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Ana e Vitória | Crítica

Confira a opinião de André Bozzetti sobre o longa estrelado pela dupla Anavitória!

Ana e Vitória | Crítica

Ana e Vitória

Ano: 2018

Direção: Matheus Souza

Roteiro: Matheus Souza

Elenco:  Vitória Falcão, Ana CaetanoBryan Ruffo, Thati Lopes, Victor Lamoglia, Bruce Gomlevsky, Clarissa Müller, Erika Mader

O conceito de Amor Líquido de Zygmunt Bauman diz respeito à fragilidade dos laços humanos nos dias de hoje. As rápidas e imprevisíveis mudanças nos sentimentos e elos entre as pessoas, que são causa e consequência de inseguranças em seus relacionamentos, fazem com que o contato via redes sociais se torne muito mais frequente e procurado do que o contato físico. E quando esta aproximação real existe, as conexões muitas vezes terminam tão rápido quanto começaram e logo outras conexões são iniciadas. O que isso tem a ver com Ana e Vitória? Tudo.

Baseado em algumas histórias e personagens reais e algumas situações imaginadas pelo diretor e roteirista Matheus Souza, o longa apresenta o nascimento da dupla de cantoras Anavitória, formada por Ana Caetano e Vitória Falcão, após as duas jovens do Tocantins se encontrarem em uma festa no Rio de Janeiro. Depois de uma noite de idas e vindas de paixões e amores relâmpago, as duas descobrem seu talento musical em comum e combinam de gravarem algo juntas. Meses depois, descobertas pelo produtor Felipe Simas, as cantoras retornam ao Rio de Janeiro para um show e, então, acompanhamos todas as suas desventuras amorosas enquanto tentam amadurecer também profissionalmente.

Ao assistir o filme, é impossível não ficar se perguntando o tempo todo: será que isso aconteceu mesmo? Por não sabermos o que é realidade e o que é ficção, as atuações encantadoramente naturais da dupla fazem parecer que tudo aquilo aconteceu exatamente daquela maneira. Os romances, as situações constrangedoras, as conquistas. Tudo. Ana Caetano e Vitória Falcão passam uma verdade tão grande que a impressão que temos é de estar assistindo uma biografia.

A direção de Matheus Souza trata com a merecida suavidade os números musicais que são apresentados. A câmera que parece flutuar ao redor das personagens com extrema leveza e cuidado em alguns planos mais longos, e os planos detalhe em momentos mais intimistas que geram belas composições na montagem, são quase poéticos, se adequando perfeitamente às belas letras e melodias que escutamos.

A estética do filme também reforça a narrativa relacionada ao poder das redes sociais. Aquele recurso de mostrar na tela os diálogos realizados no celular, que em muitas situações pode ser considerado clichê, neste caso não poderia soar mais apropriado. Principalmente, se percebermos que o filme que já se inicia em uma festa onde as pessoas olham para seus telefones e não umas para as outras. Mais do que isso, elas mantém a interação virtual com gente que sequer está na festa, ignorando ou deixando em segundo plano quem está próximo e buscando uma interação real.

Em outro momento, em seu primeiro show, praticamente todo o público assiste as cantoras pela tela do celular, mais preocupados em registrar ou transmitir o  momento do que realmente vivenciá-lo. E o que é mais sintomático: as cantoras sequer se incomodam com isso. Natural, visto que elas pertencem a esta mesma geração. Uma geração que ama música e que não se importa como rádio. Uma geração que ganha disco de platina sem precisar vender um disco, visto que são contabilizados  agora downloads e streaming.

Os pequenos pecados da produção dizem respeito à artificialidade de alguns de seus coadjuvantes. Thati Lopes e Bruce Gomlevsky, que interpretam Isadora e Felipe Simas, respectivamente, são o completo oposto da atuação natural das cantoras e acabam destoando. O mesmo acontece com Victor Lamoglia, que interpreta um caricato Ricardo Guilherme que, pelo menos, participa de situações divertidas. Clarissa Müller, que interpreta Cecília, se sai muito melhor nos números musicais em dueto com Ana do que nas cenas que apenas atua. Inclusive, a cena em que elas cantam juntas “virtualmente” é de uma beleza e simbolismo tocante. O destaque positivo entre os personagens secundários fica com Bryan Ruffo, que acerta em cheio na composição de Bruno, amigo e confidente de Vitória desde o seu divertido encontro na sequência inicial do filme.  O timing cômico e as expressões dúbias do ator se encaixam perfeitamente nos excelentes diálogos entre ele e Vitória.

Ana e Vitória é, portanto, um delicado, poético e divertido retrato de nossa época, da modernidade líquida. Um filme que consegue traduzir toda a naturalidade de romances e sentimentos que tanta gente insiste em tratar como anormal. Daqui a uma ou duas décadas, quando assistirem este filme, terão uma bela noção de como era a realidade no ano de 2018. E, por trás disso, contando a bela história do surgimento de uma das mais talentosas e carismáticas parcerias musicais do nosso país atualmente. É daqueles filmes de sair da sala com o coração leve e, óbvio, encher a playlist do Spotify ou Deezer com aquelas músicas que conseguem aquecer a alma, principalmente nesses frios dias de inverno.

Nota do crítico:

 

Nota dos usuários:

[Total: 1    Média: 4/5]


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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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