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Black Mirror – 4ª temporada | Crítica

Confira a opinião de Diego Francisco sobre a mais nova temporada de Black Mirror

Black Mirror – 4ª temporada | Crítica

Black Mirror – 4ª temporada

Ano: 2017

Criador: Charlie Brooker

Elenco: Jesse Plemons, Cristin Milioti, Jimmi Simpson, Michaela Coel, Rosemarie DeWitt, Brenna Harding, Owen Teague, Andrea Riseborough, Andrew Gower, Kiran Sonia Sawar, Georgina Campbell, Joe Cole, Gwyneth Keyworth, George Blagden, Maxine Peake, Jake Davies, Clint Dyer, Douglas Hodge, Letitia Wright, Aldis Hodge, Babs Olusanmokun

Charlie Brooker é um roteirista lento. Ele roteirizou todos os episódios da série e cada temporada demorava dois anos para ser finalizada. Agora ele trabalha com metade do tempo e o dobro de episódios e isso visivelmente afeta a qualidade das histórias que ele conta.

Black Mirror era pouco conhecida em suas duas primeiras temporadas, ela atingiu o sucesso mainstream assim que foi comprada pela Netflix, não que isso seja algo ruim, mas os episódios produzidos pelo serviço de streaming não tem o mesmo peso dramático e reflexivo.

Leia aqui as críticas dos seis novos capítulos antes de ser feita a análise geral do novo ano da série:

 

  • USS Callister

Parodiando Star Trek, o episódio consegue reunir os aspectos mais bregas da série original e tirar humor deles, este é o mais engraçado de Black Mirror, o que não é um problema, o humor é utilizado na medida e não distrai das partes mais sombrias. A USS Callister da Frota Espacial é comandada pelo heroico Capitão Daly (Jesse Plemons na sua melhor interpretação de Kirk) e vive salvando o dia com suas manobras ousadas. Sua tripulação o respeita, respeito vindo do medo – Robert Daly não é tão brilhante na vida fora da nave e desconta suas frustrações e desavenças pessoais nos seus colegas criando uma atmosfera de constante tensão, punindo-os com horrores indescritíveis.

Este episódio mostra como a tecnologia pode ser utilizada para exercer poder em cima das pessoas e como ela pode servir para propósitos mais sádicos. Daly representa todos aqueles que não conseguem encontrar espaço no mundo real e abusam da influência que obtém. Mesmo com algumas partes do argumento não serem consistentes e o final ser um pouco decepcionante, USS Callister conta com atuações excelentes de Jesse Plemons e Jimmi Simpson e é um ótimo início para a nova temporada.


  • Arkangel

Marie (Rosemarie DeWitt) é uma preocupada mãe solteira que, após sua filha de três anos, Sara (Anyia Hodge) desaparecer por alguns instantes, decide instalar o Arkangel nela. A tecnologia consiste em um sofisticado sistema de monitoria capaz de sempre traçar a localização da criança, bem como medir o seu nível de nervosismo, batimentos cardíacos e bloquear qualquer tipo de conteúdo mais desconcertante. Marie passa a controlar tudo o que a filha faz e vê, incapacitando-a de ter experiências próprias ou saber como as coisas realmente são.

Dirigido por Jodie Foster, Arkangel é uma clara crítica aos pais mais controladores que protegem tantos os filhos que acabam não os preparando para o mundo real. No entanto, a segunda metade do episódio em que Sara cresce (agora interpretada por Brenna Harding) perde a força e os eventos não tem o mesmo impacto do começo, exceto no final que é um pouco exagerado.


  • Crocodilo

No maior estilo Eu Sei o Que Vocês Fizeram No Verão Passado, Mia Nolan (Andrea Riseborough) e seu amigo Rob (Andrew Gower) atropelaram e mataram uma criança que estava andando de bicicleta. Com medo das consequências, eles esconderam o corpo e juraram nunca contar aquilo para ninguém. Anos depois, Mia é uma arquiteta de sucesso e mãe de uma criança de nove anos, e quando menos espera, seu segredo ameaça vir à tona, e ela está disposta a fazer de tudo para não deixa-lo arruinar a sua vida.

Apesar da tecnologia de acesso às memórias já ter sido utilizado em The Entire History of You, aqui ela é mais rudimentar e é interessante como eles retratam a memória como algo subjetivo e elementos como aromas ou música podem ajudar a lembrar de certos eventos. Infelizmente, Crocodilo nunca nos deixa simpatizar com a protagonista, logo quando ela comete ações repreensíveis, só podemos odiá-la, e o episódio nunca deu espaço para sentir pena dela.


