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The Post: A Guerra Secreta | Crítica

Confira a opinião de Carlos Redel sobre o novo filme de Steven Spielberg!

The Post: A Guerra Secreta | Crítica

The Post: A Guerra Secreta (The Post)

Ano: 2017

Direção: Steven Spielberg

Roteiro: Liz HannahJosh Singer

Elenco: Meryl StreepTom Hanks, Bob OdenkirkBruce Greenwood, Sarah PaulsonAlison BrieMatthew RhysJesse PlemonsDavid Cross

“Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade”. Essa brilhante frase, normalmente atribuída a George Orwell, mas que, na verdade, foi dita por William Randolph Hearst, sintetiza muitíssimo bem a mensagem de The Post: A Guerra Secreta, novo filme de Steven Spielberg.

A trama do longa se baseia na história real dos Pentagon Papers, que foram publicados corajosamente pelo jornal The Washington Post, nos anos 1970. Esses documentos comprovavam que o objetivo da participação dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã era manipulado para manter o governo bem perante a opinião pública. E isso foi acobertado por quatro ex-presidentes estadunidenses, antes de vir à tona na Era Nixon.

Os papéis do Pentágono foram encomendados pelo próprio Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert McNamara (Bruce Greenwood), e vazados por um ex-funcionário do Departamento de Defesa, Daniel Ellsberg (Matthew Rhys). As primeiras publicações sobre os dados contidos nos documentos foram feitas pelo The New York Times, que logo foi proibido de continuar revelando as informações, após o então presidente Richard Nixon entrar na justiça contra o diário.

Assim, sobrou para o The Washington Post, sob a batuta do seu editor-chefe, Ben Bradlee (Tom Hanks), seguir com a série de matérias contra o governo. O jornal, que na época pertencia à Katharine Graham (Meryl Streep), lutava para aumentar o seu alcance, uma vez que era uma publicação restrita à sua região. Mas, ao mesmo tempo, tinha acabado de abrir o seu capital na Bolsa de Valores e a publicação de pesadas denúncias contra o governo poderia afastar investidores, colocando o periódico em risco, além de haver a possibilidade de seus responsáveis irem parar atrás das grades.

Essa história, que já era cinematográfica o bastante, foi transformada em roteiro pela ainda iniciante Liz Hannah e refinada por Josh Singer, que levou o Oscar por nada menos que Spotlight: Segredos Revelados. Spielberg conseguiu criar um filme que serve para reforçar o importante papel da imprensa, seja no passado, no presente ou no futuro.

O longa estreia em um oportuno momento, visando denunciar a falta de liberdade de imprensa e de transparência, uma vez que o governo de Donald Trump, assim como fez Nixon, está em guerra contra muitos veículos, acusando-os de publicarem inverdades sobre o seu mandato, banindo-os, diversas vezes, de cobrir a Casa Branca. O próprio The Washington Post chegou a ser proibido de fazer o seu trabalho pelo atual presidente dos Estados Unidos.

The Post: A Guerra Secreta tem como um de seus principais trunfos, além da habilidade de contar histórias de Spielberg, um elenco afiadíssimo. Tom Hanks está em um dos seus grandes momentos da década que, apesar de contar com grandes performances, como em Capitão Phillips e Ponte dos Espiões, teve aberrações como Inferno e O Círculo.

Já Meryl Streep, que vinha sendo questionada por ter qualquer interpretação indicada ao Oscar, aqui mostra que seu talento nunca deve ser colocado em dúvida. A atriz está brilhante na pele de Kay Graham, demonstrando, apesar de uma enorme força, toda a insegurança da sua personagem, que caiu de paraquedas na administração do jornal. Quando Kay e Ben estão em cena, os diálogos são excelentes e a naturalidade de ambos surpreende, mostrando que Hanks e Streep, dois monstros do cinema, não estão ali apenas para pegar o cheque.

O elenco de apoio também está ótimo, com destaque para Bob Odenkirk, que dá vida ao repórter Ben Bagdikian, um dos principais responsáveis pelos Pentagon Papers irem parar nas páginas do The Washington Post. O seu personagem protagoniza alguns dos melhores momentos do filme, com ligações escondidas e encontros secretos, mostrando o lado romântico e investigativo do jornalismo, que cada vez mais está se perdendo, infelizmente.

Apesar de ter a sua primeira hora mais burocrática e que, em alguns momentos, pode parecer tediosa, The Post: A Guerra Secreta engrena na metade do segundo ato, mostrando que todo o início mais lento é justificável e, além disso, necessário para dar ainda mais força para o seu ótimo desfecho. Spielberg tem total domínio do que quer contar, fazendo com que a sua câmera nos carregue para dentro da história.

As cenas em que Nixon, revoltado, descarrega sua ira no telefone da Casa Branca, filmadas de longe, como se estivéssemos espionando o governante, são excelentes, pois, pouco tempo depois de divulgar os papéis do Pentágono, a redação do The Washington Post foi responsável por colocar a pedra final na Era Nixon, ao divulgar os abusos do presidente, no caso que ficou conhecido como Watergate. E, como Spielberg não dá ponto sem nó, a sequência final de The Post: A Guerra Secreta é uma ponte incrível para Todos os Homens do Presidente, clássico que conta essa história.

No final de The Post: A Guerra Secreta, saímos da sessão com a esperança recarregada sobre o futuro da imprensa, mesmo que atualmente ela esteja agonizando, em uma devastadora transição, que não demonstra sinais de se estabilizar. Apesar do inconstante mercado e de valores invertidos em muitos veículos de comunicação, Spielberg deixa bem claro em seu filme: “O jornalismo é para os governados, não para os governantes”. Que assim seja!

Nota do crítico:

Nota dos usuários:

[Total: 2    Média: 5/5]


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Jornalista e radialista, é um dos fundadores do Bode na Sala. Tem 26 anos, se orgulha de ter nascido em São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, e, atualmente, mora em Porto Alegre. Trabalhou em todas as áreas que se pode imaginar, mas acabou caindo no submundo geek. É fã do Jim Carrey, acha que o Ben Affleck é o melhor Batman do cinema, não suporta pseudo-cultismo e pretende dominar o mundo.

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