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Sharp Objects – 1ª temporada | Crítica

Sharp Objects – 1ª temporada | Crítica

Sharp Objects – 1ª temporada | Crítica

Ano: 2018

Criador: Marc-Jean Vallée

Elenco: Amy Adams, Patricia Clarkson, Chris Messina, Eliza Scanlen, Matt Craven, Henry Czerny, Taylor John Smith, Madison Davenport, Miguel Sandoval, Will Chase, Jackson Hurst, Sophia Lillis, Lulu Wilson, Elizabeth Perkins

Depois de mostrar todo o seu potencial na direção com Big Little Lies, não é de se estranhar que a HBO ficou empolgada para trabalhar com Marc-Jean Vallé novamente — e nada mais apropriado que confiar a ele outra minissérie baseada em um livro escrito por uma autora que retrata temas pesados em sua obra. Apesar de Sharp Objects nunca atingir as notas altas dos trabalhos antecessores de seus realizadores, tanto Big Little Lies quanto Garota Exemplar (também escrito pela ótima Gillian Flynn), a nova investida da HBO ainda é uma grande trajetória a ser seguida.

A premissa é relativamente simples. Camille Preaker (Amy Adams) é uma mediana jornalista de um jornal sórdido. Quando uma possível onda de assassinatos de garotas pode estar ocorrendo em Wind Gap, sua cidade natal, o editor chefe de Camille, Frank Curry (Miguel Sandoval) a envia até lá para investigar em primeira-mão o que está acontecendo e tentar dar algum prestígio ao jornal decadente.

O que poderia ser o início de uma série policial nos moldes de True Detective ou The Night Of, segue um caminho totalmente diferente ao deixar o caso em segundo plano, às vezes, até mesmo em terceiro plano ao parecer ser totalmente esquecido em alguns momentos (o que pode desapontar os fãs do gênero policial). Logo de cara, Sharp Objects se mostra mais interessada em explorar os traumas do passado e as feridas que ainda estão abertas. Camille saiu de Wind Gap na primeira oportunidade que teve para se afastar da cidade e todos os segredos que ela esconde. Ao retornar, a protagonista deve lidar com problemas não resolvidos com a sua mãe, Adora Crellin (Patricia Clarkson) e tentar interagir com a sua jovem e rebelde meia-irmã, Amma (Eliza Scanlen).

Rude, preconceituosa e condescendente, Wind Gap é um perfeito retrato de seus moradores. É possível notar isso, por exemplo, em como a suspeita do assassino em série cai em John Keene (Taylor John Smith), irmão de uma das vítimas, apenas por ele ser muito sensível e chorar muito pelo destino da irmã mais nova — e automaticamente é considerado homossexual. Sem contar que a cidade apresenta um orgulho confederado enorme ao ter a morte da esposa de um soldado da Guerra Civil como feriado. Mas existem coisas que a cidade não se orgulha e tenta a todo custo esconder, o que envolve a família Crellin, uma das mais ricas da região.

O caminho de Camille ao reviver os traumas do passado é executado de forma exemplar. A marca do diretor Marc-Jean Vallée, que comandou todos os episódios da minissérie, de inserir frequentemente breves flashbacks ao nos deixar subjetivamente na posição da protagonista, que era um pouco desajeitada em BLL, aqui foi aprimorada e flui perfeitamente. Em determinado momento, vamos um flash do passado de Camille (vivida na adolescência por Sophia Lillis) com alguns jogadores de futebol americano, no presente, ao ser abordada por um velho conhecido, o flash retorna nos dando a resposta da identidade dele sem a necessidade de diálogo expositivo.

Ao andar pela casa, Camille vê sua falecida meia-irmã, Marian (Lulu Wilson) caminhando pelo lugar e, lentamente, a série se desdobra no relacionamento das duas e como a morte prematura da garota destruiu a relação da protagonista com a mãe. Não que esta seja digna de pena, Adora carrega ressentimentos passados e culpa Camille pela morte da filha e basicamente tudo o que dá errado na casa, aumentando a culpa dela. A jornalista também tenta estabelecer uma boa relação com Amma, que mal tiveram contato pela diferença de idade, mas a garota apresenta ser uma maça podre corrompida pela mãe e pela cidade.

E os traumas do passado nunca deixam de serem presentes na série. Todas as marcas no corpo de Camille são contextualizadas com a história (assim como títulos de todos os episódios) e refletem todos os eventos ruins de sua vida e a incapacidade dela de superá-los. Com a sua vida transtornada ao retornar para o lar e ter de lidar com tudo que tentou ignorar, ela busca um porto seguro no detetive encarregado do caso, Richard Willis (Chris Messina), com quem logo começa a desenvolver uma relação, e, surpreendentemente, com o seu editor-chefe, que adota uma posição de figura paterna para a jornalista.

É impossível falar da série sem parabenizar a Amy Adams por outra atuação fenomenal. A atriz mais uma vez consegue dar a vida a uma personagem complexa de maneira tão orgânica e vívida que nem parece que estar atuando. Cinco vezes esnobada no Oscar, é uma obrigação moral que Adams ganhe o Emmy de Melhor Atriz. Seu trabalho na série é marcante e tudo o que ela fez na composição da Camille colaborou para deixar a protagonista mais tangível e relacionável.

Com uma trilha sonora atmosférica e envolvente, Sharp Objects apresenta um ritmo lento, mas engrena na parte final e alcança a insanidade nos dois últimos episódios. Contando com duas reviravoltas absurdas, chega a ser desapontador que um livro de 250 páginas seja adaptado em uma minissérie de oito episódios, não tenha encontrado tempo para desenvolver melhor suas viradas na narrativa, optando por terminar com um estrondo. Por falar em duração, alguns eventos da série soam estendidos e muito tempo se passa sem nada necessariamente relevante acontecer.

No final das contas, Sharp Objects é outra prova incontestável do poder narrativo da HBO e do seu padrão de qualidade (quase) à prova de falhas. Gillian Flynn, que atuou como roteirista na adaptação de Garota Exemplar e aqui senta na cadeira de produtora executiva tem futuro no meio audiovisual — a autora também roteirizou As Viúvas, próximo filme de Steve McQueen. Agora, resta esperar pela próxima temporada de Big Little Lies e rezar para ela ser tão boa quanto a antecessora.

Nota do crítico:

 

Nota dos usuários:

[Total: 5    Média: 3/5]

 

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Estudante de jornalismo, tem 20 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli e de musicais, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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