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Corpo e Alma | Crítica

Confira a opinião de André Bozzetti sobre o filme escolhido para representar a Hungria no Oscar!

Corpo e Alma | Crítica

Corpo e Alma (Teströl és lélekröl)

Ano: 2017

Direção: Ildikó Enyedi

Roteiro: Ildikó Enyedi

Elenco: Géza Morcsányi, Alexandra Borbély, Zoltán Schneider, Ervin Nagy

Não é fácil falar sobre um filme quando ele é tão focado em questões internas e pessoais. As experiências e a visão de mundo de cada um vão influenciar decididamente na compreensão e no quanto a história vai lhe afetar. Sendo um filme que se passa em torno de um abatedouro, possui cenas fortes e desagradáveis para quem se preocupa com a causa animal. No entanto, apesar do mal estar que elas provocam, sabemos que é sim um triste retrato da realidade e, no contexto em que se apresentam, torna-se compreensível o significado que possuem na narrativa.

Escrito e dirigido por Ildikó Enyedi, o filme nos apresenta Endre (Géza Morcsányi), o solitário diretor financeiro de um abatedouro, e Mária (Alexandra Borbély), a nova fiscal de qualidade da empresa. Durante um exame psicológico realizado com os funcionários em função de uma investigação policial, eles descobrem que estão compartilhando o mesmo sonho recorrente, no qual são um casal de cervos em meio a uma floresta. Em função disso, acabam estreitando uma ligação que começava a surgir naturalmente, mas precisam derrubar barreiras internas que dificultam esta aproximação.

O trabalho de Enyedi, tanto no roteiro quanto na direção é extremamente sensível. A apresentação dos personagens principais se dá de maneira sutil e reveladora sobre o que vamos acompanhar ao longo do filme. A primeira aparição de Endre se dá em um plano fechado em seu braço, que possui uma paralisia da qual jamais sabemos a origem. No entanto, apesar da naturalidade com que o personagem lida com ela, por diversas vezes recebemos dicas de que ele é hoje uma pessoa muito diferente do que já foi: mais triste, mais amargurado, menos confiante.

Mária também se revela rapidamente. Vemos a garota através dos olhos de Endre que, de seu escritório, observa o momento em que ela se esconde timidamente nas sombras, evitando a luz do sol e se afastando do caminho e do contato com seus novos colegas de trabalho. A jovem se mostra uma pessoa peculiar, com uma inteligência e memória fora do comum, mas também com um evidente transtorno obsessivo compulsivo e uma completa inabilidade para qualquer tipo de interação social.

Estes dois personagens conseguem carregar um filme inteiro, que se passa em pouquíssimas locações, justamente pela complexidade de suas personalidades e da interação que constroem entre si. Ambos possuem histórias que não são reveladas, mas que somos capazes de imaginar apenas através de suas atitudes e reações diante dos eventos que são apresentados na trama. E isso só funciona em função das atuações impecáveis de Morcsányi e Borbély. As expressões em seus olhos e a linguagem corporal dos dois nos falam mais do que seus diálogos.

O filme tem um ritmo lento, através do qual a história muitas vezes é deixada de lado para vermos em longos planos a realidade do trabalho no abatedouro. Os olhares dos animais prestes a serem mortos nos remetem ao sentimento de falta de perspectiva dos protagonistas com relação ao futuro. Além disso, o mistério criado em torno do sonho compartilhado por eles dá um ar de fantasia à trama, e funciona como uma centelha de esperança para eles, de que talvez tenham encontrado algo extraordinário onde menos esperavam. O arco dramático principal não é de um personagem, e sim de uma relação, e isso funciona de maneira fantástica.

Com algumas cenas visualmente impactantes, inclusive criando uma belíssima e mórbida rima visual em certo momento, o candidato da Hungria ao Oscar de 2018 é profundo, forte e por vezes indigesto. Corpo e Alma é um romance imperfeito como os romances reais, e dificilmente passará de maneira indiferente por quem o assistir.

Nota do crítico:

Nota dos usuários:

[Total: 6    Média: 3/5]

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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