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As Boas Maneiras | Crítica

Confira a opinião de Carlos Redel sobre o longa dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra!

As Boas Maneiras | Crítica

As Boas Maneiras

Ano: 2018

Direção: Juliana Rojas, Marco Dutra

Roteiro: Juliana Rojas, Marco Dutra

Elenco: Isabél ZuaaMarjorie EstianoMiguel Lobo, Cida MoreiraAndréa Marquee

Juliana Rojas e Marco Dutra, em 2011, juntaram forças e, logo na estreia em longas-metragens, entregaram o elogiado Trabalhar Cansa, que esteve, inclusive, por Cannes. A dupla, após esse trabalho em conjunto, se se parou e, mesmo produzindo curtas juntos, só voltou a se reunir no cinema sete anos depois, com este As Boas Maneiras. Nesse meio tempo, os dois realizaram obras individuais consistentes. Ela, por exemplo, dirigiu o ótimo Sinfonia da Necrópole, em 2014. Ele, há dois anos, entregou o excelente O Silêncio do Céu.

Que os dois sabem fazer cinema, isso é inquestionável. Agora, com As Boas Maneiras, Rojas e Dutra realizam um produto interessantíssimo, que mescla gêneros e tem uma ousadia que há tempos não se via. Ao espectador que entrar na sessão sem um conhecimento prévio, o filme, certamente, surpreenderá — positiva ou negativamente (torço para que seja a primeira opção).

A trama gira em torno de Clara (Isabél Zuaa, ótima em cena), uma mulher pobre e negra que, ao se candidatar à vaga de babá do filho que está por vir da jovem abastada Ana (Marjorie Estiano, excelente), tem a sua realidade alterada de muitas formas. Após ser contratada, Clara se muda para o apartamento de Ana e, aos poucos, as duas vão criando uma relação muito próxima, uma vez que ambas procuram por amor — ou apenas ter alguém que se importe com as suas existências.

No entanto, Ana, que foi embora para São Paulo após desapontar sua rica família do interior de Goiás, esconde um segredo, mesmo sem saber disso. A moça grávida, nas noites de lua cheia, tem, digamos, desejos estranhos: uma fome incontrolável por sangue — além de olhos brilhantes e amnésia ao amanhecer, não lembrando de seu instinto animal da noite anterior. Ao se ver dentro dessa história, Clara guarda para si os problemas de sua patroa/amante e cuida da situação da maneira que pode.

E, nessa primeira metade do longa — que é bem melhor que a segunda, diga-se de passagem — temos uma série de ótimos elementos na tela. Desde a crítica sobre a prevalência do branco e rico sobre o negro pobre, até uma São Paulo fantasiosa, que se encaixa perfeitamente na história. Essa reimaginação da cidade, inclusive, ajuda a enfatizar a diferença social entre as duas personagens principais, além de criar um impecável clima gótico nas noites de lua cheia.

Outro ponto de destaque nessa primeira metade do longa é que, como a história é de duas mulheres, nenhum homem aparece. O médico de Ana até está presente em uns dois momentos, mas o seu rosto nunca é mostrado. É só a partir do nascimento de Joel (Miguel Lobo, que nome propício) que personagens masculinos entram em cena, mas com pouco destaque. E, então, entramos na segunda parte de As Boas Maneiras.

A partir daí, o longa perde um pouco de força, mas sem deixar de ser intrigante e emocionante. A história, que era uma espécie de fábula digna de Tim Burton, traz mais gêneros para a sua narrativa, inclusive explorando aventuras infantis e trazendo bons números musicais para ajudar a situar o público na história e nos sentimentos dos personagens (sim, eles acontecem durante o longa, como em Sinfonia da Necrópole). Mas, obviamente, o fio-condutor da trama é o terror.

E é nesse clima que vamos acompanhando o desenrolar das ações de Clara que, após conhecer Ana, ganhou um objetivo de vida, independentemente de suas consequências assustadoras. Ao final, apesar de ficar um pouco cansativa, a trama não decepciona. Na verdade, impressiona. Com um desfecho homenageando grandes clássicas do gênero, como Frankenstein, Rojas e Dutra mostram que foram as pessoas certas para realizar esse projeto, sem medo de colocar na tela todos os elementos que julgaram necessários para contar essa história, sejam eles absurdos ou não. Como diria o grande poeta Pepeu Gomes, “a noite vai ter lua cheia, tudo pode acontecer…”

Nota do crítico: 

 

Nota dos usuários:

[Total: 2    Média: 2.5/5]


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Jornalista e radialista, é um dos fundadores do Bode na Sala. Tem 26 anos, se orgulha de ter nascido em São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, e, atualmente, mora em Porto Alegre. Trabalhou em todas as áreas que se pode imaginar, mas acabou caindo no submundo geek. É fã do Jim Carrey, acha que o Ben Affleck é o melhor Batman do cinema, não suporta pseudo-cultismo e pretende dominar o mundo.

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