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Lady Bode | As mulheres anônimas que criaram Hollywood

Mary Pickford e Frances Marion foram dois dos grandes nomes femininos que contribuíram para a ascensão do cinema em Hollywood

Lady Bode | As mulheres anônimas que criaram Hollywood

Você pode olhar para Hollywood hoje e dizer a quão bela é essa instituição cinematográfica que tantas alegrias nos proporciona desde os áureos tempos. E você pode ainda pensar o quão importantes foram esses cavalheiros que ergueram os muros dessa fábrica de sonhos e a moldaram como conhecemos hoje. E ainda esses cavalheiros que produziram, dirigiram e roteirizam os mais belos filmes nos primórdios do cinema. Mas entenda, a história não é bem assim. Infelizmente, quando se fala sobre uma indústria desse porte, os homens são sempre os mais citados e muitas vezes, os únicos citados, mas o que talvez o leitor não saiba é que grandes mulheres foram pioneiras na história do cinema mundial. Quer um exemplo? A primeira diretor-diretora da história, foi uma moça chamada Alice Guy Blaché (tema do próximo Lady Bode), que é apontada até hoje como a primeira pessoa que explorou os recursos narrativos do cinematógrafo.

E essas duas moças proeminentes que estão estampando a capa desse artigo, o caro leitor sabe quem são? Bem, são ambas as pioneiras de Hollywood na era do cinema mudo, Mary Pickford e Frances Marion. Tá achando pouco? Ambas foram premiadas na segunda e terceira edições do Oscar, em 1930 e 1931. Mary como Melhor Atriz por Coquette(1929). Já Marion ganhou duas de três indicações para Melhor Roteiro por Big House(1930) e Melhor História Original no ano seguinte com O Campeão(1931). Essas ladies estavam entre as mais poderosas e influentes personalidades nos primórdios do cinema mudo, fato que abriu caminho para que muitas outras mulheres conquistassem posições de prestígio na Hollywood da época.

Falando um pouco sobre Mary, a história dela se confunde com a própria história do cinema, pois ambos caminharam lado a lado. Como atriz, trabalhou em mais de 200 produções, conquistando o posto de America’s Sweetheart (Queridinha da América), mas Mary era muito mais que um rostinho bonito, pois suas habilidades iam muito além do trabalho como atriz. Inquieta, passou a se envolver cada vez mais em outras áreas de produção, buscando os melhores profissionais que pudessem contribuir com seus projetos futuros. E foi com essa audácia toda que ela se tornou uma notável produtora e escritora, contribuindo com filmes que visavam muito mais a qualidade da história do que lucro pautado em trabalhos medíocres.

Mary Pickford

Mas a senhorita Mary ainda não estava satisfeita porque tinha muito malandro dando pitaco nas produções e não deixando que ela tivesse controle sobre seus projetos. Então, o que ela fez? Ora, ela fundou a própria produtora, a Mary Pickford Film Corporation, em 1916, onde podia escolher seu próprio diretor e elenco coadjuvante, publicidade, podia ter controle do corte final e o direito de questionar qualquer papel que não a interessasse. Sendo a primeira atriz a ter sua própria produtora, Mary produziu uma série de filmes, nove deles roteirizados por sua parceira de luta, Frances Marion.

A essa altura, já existiam grandes estúdios já fundados, como Fox, Paramount e Universal que, claro, eram fortes adversários na produção de filmes. Sentindo a pressão constante, Mary se juntou a ninguém menos que Charles Chaplin, Douglas Fairbanks, D.W. Griffith e William S. Hart e tornou-se co-fundadora da companhia de cinema United Artists, a UA, vendida à MGM, em 1986. O plano era fazer frente às grandes corporações cinematográficas da época e incrementar os lucros, impedindo que outras companhias os usassem para fins de venda e ganhassem completo controle sobre suas carreiras. A United Artists notabilizou-se como a primeira maior companhia independente na distribuição de filmes e consagrou diversos diretores e atores do cinema mudo que iniciaram suas carreiras através da empresa. Mary se consagrou como umas das figuras mais importantes da era do cinema mudo, mas com o advento do cinema falado as coisas começaram a tomar outros rumos, fato que vamos abordar mais adiante.

Fairbanks, Pickford, Chaplin, Griffith, fundadores da United Artists

Falando um pouco sobre Frances. Ainda jovem, filha de renomada família, trabalhou como jornalista e correspondente durante a Primeira Guerra Mundial, mas quando voltou pra casa decidiu que não queria mais ser mocinha rica e foi embora para Los Angeles, acreditando que teria maiores oportunidades de trabalho em Hollywood. Sua beleza logo possibilitou a ela trabalhos como atriz e como modelo, mas Marion era abusada e desprezou todos os convites, pois acreditava que alcançaria o sucesso profissional realizando trabalhos à margem dos holofotes. Ela queria os bastidores, então começou pintando os cartazes publicitários dos filmes, depois passou a assistente de roteiro trabalhando para a companhia Lois Weber Productions, comandada por Lois Weber, outra pioneira do cinema. Tempos depois, Frances passou a escrever seus próprios filmes e é nessa fase, por volta de 1917, que ela e Mary Pickford se tornam grandes amigas. Você lembra que o publico elegeu Mary como “Queridinha da América”, certo? Acredite que a senhorita Frances leva a fama de ter moldado essa imagem angelical através dos roteiros escritos para os filmes estrelados por Pickford.  

