Bode na Sala
Críticas Filmes

A Forma da Água | Crítica

Confira a opinião de André Bozzetti sobre o líder de indicações ao Oscar 2018!

A Forma da Água | Crítica

A Forma da Água (The Shape of Water)

Ano: 2017

Direção: Guillermo del Toro

Roteiro: Guillermo del ToroVanessa Taylor

Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Octavia Spencer, Michael Stuhlbarg, Doug Jones

Foi impossível escapar da expectativa acerca de A Forma da Água. As 13 indicações ao Oscar e as incontáveis postagens entusiasmadas nas redes sociais, por parte de pessoas que baixaram o filme da internet muito antes de seu lançamento nos cinemas nacionais, fizeram com que o filme ganhasse ares de obra-prima. Consequentemente, criei uma involuntária exigência sobre o que iria assistir, e isso não foi bom nem para o filme e nem para mim.

O belíssimo início do filme, em um encantador ambiente aquático e onírico, dá o tom de conto de fadas que acompanharemos durante toda a projeção. Além disso, a voz do narrador reforça este ar de fantasia, que apresenta uma bela dose de romance e erotismo, e personagens pelos quais criamos empatia rapidamente. O que demorou mais, portanto, foi me desprender de toda a carga de expectativa e poder curtir a beleza do filme pelo que ele é realmente e não por tudo aquilo que li e ouvi anteriormente, principalmente porque, excetuando-se a sequência de abertura, o primeiro ato é sem dúvida o ponto mais fraco (ou menos forte) do filme. Isso porque, apesar de uma bela apresentação de seus personagens, algumas explicações estendem-se um pouco além do necessário e, às vezes, paradoxalmente mostram menos do que poderiam, como acontece na transição para o segundo ato do filme.

A Forma da Água se passa em uma instalação de pesquisa do governo estadunidense nos anos de 1960, durante a Guerra Fria, na qual é aprisionada uma criatura anfíbia que foi capturada em uma floresta da América do Sul. Nesta instalação, a solitária Elisa (Sally Hawkins) trabalha como faxineira e, ao se deparar com a criatura, estabelece rapidamente uma ligação com ela. Ao descobrir que o impiedoso Strickland (Michael Shannon), responsável pela segurança, pretende matar a criatura para fazer experiências, Elisa decide fazer o que for necessário para salvá-la.

Pois entre todos os merecidos elogios ao filme, é preciso citar que justamente naquilo que move toda a trama, foi onde senti falta de algo que reforçasse o sentido de tudo. Me refiro ao envolvimento de Elisa com a criatura. Já no primeiro contato entre os dois, pareceu não haver nenhuma surpresa ou hesitação. Era como se Elisa soubesse exatamente o que esperar daquele ser que, apesar de uma aparência humanoide, também possuía características que poderíamos considerar ameaçadoras. E o relacionamento evoluiu rapidamente, sem muita explicação. Essa foi a impressão inicial ao assistir ao filme. Posteriormente, interpretei de outra maneira. Em dois ou três momentos do longa, algumas imagens e diálogos podem ter sugerido uma explicação diferente para isso. Mesmo assim, creio que dentro do formato que foi apresentado, cabia uma construção um pouco mais completa. Já que os 123 min de projeção passam tão rapidamente, não faria mal nenhum colocar uns 7 a 10 minutos a mais reforçando essa parte da história. Isso estraga o filme? Não. Mas fica a sensação de algo incompleto.

De resto, a obra realmente cumpre com o que se esperava. Se falou muito sobre um possível plágio de um curta holandês, ou de uma peça escrita no final da década de 1960. Mas, sem levar em consideração se algo foi cópia, inspiração, referência ou uma simples coincidência visto que o roteiro não é nenhuma invenção da roda, o que vemos na tela funciona e encanta. Del Toro nos traz um grupo de personagens que representa minorias, ou pessoas marginalizadas, que através dessa sua não adequação à sociedade da época talvez fortaleçam sua empatia com a criatura que, como diz Strickland, não foi feita “à imagem de Deus”. Elisa é muda, sua melhor amiga Zelda Fuller (Octavia Spencer) é negra, seu vizinho e confidente Giles (Richard Jenkins) é homossexual, e todos eles passam por situações de preconceito e humilhação em função destas características. Vale salientar que, como vemos com frequência hoje em dia, todas as situações de machismo, preconceito e violência são realizadas sob o manto de um comportamento dito “cristão”.

Entre os pontos altos do filme, é necessário ressaltar a impecável direção de arte. A recriação dos figurinos, locações e veículos da década de 1960 está fantástica. Algo que chama atenção também desde o início do filme é a cor verde presente em tudo: roupas, objetos, ambientes e, obviamente, a pele da criatura. Em função das diversas tonalidades nas quais aparece, dá para viajar nos significados e ao que elas remetem. Às vezes, o verde dá um tom da água que nunca é cristalina, mas sim um constante aspecto mais pantanoso. Remete à natureza, mas também, eventualmente, a algo mais venenoso, sinistro. Dessa maneira, a mudança que ocorre na cor utilizada pela protagonista em um momento específico, acaba reforçando a mensagem que ela demonstra com suas expressões e linguagem corporal.

Inclusive, é importante ressaltar a atuação fantástica de Sally Hawkins. Ela conseguiu acertar o tom exato para que Elisa fosse uma mulher ao mesmo tempo doce e determinada, que apesar do medo, não hesitou em se arriscar para salvar a criatura. E justamente esse equilíbrio é fundamental para que o filme funcione. Ela torna fácil que o público se identifique com a personagem e torça por ela. Octavia Spencer está ótima como a amiga e confidente, que serve eventualmente como alívio cômico, mas também mostra força em momentos de tensão. E Michael Shannon, para variar, está assustador como o vilão Richard Strickland. Ali não tem erro. Ele é sempre assustador, mesmo quando deveria ser um dos “mocinhos”.  Inclusive Doug Jones merece elogios pois, apesar de estar sob toda aquela fantasia e maquiagem da criatura anfíbia, conseguiu transparecer comportamentos selvagens, carinhosos, violentos e de imponência, sempre de forma muito convincente, e fortalecendo a nossa ligação com a criatura.

A Forma da Água é, além de um conto de fadas, uma bela homenagem à sétima arte. Com a protagonista morando sobre um antigo e pouco frequentado cinema, a TV do vizinho e amigo Giles sempre ligada exibindo algum filme, a história e o visual da criatura remetendo ao clássico O Monstro da Lagoa Negra e as fantasias de Elisa em ser uma estrela de filmes musicais, a todo momento somos levados a entrar naquele universo da era de ouro de Hollywood. É inegável que passear pela história do cinema é sempre um programa maravilhoso, e o crescimento do filme no terceiro ato ajuda para que saiamos da sessão emocionados com o que acabamos de assistir.

Nota do crítico:

 

Nota dos usuários:

[Total: 3    Média: 2.7/5]

The following two tabs change content below.

André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

Latest posts by André Bozzetti (see all)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close