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Altered Carbon – 1ª temporada | Crítica

Confira a opinião de João Vitor Hudson sobre a mais nova grande aposta da Netflix

Altered Carbon – 1ª temporada | Crítica

Altered Carbon – 1ª temporada

Ano: 2018

Criador: Laeta Kalogridis

Elenco: Joel KinnamanJames PurefoyMartha HigaredaChris ConnerDichen LachmanRenée Elise GoldsberryKristin LehmanAto EssandohHayley LawWill Yun Lee

O cyberpunk nunca esteve tão em alta em Hollywood. Só em 2017, podemos citar duas grandes obras deste subgênero da ficção científica: Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell, adaptação ocidental do mangá/anime dos anos 1990, e Blade Runner 2049, a continuação do clássico de 1982 que Denis Villeneuve trouxe ao mundo com maestria. O ano de 2018 já começou com uma grande aposta da Netflix: trata-se de Altered Carbon, série baseada nos livros de Richard K. Morgan, que tem um visual surpreendente e uma trama cheia de altos e baixos.

No universo de Altered Carbon, a morte não é mais uma certeza. Ela é perfeitamente possível, mas todas as pessoas do planeta têm um dispositivo em sua nuca capaz de armazenar sua “alma”, o que torna possível a transferência de um corpo para o outro. Se uma das características do cyberpunk é mostrar a desesperança e a desigualdade, aqui ela é elevada à décima potência. Com não-morte quase eminente, os ricos ficam cada vez mais ricos, pois se tornam os chamados Matusas (em referência ao personagem bíblico Matusalém, o homem mais velho do mundo, que viveu 969 anos), pessoas centenárias que só fazem aumentar suas riquezas, influência e status com a transferência de uma capa para outra.

Um dos motes centrais da série é resolução do assassinato de um destes Matusas, Laurens Bancroft (James Purefoy). Logo no primeiro episódio, vemos o renascer do Emissário Takeshi Kovacs (Joel Kinnaman/Will Yun Lee), que acabou de passar por uma prisão de 250 anos. Ele voltou à vida não por opção, mas porque Bancroft o escolheu a dedo para resolver este caso que tem mais camadas do que suspeitos.

A princípio, tudo isto soa complexo demais ao espectador médio acostumado com uma mera maratona no fim de semana. E realmente é. Os primeiros episódios são chatos e densos o bastante para afastar quem não tiver paciência para entender aquela mitologia rica. Mas à medida que o caso avança, percebemos que existe uma obscuridade envolvida ali, que traz à tona o possível de suicídio de uma garota de programa, o assassinato de um importante policial e alterações não-autorizadas no código genético de pessoas que seguem o neocatolicismo (uma das religiões mais influentes neste mundo de Altered Carbon). Acabei complicando ainda mais, no entanto, de alguma maneira, isto soa fluído na série.

Se a série ganha força com os episódios do meio, ela retorna à chatice dos primeiros. Mas o caso aqui é diferente. Aquela densidade de outrora é tomada por um roteiro cheio de cenas bregas que destoam completamente do que a série pede. Existe uma causa militante que busca trazer a essência humana de volta, cujos membros tem como objetivo acabar com o esquema da falsa morte e fazer a população aceitar a morte real. Soa interessante, mas as cenas mais irritantes consistem neste plot. A partir daqui, a série ganha atuações e diálogos dignos de uma série da CW, e nos episódios finais, é como se o público estivesse assistindo à Arrow, com uma equipe que ajuda o “herói” principal. Tá tudo ali: o sidekick, o hacker, a pessoa que não queria entrar no time mas caiu de paraquedas… Fora algumas frases motivacionais capazes de deixar o adolescente que há em você com vontade de postar isso no seu Tumblr. O que havia de punk na série se perde totalmente em uma tremenda pieguice.

Apesar do roteiro inconsistente, ainda há alguns elogios a serem feitos. A direção de arte caprichou em Altered Carbon. É possível que esta seja a série com o melhor visual que a Netflix já produziu. Os painéis de neon, as ruas sujas e movimentadas, tudo que se espera de um cyberpunk está ali. É um visual de ficção científica de dar inveja à diversas produções cinematográficas.

Parte do elenco principal também está muito bem. Joel Kinnaman faz bem o papel do detetive carrancudo retirado de um filme noir. James Purefoy é excelente como o ricaço que quer manter a todo custo a sua influência, mas que mantém uma podridão escondida. Martha Higareda é Kristin Ortega, uma policial que se alia à Kovacs sem esta intenção, e a atriz também cumpre bem o seu papel. A maior surpresa do elenco talvez seja Chris Conner como Poe, uma inteligência artificial que hospeda Kovacs em seu hotel. Ele é Edgar Allan Poe renascido, até mesmo o ar melancólico dos textos do autor está ali. É uma delícia de se assistir!

A maior aposta até agora de 2018 da Netflix é uma série que promete demais, chega a cumprir, mas deixa toda a construção da riquíssima mitologia desmoronar graças às intenções de atingir uma diversidade de públicos. Acredito que Altered Carbon teria obtido um saldo muito mais positivo se a criadora Laeta Kalogridis estivesse focada no lado mais ficção científica da história, sem esquecer do lado investigativo, ao invés de buscar um frenesi visual a todo instante. Com um final que não deixa pontas soltas, mas com outros dois livros compondo a obra original, fica meio difícil saber o que será daqui pra frente com Altered Carbon. Caso a série seja renovada, espero que tenham absoluta certeza do que irão fazer.

Nota do crítico:

Nota do público:

[Total: 3    Média: 2.7/5]


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João Vitor Hudson

João Vitor Hudson é um editor de vídeos que está se formando em Publicidade & Propaganda aos 21. Ama cinema desde quando desejava as férias escolares só pra assistir todos os filmes do Cinema em Casa e da Sessão da Tarde. Ainda não possui o hábito de ver filmes de terror e é um pouco leigo quando se trata de cinema nacional, mas é um carinha boa praça que não dispensa ver um filme. Fã confesso do Nolan, Aronofsky e da Pixar.

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