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Lady Bode | As maravilhas de Alice e o descobrimento do cinema

Ela foi a primeira pessoa que fez ficção no cinema. Ela foi a inventora do videoclipe. Ela foi diretora do primeiro filme estrelado por negros. E foi relegada por ser uma mulher. Esta foi Alice Guy.

Lady Bode | As maravilhas de Alice e o descobrimento do cinema

Era 22 de março de 1895, quando uma jovem secretária de 21 anos, foi até o Salão Indiano do Grand Café em Paris, para ver aquilo que seria o primeiro filme projetado em uma tela. Foi Louis e Auguste Lumière que apresentaram para aqueles 20 espectadores a projeção “A Saída da Fábrica Lumière em Lyon. Cerca de cinquenta segundos que se resumiam em trabalhadores saindo pelo portão da fábrica, porém foi o suficiente para fazer brilhar os olhos daquela jovem que se tornaria a pioneira e percursora do cinema. Seu nome era Alice Guy.

Alice já trabalhava como secretária na Gaumont Film Company desde os 19 anos e foi ali que aprendeu com clientes e funcionários a arte do negócio, conheceu Georges Demenÿ e os Irmãos Lumière. Foi seu chefe Gaumont que a convidou para assistir à projeção surpresa dos Lumière naquele dia. Mas o que parecia ser apenas um experimento científico para Gaumont, Thomas Edison e os Lumière, se tornou uma grande ideia na mente visionária de Alice que percebeu que poderia incorporar elementos ficcionais naqueles filmes. Foi assim que,“Reunindo minha coragem”, – escreveu ela em seu livro de memórias com uma típica mistura de modéstia e coragem – “eu timidamente propus a Gaumont que eu poderia escrever uma ou duas pequenas cenas e que tinha alguns amigos que poderiam encenar.” O chefe aceitou, mas sem acreditar que aquilo renderia alguma coisa de útil. Bem, o Senhor Gaumont estava ligeiramente enganado, pois dentro de alguns anos Guy se tornou chefe de produção do estúdio e provavelmente a única mulher diretora de cinema neste período.

O primeiro filme de Alice, e também a primeira produção no mundo com uma narrativa cinematográfica, chama-se “La Fée aux choux”  (A Fada do Repolho) de 1896. Este não se tratava de uma cena documental como as que os Lumière andavam fazendo. Era uma fantasia com 50 segundos de duração em que uma sorridente senhora se exibia para a câmera em meio a uma plantação de repolhos dos quais ela tirava bebês nus e os colocava no chão. Bem, você pode dizer que uma mulher tirando bebês de repolhos não é lá uma super produção, mas pense pelo aspecto criativo. Enquanto os Irmãos Lumière filmaram pessoas saindo por um portão, Alice escreveu, produziu e dirigiu uma fábula sobre a fada dos repolhos! Após isso, ela criou algo com um trabalho de câmera mais sofisticado chamado “La Sage-femme de première classe” (Parteira de Primeira Classe), ainda na área dos repolhos, mas dessa vez mostrava um casal – Alice interpretava o marido – que iam visitar uma plantação de repolhos para escolher um bebê e pagavam um valor em moedas à “parteira”. O filme foi bastante elogiado por sua originalidade em meio a outros trabalhos que viviam de imitações.

A imaginação poderosa de Guy a fez recriar fantasias com a convicção de que seriam apreciadas pelo mundo todo. Ela cruzou a Espanha, filmando dançarinos de flamenco e cenas cotidianas, com a esperança de que Gaumont tivesse interesse em investir cinema naquele país. Assim nasceu a aliança colossal entre o cinema como arte e cinema como indústria comercial. E com essa mentalidade, só havia um lugar para Alice GuyEstados Unidos.