  • Hang the DJ

O sucesso de San Junipero é o responsável por este episódio que também retrata o romance entre dois jovens e os conflitos causados pela tecnologia. Aqui somos introduzidos a essa comunidade fechada populada apenas por jovens em que seus relacionamentos são ditados por um aplicativo capaz de prever a data de validade das relações. Amy (Georgina Campbell) e Frank (Joe Cole) parecem feitos um para o outro, mas sempre que o aplicativo os une é por tempo limitado e eles não sentem a mesma conexão quando estão com outras pessoas, o que os leva a decidir fugir.

É um episódio simples e bobo, sem nenhuma espécie de peso dramático ficando muito atrás de San Junipero. Não acontece nada de muito relevante ou pesado durante os cinquenta minutos de duração. É nada além de uma comédia romântica.


  • Metalhead

Em um futuro pós-apocalíptico desolado, um grupo de sobreviventes liderado por Bella (Maxine Peake) está procurando suprimentos e algo para aliviar a dor de um membro prestes a morrer, ao invadir um armazém eles começam a ser perseguidos e mortos por um implacável cão segurança robô.

Quando o episódio começou, notei a estética similar a de Mad Max, e imaginei que seria uma única cena de perseguição e é exatamente isso. Durante os curtíssimos quarenta minutos de duração, só vemos os personagens fugindo do cão, nenhum momento é destinado a explorar os personagens e nos fazer simpatizar com eles. Mesmo com a clara alegoria à brutalidade policial, que pune o crime sem saber qual o objetivo da pessoa por trás da ação, o episódio começa e acaba sem nada de substancial acontecer.


  • Black Museum

A redenção da quarta temporada, Black Museum acertadamente copia a estrutura de White Christmas. O carismático Rolo Haynes (Douglas Hodge), dono do museu, conta três histórias para Nish (Letitia Wright), que assume a posição do espectador, uma para cada um dos itens mais valiosos em exibição. No único episódio que capta com perfeição a atmosfera de Black Mirror, cada uma das histórias trás uma tecnologia que a princípio nos maravilha com o que ela pode fazer e até desejamos que ela exista, mas não demora para que cada uma delas mostre sua faceta doentia ou negativa. Haynes é um ótimo contador de histórias, assim como foi Matt (Jon Hamm), e ele nos prende com sua envolvente e divertida narração para os eventos mais perturbadores.

Em uma temporada em que maioria dos episódios desaponta, este season finale nos lembra do porquê de amarmos a série em primeiro lugar: a excitação, a curiosidade, o horror, o nojo e a falta de esperança. Black Museum é Black Mirror raiz.


Dos sete episódios produzidos antes da compra da Netflix, todos têm um final infeliz ou ambíguo. Dos doze novos episódios, metade tem um final feliz. Isso não soa certo. Black Mirror tinha a reputação de tratar de temas sérios e atuais, abrir longas discussões sobre as novas tecnologias e a nossa dependência delas. A série era desgastante, ela fazia você simpatizar com o personagem, vê-lo sofrer e no final, quando tudo parecia ficar bem, havia uma reviravolta que alimentava a falta de esperança. Esta é a Black Mirror que eu conheço e a Black Mirror que não vejo nesta temporada.

A série está mais preto e branco do que nunca, existe o bem e o mal de forma muito definida. Na maior parte dos episódios falta sequer a capacidade de conseguir estabelecer debates e longas reflexões. Ainda por cima, Black Mirror absorveu a mania da nossa geração de caçar easter eggs e querer universos compartilhados; o que antes eram inserções sutis, agora são referências escancaradas a episódios anteriores (e verdade seja dita, bem superiores) numa tentativa de que todos habitem o mesmo mundo, até quando a existência de uma tecnologia anularia outra.

Se as coisas continuarem neste nível, a série rapidamente perderá a sua relevância e ficará contando histórias sem nenhum peso dramático ou viés interpretativo. Existem inúmeras séries que fornecem finais felizes e Black Mirror não é uma delas, ou não era até agora.

Nota do crítico:

Nota dos usuários:

[Total: 6    Média: 3/5]


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Estudante de jornalismo, tem 18 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e é adepto ao estilo sul-coreano de vingança.

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