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Lady Bode | “Lady Bird”, o conto sábio, engraçado e empático de Greta Gerwig

Lady Bird passeia pelos perrengues da juventude com autenticidade e delicadeza

Lady Bode | “Lady Bird”, o conto sábio, engraçado e empático de Greta Gerwig

O ano é 2002. Sacramento. California. Hand in my pocket de Alanis Morissete foi lançada em 1995, mas através da letra atemporal tocando no rádio do carro, a diretora nos indica que esse é um filme sobre amadurecimento, no sentido mais amplo da palavra. A história de uma espirituosa jovem de dezessete anos que deseja algo mais além de seu mundo está conectada com nossa capacidade de aceitar e reconhecer nossas origens para confiar e encontrar nosso espaço no mundo. Esse é o cerne do Lady Bird, de Greta Gerwig. Uma história afetadora e confortável sobre os conflitos juvenis que definem os rumos de nossas escolhas futuras.

Christine McPherson prefere ser chamada de Lady Bird. Na verdade ela exige isso. Com uma personalidade forte, Bird é a típica adolescente movida pelas emoções do momento. A grande sacada aqui é a inteligência de Saoirse Ronan no processo de composição, ao lidar com as camadas de sua personagem e entregar uma jovem cheia de nuances tão fiéis quanto é a realidade. Se por um lado é inconstante e birrenta, por outro se mostra afetuosa, grata ou preocupada com a família e amigos. A relação com a mãe (uma sublime Laurie Metcalf em cena) é feita de extremidades que oscilam entre afeto e conflito, o típico atrito causado pelo choque entre gerações. Bonito é perceber o quanto Lady Bird se parece com sua mãe, mesmo que queira renegar isso. Seja com ambas dando apoio para alguém em conflito ou quando se emocionam ao dirigir pelas ruas de Sacramento, mãe e filha são semelhança pura, cada uma em seu contexto.

Todos os clichês da adolescência estão presentes no filme, coisa difícil de escapar já que a própria adolescência é formada por esse imenso megazord de clichês juvenis. A diferença aqui está no toque e olhar de Greta para momentos banais que ganham autenticidade, seja através de um enquadramento sensível, a fotografia que complementa, uma trilha imersiva ou uma edição ora dinâmica, ora suave. Momentos de fácil identificação que nos remetem as nossas próprias primeiras vezes e situações marcantes. Das meninas populares lascivas a roqueiros niilistas que enrolam o próprio cigarro enquanto seus pais bancam a escola, até o desatino de uma primeira relação sexual frustante, o filme desenrola essas situações de maneira autêntica e sem reviravoltas.

O desejo de ir estudar em Nova York, numa época pós 11 de setembro, conduz nossa protagonista em seus anseios e vontade de crescer. Com o mesmo ritmo e leveza de Juno (2007), a personagem amadurece diante de nossos olhos, de forma gradual, sem grandes afetações. Talvez pareça que o tempo tenha sido pouco para desenhar o amadurecimento da jovem, ( Essa ideia de temporalidade toca o trabalho de edição que vou abordar mais adiante),mas penso que nossas transições acontecem por entre esses elos perdidos. Um dia, uma hora, um olhar, uma palavra, um trauma. De repente nos tornamos um outro alguém com novos sentimentos acerca da vida e das pessoas que nos rodeiam. Lady Bird carrega amor por suas raízes e se dá conta disso quando chega em sua nova morada. “Não acha que podem ser a mesma coisa? Amor e atenção?”

Mas por que uma trama aparentemente banal carrega tanto significado? Lady Bird traça a história dessa adolescente e seus conflitos através de uma perspectiva feminina. Para muitos é inconcebível acreditar na ideia de que essa perspectiva afeta o modo como enxergamos e sentimos o filme, mas as nuances existem e podem ser diferenças sutis no tratamento de câmera, ângulos, fotografia e desenvolvimento de personagens. Isso porque em vários momentos as personagens femininas, sendo retratadas exclusivamente através do olhar masculino, por muitas vezes, não nos parecem verossímeis, porque de fato, não são. Em Lady Bird, cada personagem é desenvolvido de forma tão realista, que é muito fácil que pessoas sejam capazes de se identificar com eles. É um filme brilhantemente editado para cortar grandes intervalos de tempo na vida da jovem e isso transmite todo o espectro de mudanças encontrado em um único ano (2002). Dessa forma, é possível sentir o tempo com que o tempo passa na vida de Lady Bird e como isso poderia ter configurado certas escolhas que ela faz no terceiro ato, definindo quem ela vai ser quando a história terminar.

 

Reza a lenda que Lady Bird seria a continuação conceitual de Frances Ha, protagonizado por Greta Gerwig em 2012. A lorota faz sentido, até porque Greta, Frances e Lady Bird se conectam entre si.

Nesse ínterim, ganhamos de presente um filme autêntico, saído das memórias de uma jovem cineasta em transição artística que em sua estreia já nos mostra o grande potencial que possuí para contar histórias e inspirar outras tantas mulheres a se sentirem confiantes para fazer o mesmo. Através de sua Lady Bird, Greta quer nos mostrar que muito além de construir carreira ou procurar amores, reside a importância de reconhecer nossas virtudes e origens para assim termos confiança em nós mesmos e alçar voos maiores em direção ao futuro.

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Elaine Timm

Aspirante a gente, Elaine é gaúcha, formada em Jornalismo, atua como social media e curte freelas. Blogueira de várzea, arrisca escritas diversas. Cinéfila, musical e nerd desde criança, quer ser Jedi, mas ainda é Padawan. Save Ferris.

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