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Especial | Os 10 anos de Breaking Bad

Uma das séries mais aclamadas de todos os tempos completa 10 anos

Especial | Os 10 anos de Breaking Bad

Passaram-se dez anos desde que um par de calças voava pelo deserto e um motorhome cheio de metanfetamina fugia à toda velocidade; um dia que mudaria para sempre a história televisiva. O homem que dirigia era Walter Hartwell White (Bryan Cranston), professor de química que se tornaria um dos vilões mais icônicos das séries de TV, acompanhado do seu fiel e problemático parceiro, Jesse Pinkman (Aaron Paul), ao longo de 62 excelentes episódios.

Um fenômeno de aprovação do público e da crítica, Breaking Bad está listada no Guiness Record Book como melhor série da história, mas este sucesso não veio desde o início. Apesar das consecutivas nomeações ao Emmy de Melhor Série e vitórias consecutivas de Bryan Cranston como Melhor Ator, as primeiras temporadas apresentavam pouco mais de um milhão de espectadores por episódio em solo americano; só na quarta temporada a série foi ganhando atenção do público e a audiências foi crescendo exponencialmente na última temporada até registrar impressionantes 10 milhões de espectadores no series finale.

Com o seu humor negro, excentricidades, atuações excepcionais, enredo envolvente, perfeição técnica e atenção cirúrgica aos detalhes, Breaking Bad juntou milhões de fãs ao redor do globo e até hoje é considerada parâmetro de qualidade. Não é raro ver que tal serie estreante é considerada a nova Breaking Bad, mas a verdade é que vai demorar anos para aparecer uma série que se compare a esta obra-prima.

 

Inversamente proporcional: as jornadas de Walter e Jesse

Walter White era um professor de química ressentido pelo fato de que a empresa que co-fundou vale bilhões e por ter saído quando ela aparentemente não tinha futuro, ganhando apenas alguns milhares de dólares; Walter acabou de ser diagnosticado com câncer de pulmão, correndo o risco de deixar a esposa, Skyler (Anna Gunn), seu filho mais velho, Walter Jr. (RJ Mitte) e uma bebê que está por vir sem nenhum tipo de amparo financeiro. Jesse Pinkman era um jovem traficante que reprovou na escola e não apresentava nenhum prospecto de vida. No início, é normal julgar quem é o bom e quem é o mau da história, afinal, um entrou para o tráfico de drogas por necessidade e outro por puro comodismo, mas nada em Breaking Bad é assim tão simples.

Com o passar das temporadas, Walter vai perdendo a sua humanidade; conforme ele vai ganhando mais espaço na distribuição de metanfetamina, maiores são os conflitos que enfrenta e mais violentas ficam as resoluções, ele dificilmente hesita ao ter que recorrer a assassinato ou envenenamento de criança. Desenvolvimento contrário ao visto no Jesse, que cada vez vai se desprendendo mais da vida do tráfico e passa a querer as soluções mais pacíficas ou abandonar tudo de vez. Jesse também é humanizado pela sua afeição a crianças, fazendo-o tomar decisões chave quando alguma coisa ruim acontece com elas.

A relação de Walter e Jesse é extremamente disfuncional, cheia de altos e baixos. Juntos na produção de metanfetamina, os dois são de talento inegável e chegam a desenvolver certa sintonia quando cozinham juntos, mas fora disso estão constantemente discutindo ou partindo para confrontos físicos. Desentendimentos que nunca fizeram Walt deixar de se importar com Jesse, não importa a confusão que ele se metia ou o risco que ele representava, Walter sempre colocou tudo em jogo para garantir a segurança de seu parceiro. Por vezes, a relação dos dois refletia uma dinâmica de pai e filho, chegando até o ponto do Walter chamar o Walt Jr. de Jesse acidentalmente.

 

Galeria de personagens marcantes

Skyler White (Anna Gunn)

A esposa de Walter White é, senão a mais, uma das personagens mais odiadas da série, mas o fato é que Skyler é de uma complexidade absurda. De mãe de família à cúmplice de Walter na carreira criminosa, Skyler funciona como o Grilo Falante de seu marido, sempre pondo a mão na consciência do químico. Como se não bastasse, tem uma das frases mais marcantes do show: “I fucked Ted”.

Hank Schrader (Dean Norris)

O agente do DEA e cunhado de Walter começou como um alívio cômico, mas seu crescimento na trama se tornou evidente a partir da 2ª temporada. O personagem passou por tudo: viu uma cabeça morta em uma tartaruga-bomba, fez parte de um tiroteio (cujo alvo era Heisenberg), e ainda descobriu que Walter era o outro WW favorito em uma simples ida ao banheiro. Um dos personagens mais inteligentes, ainda mais considerando que tudo estava tão na cara e ele simplesmente não percebeu.