Frances era uma contadora de histórias nata, pois encontrou uma maneira eficiente de dizer o que era essencialmente importante para a história que estava sendo contada, sempre com um apurado cuidado no aspecto psicológico dos personagens. Lembre-se que o filme era mudo, então era preciso passar toda a personalidade da personagem fazendo o menor uso possível dos cartões de diálogo, e Marion dominava muito bem essa técnica. Se o leitor não está convencido da influência da moça, saiba que ela era a mais requisitada escritora da era do cinema mudo, e também a mais paga, chegando a ganhar 150 mil dólares por ano. Em 1933 se tornou a primeira vice-presidente da Associação de Roteiristas da América. Ao longo de sua carreira, escreveu mais de 300 roteiros, dos quais 130 viraram filmes e ainda hoje é considerada como uma das maiores roteiristas de Hollywood.

Frances Marion e Mary Pickford

Mary acabou se aposentando das telas e largou a carreira de cineasta. Em 1976 ganhou um Oscar honorário em reconhecimento de suas contribuições à indústria e ao desenvolvimento artístico dos filmes. Frances abandonou Hollywood em meados dos anos 40, e voltou à escultura e à pintura. Em 1972, ela publicou seu livro de memórias “Off With Their Heads: A Serio-Comic Tale of Hollywood”. Ambas já faleceram, mas deixaram esse enorme legado na história do cinema.

A essa altura, imagino que o leitor esteja se perguntando porque diabos a indústria cinematográfica atual é comandada por homens, sendo que em seus primórdios boa parte do esquema era comandado por mulheres? Basicamente, no início das produções independentes, o cinema não era lá um negócio levado muito a sério. Os homens queriam ser advogados, médicos, contadores ou engenheiros, mas nunca cineastas. Dessa forma as mulheres encontraram um espaço para atuarem, já que nesse ramo não haviam homens na competição. Bem, até então não tinha homem no campinho, mas com a chegada do cinema falado, lá no final dos anos 20, os Estados Unidos começaram a perceber o poder lucrativo de Hollywood, incentivando homens a ocupar as vagas que até então eram preenchidas por mulheres. Mas a coisa desandou mesmo com a Crise de 1929, quando aqueles caras que queriam ser médicos, advogados, contadores e engenheiros foram perdendo seus empregos e precisaram diversificar, aí você já sabe para onde eles migraram. Mas não pense que eles chegaram chutando o pau da barraca, mandando a mulherada toda embora. Na verdade foi aos poucos que foram tomando o poder, e como na guerra, conseguiram conquistar território, deixando para as mulheres funções secundárias e as transformando em símbolos sexuais frente às câmeras.  Foi um final comum para Frances, Mary e muitas outras mulheres, principalmente durante a Grande Depressão, quando os estúdios passaram de meras empresas de entretenimento para verdadeiras máquinas capitalistas. Hollywood se tornava ali uma fábrica patriarcal, um clube fechado onde as mulheres, por mais capacitadas que fossem, não eram consideradas aptas a exercer qualquer dos cargos oferecidos.

Mas como você e eu sabemos, o mundo dá voltas, não é mesmo? Por isso, diversos movimentos liderados por mulheres já estão gerando resultados na forma como a indústria cinematográfica vê a mulher, tanto em frente quanto atrás das câmeras. A busca pela igualdade salarial, da igualdade de direitos e fim de abusos físicos e morais, abre caminhos para que novas Marys e Frances possam se sentir à vontade para construir uma nova Hollywood e serem pioneiras nas mais diversas áreas. Não cabe a essa lady que vos escreve, abordar todas as mulheres que tem contribuído para que a mudança aconteça, pois, esse assunto será pauta para um próximo texto, bem como outras tantas pioneiras dos primórdios do cinema que não foram citadas nesse compêndio. Por aqui, a mensagem que fica é que possamos guardar o nome dessas heroínas, criadoras de Hollywood, vanguardistas do cinema, que tiveram seus méritos perdidos no breu do machismo. Que possam ser sempre lembradas e jamais esquecidas.

No Lady Bode da próxima semana, falarei um pouco sobre ela que é considerada a Mãe do cinema, Alice Guy. Até a próxima, Ladies e Bodes!

Dica da Lady Bode: Documentário “ E a mulher criou Hollywood” (Et La femme créa Hollywood), de Clara Kuperberg, Julia Kuperberg. Com Paula Wagner, Ally Acker, Cari Beauchamp, Robin Swicord, Lynda Obst. França, 2015.


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Elaine Timm

Aspirante a gente, Elaine é gaúcha, formada em Jornalismo, atua como social media e curte freelas. Blogueira de várzea, arrisca escritas diversas. Cinéfila, musical e nerd desde criança, quer ser Jedi, mas ainda é Padawan. Save Ferris.

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