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O Mecanismo – 1ª temporada | Crítica

Confira a opinião de Diego Francisco sobre a série de José Padilha!

O Mecanismo – 1ª temporada | Crítica

O Mecanismo – 1ª temporada

Ano: 2018

Criadores: José Padilha, Elena Soares

Elenco: Selton Mello, Caroline Abras, Enrique DiazAntonio SaboiaJonathan Haagensen, Leonardo Medeiros 

A segunda série original brasileira da Netflix prometia muito. Com José Padilha como diretor e produtor executivo, mesmas funções que exerce em Narcos, um dos maiores sucessos da plataforma; o sempre excelente Selton Mello como protagonista e o simples fato de adaptar o maior escândalo de corrupção da história do país fez qualquer um ficar interessado. Não tinha como dar errado, certo? Errado.

Padilha nunca foi um diretor de segurar socos ou evitar comentários sociais, mas mesmo que O Mecanismo tenha essas e mais características de sua assinatura, algo na série simplesmente não é funcional. O escândalo da Lava Jato não é só algo recente na memória do brasileiro como também está acontecendo agora, um dos motivos para questionar a existência da produção, uma vez que ainda há muito para acontecer. Antes de todos os episódios, a série declara que não é uma visão fiel dos eventos, mas uma adaptação livre tendo como ponto de partida o livro Lava Jato – O juiz Sergio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil, de Vladmir Netto.

Todos os nomes que aparecem são trocados, até mesmo os de empresas como PetroBrasil, Miller&Brecht e revista Leia, não é preciso pensar muito para fazer as conexões. Os nomes mais ilustres envolvidos nas investigações aparecem em versões caricatas e quase satíricas. Mais de uma vez, os mocinhos da Polícia Federal afirmam que ambos os polos políticos do Brasil são igualmente corruptos e é isso o que a série diz para o espectador (e para si mesma), uma declaração menos partidária do que qualquer fala do longa Polícia Federal: A Lei é Para Todos.

Vamos para a série. Acompanhamos Marco Ruffo (Mello), quase um protagonista de filme noir (a narração onipresente é marca registrada de Padilha), obstinado e portador do transtorno de bipolaridade, ele apresenta um risco constante para si mesmo e os outros ao seu redor; Ruffo é incorruptível e faz tudo ao seu alcance para colocar todos os culpados na cadeia, esforços que acabam surtindo efeitos negativos nele. Verena Cardonni (Caroline Abras), parceira e pupila de Ruffo, herdou seu senso de justiça e também está disposta a arriscar tudo para atingir o seu objetivo. Ela é uma protagonista forte, independente e seu arco pessoal envolve idas e vindas com o namorado.

E estes são os únicos personagens da trama com desenvolvimento e multidimensionalidade, o restante é imensamente desinteressante e só serve para servir com seu propósito na trama. A doença da filha do Ruffo é só um mero artifício para o espectador simpatizar com o personagem porque, além de nunca especificada, não vai de nada a lugar nenhum; existe até uma cena com a garota passando mal sem nenhum dos pais por perto e… é difícil saber o que aconteceu a seguir, poisa série nunca se deu ao trabalho de mostrar.

Parte das investigações é competente, o processo de descoberta, colocar escutas, apreensões, burocracia, prisões, limitações dos superiores e corrupção interna são uns dos pontos altos da produção. No entanto, O Mecanismo mostra conteúdo demais em tempo de menos. Tudo acontece tão rapidamente que é difícil sentir as vitórias e as derrotas da equipe da Polícia Federal, porque todos os obstáculos são facilmente superados. Um exemplo é quando a revista Veja, uh, quero dizer, Leia vazou a existência da Operação Lava Jato e deixou os mocinhos expostos; este conflito durou cinco minutos até ser resolvido. O que nos leva ao próximo problema: é tudo muito superficial. A operação é vasta e já dura cinco anos, cada fase resulta em uma miríade de desdobramentos; os eventos como retratados na série são simples e nunca devidamente aprofundados. O máximo obtido são as divagações de Ruffo comparando a corrupção com câncer – como ele chega nesta conclusão ao se deparar com um sistema corrupto de encanadores é o único momento em que a série apresenta algo para chamar de seu.

O Mecanismo foi uma aposta ousada que infelizmente não deu certo e ainda vai desencadear inúmeras discussões. Deixando posicionamentos políticos de lado (o que é impossível para uma série tão intrinsecamente ligada ao assunto), a produção consegue até funcionar como drama policial procedural, mas existem exemplares melhores com muito mais a oferecer.

Nota do crítico:

 

Nota dos usuários:

[Total: 23    Média: 2.9/5]


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Estudante de jornalismo, tem 20 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli e de musicais, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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