Saul Goodman (Bob Odenkirk)

O advogado trambiqueiro que cuida das papeladas de Walter e Skyler. Saul Goodman é mais um dos muitos personagens complexos que Vince Gilligan criou, e narrativamente essencial. De seu momento de glória, vemos Saul ruir juntamente com Gus e Walter, já que não passava pela sua cabeça que estaria envolvido em um dos maiores impérios da droga que os EUA já viu. E já sabe: se estiver em problemas, melhor ligar para o Saul!

Gus Fring (Giancarlo Esposito)

O implacável e estratégico distribuidor de drogas é como o Walter White que deu certo: é um senhor de meia-idade, discreto, aparentemente inofensivo, mas que carrega uma maldade escondida juntamente de um trágico passado. Gus tem uma rede de fast food, Los Pollos Hermanos, que é nada mais que uma fachada para o tráfico. Sua apresentação na série mostra como o personagem é calculista, pois não quer que ninguém saiba de seu negócio obscuro. Segundo Esposito, Gus é o mau caráter mais legal que já andou na Terra, e isso é perceptível até mesmo no fim do personagem.

Mike Ehrmantraut (Jonathan Banks)

Mike está envolvido até o pescoço neste submundo do crime; além de ser um investigador particular de Saul, é também o faxineiro de Gus. Seu objetivo é juntar dinheiro suficiente para garantir um bom futuro à sua neta, mas Mike leva alguns acontecimentos muito para o lado pessoal. O ex-policial é um homem bastante pragmático em seu trabalho, e sabe trabalhar com qualquer tipo de ferramenta. Um dos personagens favoritos dos fãs!

Lydia Rodarte-Quayle (Laura Fraser)

Lydia é uma antiga associada de Gus Fring cujo caminho se cruza com o de Walter e Jesse. Após a queda de Gus, ela passa a fornecer metilamina para a dupla de cozinheiros, e começa a expandir o tráfico de metanfetamina. Apesar de pouca profundidade, Lydia é essencial para a narrativa, uma mulher bastante poderosa, o tipo de pessoa que você precisa quando quer fazer muito dinheiro com drogas.

Todd Alquist (Jesse Plemons)

O neonazista entra na trama para se associar a Walt e Jesse, e cresce tão rápido a ponto de ser o responsável pela queda de Heisenberg. É um dos “vilões” (e quem não é?) mais detestáveis da série, junto com seu tio Jack. Todd é responsável por boa parte da desgraça dos protagonistas, incluindo Jesse, que viu o homem matar uma criança inocente só para não deixar testemunhas no roubo de uma carga de metilamina.

Tuco Salamanca (Raymond Cruz)

O traficante mexicano sociopata é o primeiro dos antagonistas de Walter. O químico entra em contato com Tuco para que este distribua sua droga, mas suas alterações de humor constantes colocam um alerta em Walter, que cria um plano para matá-lo sem deixar rastros. Como toda desgraça é pouca, o plano dá errado, e Tuco coloca um alvo em Walter e Jesse.

Hector Salamanca (Mark Margolis)

O tio de Tuco não é só um velho doente numa cadeira de rodas. Hector é muito mais que isso. Ex-chefe do tráfico de metanfetamina, o líder Salamanca é um dos responsáveis por colocar Gus neste universo criminoso, e em cenas de flashbacks (e na série derivada Better Call Saul), vemos que Hector é outro homem implacável neste mundo. O sino de sua cadeira de rodas é um dos elementos mais marcantes de Breaking Bad, e pode ter certeza que quando ele o tocar, nada bom está para acontecer.

99.1% de pureza: a perfeição técnica

Breaking Bad merece todos os elogios possíveis, não só pelo roteiro, mas por toda a técnica envolvida. A composição da mise-en-scène envolve câmeras subjetivas nos lugares mais inusitados possíveis, como dentro de uma lavadora com muitos dólares, ou em uma lixeira cheia de cacos de um prato quebrado. Todos os simbolismos de roteiro, as canções estrategicamente colocadas na trilha sonora, o visual amarelado e reforçado pelo calor de Albuquerque, tudo isso compõe uma obra de arte da televisão.

