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Simonal | Crítica

Simonal | Crítica

Simonal

Ano: 2018

Direção: Leonardo Domingues

Roteiro: Victor Atherino, Leonardo Domingues

Elenco: Fabrício BoliveiraÍsis ValverdeLeandro Hassum, Caco Ciocler, Mariana Lima, Silvio Guindane, Fabrício Santiago, Bruce Gomlevsky

Como o próprio filme insiste em reforçar, Wilson Simonal foi um dos maiores nomes da música brasileira. O artista, que atingiu o seu ápice entre os anos 1960 e 1970, era conhecido pelo seu jeito malandro e músicas, digamos, good vibes. No entanto, o cantor acabou se envolvendo em uma grande polêmica política e, rapidamente, se tornou uma persona non grata dentro de seu próprio país e um ser humano odiado dentro da classe artística.

Morto em 2000, depois de passar quase 30 anos no ostracismo, Simonal, de acordo com o filme que leva o seu nome, foi, possivelmente, um dos primeiros artistas a ser vítima das fake news. Na época da Ditadura Militar, o debochado cantor mandou dar uma surra em seu contador,  envolvendo policiais que atuavam no antigo DOPS. O caso logo veio a público e a carreira de Simonal entrou em um declínio meteórico.

No filme, Wilson Simonal é vivido pelo talentoso Fabrício Boliveira, que consegue dar vida ao falecido cantor de maneira competentíssima, mostrando que foi a escolha certa para o papel, exercendo o seu trabalho com uma naturalidade surpreendente. O único ponto que incomoda nessa relação Simonal/Boliveira é o fato do ator dublar o cantor, o que causa uma inevitável estranheza, pois, mesmo com uma boa sincronia, fica evidente que aquela voz não sai da boca do intérprete em cena.

E essa quebra de verossimilhança se repete quando Simonal está se apresentando no Maracanãzinho, um momento histórico em que o artista colocou 30 mil pessoas para cantarem ‘Meu Limão, Meu Limoeiro’ com ele. Nesse trecho, não é mais Boliveira quem está em cena, mas o próprio Simonal, em imagens de arquivo. Sim, seria uma linda homenagem ao artista se essas imagens ficassem para o final do longa, pois a estranheza frente à dublagem nas demais cenas prejudica a imersão na história.

Apesar desses pequenos deslizes, Simonal se mostra firme em assumir uma posição sobre o caso do cantor e tentar reaproximar ele do público, uma vez que, após a sua morte, a sua obra começou a ser revisitada e o grande artista de outrora voltou a ser pauta.

Mesmo fazendo menção ao passado difícil de Simonal, o longa já arranca com o artista buscando o seu lugar ao sol com música, acelerando de maneira aceitável para o seu estrelato. Não há uma visita à infância do protagonista, para mostrar todo o caminho enfrentado por ele para se tornar um dos maiores nomes do país em sua época — o que aumentaria a empatia por ele. Afinal, histórias de origem com superação nós já vimos diversas, não é? Queremos saber como se chegou àquele desfecho totalmente inesperado.

E o filme é coerente com o seu relato, pois Simonal era um artista negro de extremo sucesso no Brasil, brigando de frente com Roberto Carlos pela posição de maior cantor do país. Logo, um erro cometido pelo mesmo, em um momento extremamente delicado para a nação, não foi perdoado — inclusive, em uma cena bem sensível, ele questiona Elis Regina, perguntando o motivo dela ter sido absolvida pelos seus erros e ele seguir sendo perseguido.

A cinebiografia do artista reforça que, em um momento de descontrole, o cantor realmente pediu a ajuda de um amigo policial, integrante do DOPS, para dar um susto em seu contador. No entanto, logo após a extrema violência usada pelo órgão, o artista se arrependeu de suas ações. E a história termina por aí. No longa, não há qualquer menção de que Simonal tenha entregado colegas artistas, apenas negações por parte do cantor. Se essa é a verdade ou não, não é possível saber, mas é inegável que o racismo pode, sim, ter sido um dos principais fatores que não permitiram que Simonal tivesse uma chance de se explicar. E a história do nosso país ajuda a dar força para essa versão.

O elenco do filme, que é capitaneado por Boliveira, está muito bem em cena. Ísis Valverde vive Tereza, a esposa de Simonal, em um papel bem consistente e fundamental para a história. A dupla, que já havia mostrado química em Faroeste Caboclo, em Simonal, repete a dose. E com um plus. Leandro Hassum interpreta um Carlos Imperial caricato, mas condizente com a proposta do longa. Caco Ciocler, que não tem muito tempo de tela, convence com o seu policial Santana, demonstrando a insanidade necessária para ser um representante do DOPS.

O diretor Leonardo Domingues, por sua vez, sabe muito bem o que quer mostrar, valorizando os pontos da história que mais lhe interessam e entregando uma reconstituição incrível de cinco décadas atrás. Toda a alegria que Simonal exalava, certamente, foi bem representada no longa. Inclusive, o cineasta criou um primoroso plano-sequência, entregando, em cerca de dois minutos, um incrível recorte da personalidade do artista. A produção é impecável. E as músicas escolhidas por Simoninha e Max de Castro, filhos de Simonal, para integrarem o longa, são um espetáculo à parte.

Contagiante, malandro e defendendo um ponto de vista interessante (o qual torço para que seja o verdadeiro), Simonal é um filme relevante sobre um grande nome da música brasileira. Apesar de alguns deslizes, a projeção é satisfatória e coloca novamente na boca do povo as canções que embalaram o país décadas atrás. É impossível sair da sessão sem ficar cantarolando “meu limão, meu limoeiro, meu pé de jacarandá…”

* Simonal foi exibido durante o 46º Festival de Cinema de Gramado.

Nota do crítico:

 

Nota dos usuários:

[Total: 4    Média: 3.3/5]


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Jornalista e radialista, é um dos fundadores do Bode na Sala. Tem 26 anos, se orgulha de ter nascido em São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, e, atualmente, mora em Porto Alegre. Trabalhou em todas as áreas que se pode imaginar, mas acabou caindo no submundo geek. É fã do Jim Carrey, acha que o Ben Affleck é o melhor Batman do cinema, não suporta pseudo-cultismo e pretende dominar o mundo.

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