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O Rei do Show | Crítica

Confira a opinião de André Bozzetti sobre o musical estrelado por Hugh Jackman!

O Rei do Show | Crítica

O Rei do Show (The Greatest Showman)

Ano: 2017

Direção: Michael Gracey

Roteiro: Jenny Bicks, Bill Condon

Elenco: Hugh Jackman, Michelle Williams, Zac Efron, Zendaya, Rebecca Ferguson

P. T. Barnum foi uma figura controversa em sua época. Conhecido por ser uma fraude, um embusteiro, ainda assim fez sucesso no mundo do entretenimento no século XIX, com suas atrações que mexiam com a curiosidade e imaginação do público. No entanto, a história conta que  seus interesses financeiros sempre ficaram muito à frente da ética e da preocupação real com sua família e com suas “atrações”, às quais ele explorava e até mesmo humilhava.

Escrito por Jenny Bicks e Bill Condon, e dirigido por Michael Gracey, O Rei do Show é um musical que conta a história de Barnum (Hugh Jackman), desde sua infância pobre, como o filho de um alfaiate, e toda sua trajetória para se tornar um ícone do entretenimento popular.

O roteiro de Bicks parece apenas flertar com a realidade, sem se preocupar demais em apresentar os fatos como ocorreram. Se por um lado isso prejudica a compreensão de algumas situações, por outro se mostra fundamental para que o filme possa existir no formato que foi concebido. O prejuízo fica por conta de nunca mostrar as maiores fraudes cometidas por Barnum e, mesmo assim, no filme, ele é sempre tratado como um enganador, um embusteiro. As pequenas alterações que ele realiza nos personagens de seu show não seriam suficientes para denegrir tanto sua imagem, e isso realmente soa estranho em diversos momentos.

No entanto, o que Bicks transforma de maneira muito conveniente é o tratamento de Barnum com suas principais atrações, as pessoas com deficiências ou com características raras, que na realidade eram apresentadas como aberrações e que, no filme, passam uma ideia de inclusão social e busca por igualdade. Caso houvesse maior fidelidade histórica, dificilmente O Rei do Show poderia ser produzido como um musical tão cheio de magia e encantamento. Ou seja, não podemos entender o filme como uma verdadeira biografia de P.T. Barnum, e para digerir a história é necessário ignorar a realidade e mergulhar na fantasia.

E é na fantasia que reside a melhor característica desta produção. Com uma fotografia que frequentemente evoca um sentimento onírico, com belos efeitos em contraluz, muitas vezes contrastando com a fumaça ou neblina que surgem de qualquer lugar, o que presenciamos é um ininterrupto espetáculo visual. A direção de arte é igualmente impecável. Os figurinos e a recriação dos cenários de época nos transportam diretamente ao século XIX. A caracterização das atrações do circo de Barnum também é eficiente, e é uma pena que alguns personagens sejam tão pouco aproveitados e sirvam apenas como figuração.

Felizmente, aqueles personagens que ganharam mais tempo de tela contam com interpretações excelentes. Hugh Jackman está indiscutivelmente à vontade no papel principal. Musicais não são uma novidade para ele, e o ator carrega o filme com naturalidade.  Michelle Williams, Austyn Johnson e Cameron Seely estão ótimas como Charity, Caroline e Helen, respectivamente, esposa e filhas de Barnum. Mas os maiores destaques desse elenco de apoio ficam com Rebecca Ferguson, que vive a cantora Jenny Lind e, principalmente, com Keala Settle, que interpreta Lettie Lutz.

Ferguson coloca muita paixão em sua Jenny Lind, e suas apresentações cantando “Never Enough” estão entre os momentos mais belos do filme. Já a evolução de Lettie acaba servindo como um símbolo das transformações vividas por vários outros personagens que foram menos desenvolvidos, e Settle entrega uma atuação sensível e poderosa, que representa muito bem as mudanças que ocorreram na vida de todos. Não à toa, ela toma a linha de frente em quase todas as apresentações e ações do grupo.

Outro ponto positivo do filme são as músicas, que são realmente envolventes e auxiliam demais na narrativa. O início com “The Greatest Show” é empolgante, e é uma pena que o resto do filme acabe não aproveitando tão bem as músicas como na cena de abertura. Isto porque a montagem exageradamente picotada esconde demais as coreografias, cortando com frequência para planos fechados nos rostos dos atores ou, em outros momentos, salta de um lugar para o outro com muita artificialidade. As dublagens das músicas por vezes também soam falsas, por demonstrarem pouco sentimento nas vozes gravadas em estúdio, enquanto seus personagens os expressam fortemente em seus rostos enquanto cantam.

Então, quando assistimos O Rei do Show, apesar de toda a beleza e do espetáculo, eventualmente percebemos que estamos sendo enganados. Seja pelas omissões históricas, seja pela montagem, ou pelos personagens em CGI, ou dublês substituindo alguns atores que não sabem dançar. Talvez uma escolha mais criteriosa no elenco, ou melhores decisões de direção, pudessem entregar um filme memorável. No entanto, temos uma atração que apesar de encantar, perde o brilho logo em seguida, e se torna apenas mais um filme com uma bela mensagem que, infelizmente, soa como hipocrisia quando conhecemos a verdade por trás da ficção.

Nota do crítico:

Nota dos usuários:

[Total: 4    Média: 4/5]

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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