Muita gente não dá bola para o significado das cores, mas Vince Gilligan fez questão de aplicar isso em Breaking Bad. As cores demonstram com força a personalidade dos personagens, e isso se personifica nas suas vestimentas. Walter usa muito caqui quando está com câncer, mas passa a usar o azul com mais frequência a medida que se aproxima de Gus (qual a cor do produto mesmo?). Nem mesmo Marie fica de fora nesse quesito; seus tons de roxo são marca da personagem, e algo está diferente quando ela usa outra cor, como quando está de amarelo – neste momento, Hank descobre a verdade sobre Walter, e o amarelo passa a impressão de clareza das ideias.

São detalhes que podem passar desapercebido pelo espectador, mas que impressionam quando se descobre sobre eles. Um exemplo é a abertura do show. Enquanto ouvimos os acordes faroésticos de violão, vemos fórmulas na tela sendo repetidas, como C10H15N, que é a fórmula molecular da metanfetamina. O número 149,24 também aparece na abertura, que representa a massa molecular do composto.

Não é à toa que Breaking Bad é considerada uma das melhores séries de todos os tempos.

Ação e reação 

“Toda ação tem uma reação”, esta famosa citação de Isaac Newton é um resumo perfeito para a série, nenhuma ação ficou impune. Desde que a parceria de Walter e Jesse foi iniciada, uma trilha enorme de corpos foi deixada para trás. Em nenhum momento a série glorificou ou dá razão a nenhum de seus personagens por seus péssimos atos, não importa qual seja o motivo.

Desde que entrou para o ramo das drogas, o cartel Salamanca, o império de Gus Fring e um grupo de neonazistas foram destruídos. Walter desenvolveu um padrão de se envolver com péssimas parcerias e teve que tomar medidas extremas quando a sua vida ou sua família eram ameaçadas. Contando sempre com seu intelecto, improviso e uma quantidade absurda de sorte, Walter quase sempre consegue escapar de situações em que se encontrava encurralado e de mãos atadas. Conforme sua influência foi crescendo, o Sr. White perdeu qualquer escrúpulo e se tornou capaz de qualquer coisa para continuar cozinhando.

Walter White destruiu tudo na vida de Jesse Pinkman. Antes de se tornarem parceiros, Jesse tinha um pequeno laboratório improvisado e uma pequena clientela, o suficiente para se manter. Foi apenas o Walter entrar novamente em sua vida que a produção cresceu e a distribuição também, assim como os problemas. Jesse conheceu Jane (Krysten Ritter) e se apaixonou, mas também a levou de volta para a heroína. Seria muito exagero dizer que os dois viveriam felizes para sempre, mas Walter, deliberadamente, deixou Jane morrer para não perder o Jesse. De certa forma, o resultado foi positivo, pois, com o trauma, Jesse entrou para a reabilitação e abandonou o vício (com apenas uma recaída posterior). Jesse conheceu Andrea (Emily Rios), que se recuperava de metanfetamina. Eles passaram a se relacionar e Jesse se tornou amigo do filho dela, Brock (Ian Posada). Além de Brock ter sido envenenado como parte do plano para derrubar Gus Fring (Jesse achava que a culpa era dele), Andrea foi morta pelo grupo de neonazistas para que Jesse não escapasse do seu cativeiro. Depois de um ano escravizado, Pinkman foi resgatado por quem o colocou lá originalmente sem absolutamente nada a não ser sua recém-ganha liberdade.

Walter White perdeu a sua família. O grande Heisenberg sempre usava sua família como justificativa para suas ações, mas, em Felina, último episódio da série, admitiu para Skyler que fazia porque gostava e porque era bom. Mas isso não quer dizer que ele não prezava pela esposa e pelos filhos, pois até com Hank (Dean Norris) Walt se importava, apesar de sua investigação dificultar muito a sua vida. Mas foi em Ozymandias, antepenúltimo episódio, que tudo ruiu: em um dia Walter perdeu Jesse, Hank, sua família e todo o seu dinheiro, tudo com o que se importava. Este foi o fim de Heisenberg. Isolado por quase um ano no meio do nada sem absolutamente ninguém, Walt se viu obrigado a voltar pra Albuquerque e acertar as contas. Em atos de redenção, ele conseguiu uma forma para que seu dinheiro sustentasse sua família, entrou em termos com Skyler, matou Lydia (Laura Fraser) e o grupo de neonazistas e resgatou o Jesse. Exceto por não conseguir fazer as pazes com Walter Jr, Walter e a série fecharam todas as pontas. Aceitando a sua morte, Walter se despede da vida em um laboratório de metanfetamina, o único lugar em que ele realmente se sentia importante.


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Estudante de jornalismo, tem 18 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e é adepto ao estilo sul-coreano de vingança.

Comments

  1. Sobre a série, pqp, ela é impecável. Dizer que é uma das melhores é chover no molhado.
    Matéria escrita de forma magistral, parabéns Diego.

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