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Baú do Bode | Louca Obsessão (1990)

Cristiano Contreiras fala sobre a adaptação da obra de Stephen King que rendeu um Oscar para Kathy Bates!

Baú do Bode | Louca Obsessão (1990)

Louca Obsessão (Misery)

Ano: 1990

Direção: Rob Reiner 

Roteiro: William Goldman 

Elenco: James Caan, Kathy Bates, Richard Farnsworth, Frances Sternhagen, Lauren Bacall

Não existe nada mais denso que o suspense ou terror que agride apenas pelo tom psicológico. Stephen King é um mestre na condução desse sistema, pois conceitua tramas que não só se prende ao teor sobrenatural — ele concebe sentidos intensos, assustadores, sobre o senso da psicopatia. Louca Obsessão é um exemplo nítido de trama macabra apenas por se sustentar no argumento da tensão claustrofóbica. E filmes conceituados em determinações de personagens psicopatas sempre são tônicas polêmicas.

A trama mostra o famoso escritor Paul Sheldon (James Caan), que sofre um acidente de carro numa nevasca, quando acabara de concluir seu livro. Socorrido por Anne Wilkes (Kathy Bates), uma enfermeira que afirma ser sua fã número um, ele é levado para sua casa onde recebe os primeiros socorros. O diretor Rob Reiner conduz o suspense gradual quando o sadismo, a psicopatia e o teor de insanidade, são revelados através da personalidade de Anne. Ao ler o original, ainda não publicado, do livro de Paul, ela descobre que a personagem principal Misery (daí o título original), personagem-título de oito obras do autor, será morta. É então que a dimensão doentia da enfermeira é revelada, num jogo perigoso onde apenas o medo torna-se uma constância. O alívio de Paul ao saber que conseguiu sobreviver ao acidente torna-se aflição progressiva quando permanece como objeto de tortura da enfermeira.

O roteiro mantém toda a essência do livro, é um filme que basicamente sustenta a relação de suspense dos dois num ambiente hostil. Impossibilitado de andar, Paul fica totalmente subordinado à mercê de sua psicótica fã. Qual limite em ser fã de alguém e se tornar obsessivo? Até que ponto há a racionalidade nesse anseio de admirar um ídolo?

Praticamente todo filmado dentro do quarto, onde se sustenta a teia psicológica e macabra de Anne com Paul — o filme mostra a relação da psicopatia, Stephen King conduz sua personagem Anne com todos seus indícios psicóticos, traços comportamentais de uma pessoa estranha. O filme se torna psicológico pela força dos diálogos, onde comportamento agressivo da neurose de Anne é evidenciado, em sua verborragia contra um refém que nada pode fazer para sair dessa situação.

A mulher aparenta ter personalidades distintas: ora é totalmente amigável e meiga, ora é neurótica e impaciente. Interessante que Stephen King constrói o comportamento dessa personagem bastante perversa, assusta pela maneira como exerce sua idolatria fanática pelo seu ídolo — Anne, ao mesmo tempo em que é fascinada pelos livros do autor que mantém preso em sua casa, nutre um fanatismo obsessivo a ponto ser algo destrutivo. É a forma crítica de King em expor, ironicamente, o lado negativo do universo fanático das pessoas que sentem uma dedicação excessiva por outrem.

O tom tenso torna-se mais sufocante quando Paul observa o quão doentia, desumana e imponderável é Anne. Por que essa mulher exerce um fanatismo insano por ele? Existe algum interesse por trás disso? O embate psíquico desenvolve e a trama torna-se mais agonizante, pois o escritor sabe que precisa lutar contra sua vida. As construções dos personagens sádicos e psicóticos de Stephen King sempre são expressas pela dosagem de inteligência e astúcia nas composições psicológicas. Por isso, é nítido como Anne consegue causar um poder de persuasão macabro sobre seu refém, inclusive ao mexer com o emocional dele.

A trama ainda desenvolve personagens paralelos, como o casal de idosos Buster McCain (Richard Farnsworth) e sua esposa; ele um xerife que busca investigar o desaparecimento misterioso do escritor. E há a editora de Paul (Lauren Bacall) que se preocupa com o sumiço do amigo. Mas, é a relação elétrica desenvolvida no confinamento da casa de Anne que concebe a tensão arterial do filme. A fita mostra que a psicopatia não só reserva a frieza, visto que Anne exerce uma paixão platônica insana pelo escritor e ainda tenta moldá-lo aos seus comandos perversos. Nota-se também um comportamento dúbio, misterioso dessa mulher. Afinal é uma assassina ou apenas uma louca irracional? O passado dela é revelado, bem como certos condicionamentos de suas frustrações pessoais — ou sexuais? Existe algo libidinoso por trás dessa obsessão de Anne pelo escritor?

O ardor claustrofóbico desenvolve-se no roteiro, impressiona em várias cenas densas que atinge o ápice da agonia. James Caan interpreta um homem à beira do pânico, mas tendo que sustentar uma aparente calmaria diante de suas pernas imobilizadas fraturadas e total imobilidade. Dentro do apertado quarto, no desespero de confinamento, que as melhores cenas do filme são evidentes. Kathy Bates, numa personificação meticulosa, alterna sua psicose com momentos irônicos e diálogos que revelam a personalidade dúbia desta mulher doentia — e a câmera de Rob Reiner recorta suas expressões ensandecidas, onde a objetiva cola no rosto para captar toda a composição inspirada que a atriz desenvolve em cena (o Oscar foi evidente). Assusta, transpira pânico, raiva.

A maneira como o roteiro de William Goldman acentua o fanatismo, a loucura e também o caráter mórbido da personagem é bastante cuidadoso, funcional. Não se utiliza da violência sanguinária, ainda que uma cena em específico seja aterrorizante, para demonstrar uma atmosfera de tensão; ainda mais que o delineamento dos personagens são humanos, tangíveis. É um filme que discute também as questões que envolvem loucura humana, bem como a psicopatia; mas, também, é uma forma perversa de mostrar uma paixão obsessiva, visto que Anne representa um ser humano que nutre um sentimento doentio capaz de matar; leva ao desatino completo. Só Stephen King pra mergulhar nas dores da alma humana, tão atormentada e imprevisível.

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Cristiano Contreiras

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