suicídio com o auxílio dos amigos do fórum virtual.  

Vinícius deixou um lindo legado com suas canções, além de uma lição importante a respeito dos riscos da depressão e dos perigos que rondam principalmente os jovens na internet. É elogiável que o filme consiga trazer estas discussões à tona de maneira responsável, proporcionando uma abertura para que as pessoas possam conversar mais claramente a respeito. Até porque, mesmo que todos já saibam com antecedência o que acontecerá no final do filme, ele ainda assim é impactante, fazendo com que a última sensação do público seja de extremo pesar, e a melhor opção para aliviar este sentimento é justamente compartilhá-lo com alguém. 

Nota do crítico:

 

Nota dos usuários:

[Total: 1    Média: 4/5]


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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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