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Fala Sério, Mãe! | Crítica

Confira a opinião de André Bozzetti sobre a comédia nacional estrelada por Larissa Manoela e Ingrid Guimarães!

Fala Sério, Mãe! | Crítica

Fala Sério, Mãe!

Ano: 2017

Direção: Pedro Vasconcelos

Roteiro: Dostoiewski Champangnatte, Paulo Cursino, Ingrid Guimarães, Thalita Rebouças e Pedro Vasconcelos

Elenco: Larissa Manoela, Ingrid Guimarães, Marcelo Laham

Quando surge a discussão sobre produções da Netflix, Amazon e outros canais de streaming terem direito de concorrer a premiações de cinema, existem argumentos fortes dos dois lados. A questão é que existe sim diferença em produzir algo que pode ser assistido tranquilamente em smartphones e televisores, para aquelas produções direcionadas a grandes telas e poderosos equipamentos de som. E isso se reflete não só na forma como o filme é planejado e dirigido, mas também no conteúdo do mesmo. Alguns conteúdos visam claramente o público da TV, que vai ver um filme depois da novela das oito. O problema acontece quando estas produções comerciais, com cara de sitcom da TV aberta, vão parar nas salas de cinema, passando para o público em geral uma ideia muito errada sobre a qualidade dos filmes produzidos atualmente no Brasil.

A trama de Fala Sério, Mãe! gira em torno da relação entre Ângela (Ingrid Guimarães) e sua filha Malu (Larissa Manoela), desde o nascimento até a adolescência. Ângela é uma mãe paranoica e super controladora e Malu, desde cedo, busca ser independente e fazer as coisas que quase todo adolescente adora: namorar, ir a festas, falar no telefone por horas, etc. A mãe não encara muito bem a sensação de perder o controle sobre a filha e vê-la amadurecendo, e assim provoca situações embaraçosas e inusitadas.

Se analisarmos o currículo do diretor Pedro Vasconcelos, muita coisa que vemos na tela se explica. Acostumado a dirigir novelas, Vasconcelos não conseguiu fazer uma transição de qualidade para este outro formato audiovisual. A sensação que dá é que estamos simplesmente assistindo uma novela projetada em uma sala de cinema. A direção, a fotografia e até a montagem, em nada diferem da receita comum de produções para a TV. Dessa maneira, o filme acaba não tendo personalidade, e ainda provoca a incômoda sensação de que está deslocado do local ao qual pertence realmente.

O roteiro é outro problema sério. Podemos elogiar a tentativa de se fazer uma espécie de Boyhood, aqui centrado na relação entre mãe e filha e, ainda por cima, de maneira divertida.  Infelizmente, precisamos criticar o fato de que os conflitos são tão rasos e as piadas tão fracas, que ele falha tanto no drama quanto na comédia. E, de novo, uma breve observação no currículo dos roteiristas é suficiente para compreender o que houve. Para começar, um roteiro escrito por tanta gente junta, que possuem em sua filmografia obras como É Fada, O Candidato Honesto, Divórcio e De Pernas pro Ar já dá alguns indícios do que será visto na tela. E, convenhamos, comparado com estes citados, até digo que houve alguma evolução.

Eu não sei em que momento da pré-produção o roteiro foi invadido por jabás da Rede Globo, mas o filme faz aquilo que a maior emissora de TV do Brasil adora fazer: agir como se apenas ela existisse e usar seus espaços para fazer propaganda de outros programas da grade e para divulgação apenas de seus próprios artistas. Então, durante os longos 79 minutos de projeção, vemos participações forçadas de artistas ligados à emissora e ainda vinhetas bem chamativos do Telecine surgindo na TV da casa das protagonistas.

A estrutura do filme também é muito errática. Com a trama dividida em diferentes fases da vida de Ângela e Malu, por diversas vezes são colocadas músicas extremamente óbvias para ilustrar momentos marcantes, mas acabam ficando com cara de videoclipe  ou, pior, daqueles e-mails com Power Point que infestavam a internet anos atrás. No início, as boas atuações das crianças que interpretam a Malu mais nova são prejudicados pela atuação cartunesca de Ingrid Guimarães. Além disso, a narração da história feita por ela soa muito artificial, tanto na entonação quanto na sua mixagem ao som do filme.

Fala Sério, Mãe! melhora um pouco quando Larissa Manoela entra em cena e passa ela a contar a história. Com uma atuação muito mais adequada ao cinema, e ainda um timing cômico melhor do que de sua companheira de cena, Larissa chama a responsabilidade e consegue fazer inclusive Ingrid Guimarães funcionar um pouco melhor.

O longa talvez agrade aos fãs do humor de Ingrid Guimarães, nos quais eu não me incluo. É um filme que, apesar de possuir alguns bons momentos esparsos, no todo não consegue sequer formar algo coeso, se parecendo mais com uma junção de esquetes do que com um longa-metragem propriamente dito. É um filme descartável, sem alma, que some rapidamente da memória ao final da sessão.

Nota do crítico:

Nota dos usuários:

[Total: 3    Média: 2.3/5]

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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