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Desobediência | Crítica

Confira a opinião de Carlos Redel sobre o longa estrelado por Rachel Weisz e Rachel McAdams!

Desobediência | Crítica

Desobediência (Disobedience)

Ano: 2017

Direção: Sebastián Lelio

Roteiro: Sebastián LelioRebecca Lenkiewicz

Elenco: Rachel WeiszRachel McAdamsAlessandro Nivola, Allan CordunerBernice Stegers

Imagine só viver em uma sociedade em que desejar ser livre é um ato de transgressão. É difícil se colocar em uma situação assim, né? Pois bem, esse é o mote de Desobediência, novo filme de Sebastián Lelio, diretor que comandou o vencedor do Oscar Uma Mulher Fantástica e, aqui, faz a sua estreia em uma produção em língua inglesa.

Produzido e protagonizado por Rachel Weisz, o longa acompanha a história de Ronit (Weizs), a desgarrada filha de um importante rabino de uma conservadora comunidade judaica do Reino Unido. Após ir embora e viver por anos uma vida “impura” em Nova York, ela precisa voltar à sua terra natal para o enterro de seu pai.

No entanto, ao retornar para o seu antigo lar, ela reencontra os seus dois melhores amigos de infância, Dovid (Alessandro Nivola) e Esti (Rachel McAdams), que, agora, estão casados — para surpresa de Ronit. Com o passar da projeção, descobrimos que, na verdade, as duas amigas, na adolescência, tiveram uma relação amorosa — o que, obviamente, não seria bem visto dentro da comunidade em que viviam. E, agora, todo o sentimento que ficou adormecido por anos volta à tona.

A trama, aparentemente simples, na verdade, é muito maior do que essa básica descrição acima consegue mostrar. O longa transforma a história daquelas três pessoas em algo verossímil, sensível e com uma força arrebatadora. E, obviamente, muito disso se deve ao elenco escolhido — além da habilidade de Lelio para tirar o que há de melhor de seus atores.

Weisz e McAdams estão espetaculares em cena, ambas demonstrando exatamente aquilo que as suas personagens devem estar sentindo em cada momento da trama. A primeira entrega uma atuação mais contida e precisa, levando consigo a melancolia de quem está incompleta, apesar de tudo. A segunda consegue demonstrar que algo está preso dentro de si, escondido sob a metáfora da peruca obrigatória que as mulheres judias precisam usar.

Ronit, apesar de ser a protagonista, está ali para lidar com o luto e enfrentar o preconceito daquelas pessoas, mas, principalmente, para servir de gatilho para a mudança que a vida de Esti precisa — o fôlego para que o grito seja dado. E soa incrivelmente natural a relação das duas.

Para fechar o trio protagonista com chave de ouro, Alessandro Nivola surge com uma força incrível. Com um tom de voz quase sempre calmo, ele consegue fazer a sua estabilidade parecer frágil, aumentando a tensão sempre que entra em cena. Em um importantíssimo momento da trama, o seu Dovid — que era o discípulo do pai de Ronit — dá um discurso impressionante sobre a tão polêmica liberdade, tendo ali um dos pontos altos do longa.

Na cena, logo após ter o seu rosto desfigurado, ao ser filmado atrás de um vidro, Dovid fala para uma plateia conservadora, rompendo o esperado. Ali, Sebastián Leio usa a sua câmera para focar no rosto do personagem, como se ele estivesse tendo um ataque de loucura. E é exatamente o que os seus companheiros de fé devem ter pensando.

E tudo isso dentro do compasso de Lelio, que tem pleno domínio de seu trabalho. O diretor, por exemplo, filma toda a história dentro da comunidade judaica se utilizando de um clima cinza e melancólico. Em um determinado momento, quando Ronit e Esti saem daquele lugar para, por alguns instantes, se verem livres do conservadorismo. E é simbólico ver o sol dando as caras pela primeira vez. Logo, as duas se entregam uma a outra, com uma cena de sexo que consegue demonstrar o desejo das duas personagens, mas sem apelação ou objetificação.

Desobediência, que coloca um holofote de maneira espetacular sobre um tema tão delicado e importante, se mostra muito relevante para a atual realidade do mundo, em que, apesar de uma evolução natural, parece que o ser humano se recusa a abrir a mente para temas que necessitam de racionalidade. Afinal, qualquer crença que tire a liberdade de uma pessoa ou impeça o amor tem que ser revista. Ser quem se é de verdade não pode ser classificado como desobediência.

Nota do crítico:

 

Nota dos usuários:

[Total: 1    Média: 4/5]


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Jornalista e radialista, é um dos fundadores do Bode na Sala. Se orgulha de ter nascido em São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, e, atualmente, mora em Porto Alegre. Trabalhou em todas as áreas que se pode imaginar, mas acabou caindo no submundo geek. É fã do Jim Carrey, acha que o Ben Affleck é o melhor Batman do cinema, não suporta pseudo-cultismo e pretende dominar o mundo.

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