Por volta de 1907, Alice se casa com Herbert Blaché, nomeado gerente de produção da Gaumont nos Estados Unidos. Em 1910, junto ao marido e em parceria com George A. Maggie, lançam o Estúdio Solax, o maior estúdio pré-Hollywood da América. Enquanto Herbert trabalhava como gerente, produtor e cineasta, Alice era a diretora artística. Entre as experiências técnicas que realizou durante sua carreira estão os primeiros filmes coloridos e com sonorização, fato que resultou em uma série de vídeos capturando performances de cantores populares da época, tocando suas músicas na reprodução, ou seja, Alice Guy foi, indiretamente, a inventora do videoclipe.

A produtividade incessante (rodou mais de 1.000 filmes em 24 anos ) e seu ritmo criativo, permitiram que ela pudesse alternar entre diferentes gêneros, como fantasias, histórias de guerra, romances e dramas sociais. Em “Fazendo um cidadão americano a história era sobre uma mulher que decidiu resistir aos abusos do marido. Até em adaptações literárias a pioneira trabalhou, com “La Esmeralda, de 1905, que foi a primeira versão cinematográfica de “O Corcunda de Notre Dame”.

Um dos marcos de sua carreira foi a comédia “Um Tolo e Seu Dinheiro. Este foi o primeiro filme inteiramente protagonizado por atores negros e estreou em um momento em que os atores brancos pintavam seus rostos para interpretar homens negros. A ideia absurda era normal na época até Guy decidir pelo mais sensato, escalando atores negros para seu filme e tornando o trabalho importante e significativo.

Graças ao seu ritmo de trabalho incansável, Solax se tornou o maior estúdio de cinema dos Estados Unidos durante vários anos, mas as coisas não iam muito bem entre Alice e o marido. Herbert Blaché competia com a sua própria mulher para alcançar méritos as custas dela, fato que era a causa dos atritos constantes entre o casal. Então, quando a indústria cinematográfica se mudou de Nova York para Hollywood, Herbert resolveu fugir com uma jovem atriz e nunca mais deu as caras. Imagine que os dois foram o primeiro casal poderoso do cinema, e quando tudo acabou repentinamente, Alice se sentiu envergonhada, vendeu a Solax em 1922 e voltou para a França. Não fez mais nenhum filme.

Anos mais tarde, ao descobrir que todos os seus filmes não estavam mais creditados com seu nome, mas sim com o nome da empresa que os financiou, Alice retornou aos Estados Unidos para tentar reivindicar a autoria de sua obra, porém sem sucesso. Ela passou o resto da vida preocupada com o legado que deixou para trás e seu lugar na posteridade. Muitas vezes, ela entrou em contato com críticos, historiadores e biógrafos para que corrigissem os diversos dados imprecisos. Fez tudo que podia para coletar dados, simplesmente usando sua memória, pois era só o que lhe restava. Nenhum pioneiro do cinema trabalhou como ela (24 anos na ativa), e ninguém antes dela foi um prodígio em escrever e filmar histórias. George Mèliés se inspirou nela, mas mesmo assim é sempre o mais lembrado. Alice estava entre os 20 espectadores naquela projeção dos Lumière, fervilhando de ideias e visões, mas mesmo assim eles são sempre os mais lembrados.

O último contato de Alice com a indústria foi em 1957 quando a Cinemateca francesa lhe concedeu um tributo. Nenhum jornalista foi para cobrir o evento. A cineasta morreu em um asilo, esquecida, em 1968, aos 94 anos. Em 2012, a Solax comemorou o seu centenário, restaurou a sepultura inserindo o logotipo da empresa e incluiu uma descrição sobre a importância de Alice Guy na história do cinema. Um reconhecimento tardio, insuficiente e discreto em comparação com a relevância artística, técnica e comercial de Alice Guy.

Não podemos mudar esse exílio histórico que foi condenado por décadas, mas podemos fazer justiça por ela, conhecendo sua história, passando a diante seu legado, exaltando seu nome. E pensar que tudo começou com um chefe que subestimou seu talento e alguns repolhos mágicos.

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Elaine Timm

Aspirante a gente, Elaine é gaúcha, formada em Jornalismo, atua como social media e curte freelas. Blogueira de várzea, arrisca escritas diversas. Cinéfila, musical e nerd desde criança, quer ser Jedi, mas ainda é Padawan. Save Ferris.

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