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Dark – 1ª temporada | Crítica

Confira a opinião de João Vitor Hudson sobre a primeira aposta alemã da Netflix

Dark – 1ª temporada | Crítica

Dark – 1ª temporada

Ano: 2017

Criadores: Baran bo Odar, Jantje Friese

Elenco: Oliver MasucciKaroline EichhornJördis TriebelLouis HoffmanMaja SchöneStephan KampwirthDaan Lennard LiebrenzAndreas PietschmannDeborah KaufmannTatja SeibtLisa VicariPaul LuxHermann Beyer

O mercado internacional (me refiro a qualquer país que não seja Estados Unidos ou Reino Unido) tem sido um prato cheio para a Netflix. Em novembro/dezembro do ano passado, o serviço de streaming lançou 3%, série que divergiu opiniões em sua pátria amada e idolatrada, mas que ganhou o mundo e se tornou uma das favoritas do público ao redor dele. Um ano depois, a Netflix aposta em Dark, a primeira série alemã do serviço, cuja premissa inicial lembra bastante a de Stranger Things (e isso serviu bem à sua divulgação), e consegue ser tão boa quanto, se não melhor.

Criada por Baran bo Odar e Jantje Friese, Dark já impacta o espectador logo nos seus cinco primeiros minutos. Um homem comete suicídio e deixa uma misteriosa carta que só pode ser aberta em determinado horário de determinado dia. A sequência é forte, e dita bem o tom que a série terá durante seus 10 episódios da 1ª temporada.

Acontece que a série vai muito além de sua sinopse com o garoto que desaparece misteriosamente. O que Dark tem de semelhante com a série-irmã termina aí, pois o seriado alemão entrega uma história envolvendo filosofia, linhas temporais, buracos de minhoca, traições, relações familiares e um mix de incontáveis personagens muito bem definidos pelo refinado roteiro de Friese.

O elenco de Dark é uma das peças mais essenciais que a série possui. Tive a impressão ao assistir que o show não tem um rosto pra se chamar de protagonista, mas isso não é um problema, pois era de se esperar que isso ocorresse em uma trama envolvendo 3 núcleos em 3 épocas distintas. Mas é preciso destacar alguns nomes: Oliver Masucci, que faz o patriarca Ulrich da família Nielsen (guarde bem este sobrenome) no ano de 2019, Jördis Triebel, na pele de Katharina Nielsen, a matriarca, Louis Hoffman como Jonas Kahnwald, e Daan Lennard Liebrenz, como Mikkel Nielsen.

É perceptível que os Nielsen estão massivamente presentes na série (eles são tantos que não consegui contar todos), mas me dou ao luxo de compará-los aos Lannisters de Game of Thrones, pela inteligência e perspicácia dos membros da família. Ulrich é um policial amargurado e o personagem mais bem-construído de todo o programa. O espectador vai querer amá-lo e odiá-lo em diversos momentos, com o cérebro fazendo constantemente a pergunta: Ainda devo gostar dele ou sou imoral por isso?. Já sua esposa Katharina é uma mulher com um cargo importante na escola, mas que fez tanta bobagem no passado (e o roteiro explora bem isso) que não possui o respeito que gostaria, além de inimigos que ela ganhou ao longo da vida. E Mikkel, coitado, é possivelmente o que mais sofre da família. Ele é o garoto perdido da sinopse. Eu não quero revelar detalhes de sua trama, mas já adianto que o ator é dos bons e faz o personagem com alma.

Saindo do núcleo Nielsen, o outro grande destaque é Jonas. O principal Kahnwald da história faz terapia devido ao fato de ter visto o corpo de seu pai pendurado a uma corda no pescoço. Ele se pergunta por que o pai fez o que fez, sem avisar ninguém ou deixar algum recado. Mas apesar disso, Jonas é um dos personagens mais fortes da trama, no sentido psicológico da coisa. Como acontece com os Ulrich, seu enredo também é um dos que movem o show. Inclusive, grandes reviravoltas e revelações envolvem seu personagem. É possível dizer que Jonas é o “herói” da história, pois você se verá torcendo constantemente para ele.

E o que dizer da parte técnica? Os alemães são peritos em criar excelentes cinematografias (vide o Expressionismo Alemão), e aqui não é diferente. O clima sombrio que a fotografia entrega passa a sensação de claustrofobia e de medo, principalmente se levar em conta que o show é ambientado em uma cidade com uma usina nuclear prestes a ser desativada. As florestas, o temor da população ocasionado pelo desastre de Chernobyl, tudo isso potencializa a densidade da série – e deixa Dark com uma identidade própria, se distanciando ainda mais da irmã ianque Stranger Things.

Dark trabalha o elemento da ficção científica de maneira incomum entre grandes produções, pois incrementa a ela a filosofia e o questionamento do que é o tempo e qual o seu papel. Não que seja a única produção a fazer isso, mas é muito difícil ver algo deste nível com reflexões tão profundas e existencialistas, que apresenta muitas questões e entrega algumas respostas, deixando no ar para o próprio espectador tentar responder. Dark é a ficção científica pura com o toque de aventura que De Volta pro Futuro presenteou aos anos 1980 – mas sem o DeLorean, como um dos personagens faz questão de relembrar. É um prato cheio para ateus, religiosos, cinéfilos, devoradores de livros e de séries… É, a Netflix acertou de novo!

Nota do crítico:

Nota do público:

[Total: 3    Média: 4.3/5]

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João Vitor Hudson

João Vitor Hudson é um editor de vídeos que está se formando em Publicidade & Propaganda aos 21. Ama cinema desde quando desejava as férias escolares só pra assistir todos os filmes do Cinema em Casa e da Sessão da Tarde. Ainda não possui o hábito de ver filmes de terror e é um pouco leigo quando se trata de cinema nacional, mas é um carinha boa praça que não dispensa ver um filme. Fã confesso do Nolan, Aronofsky e da Pixar.

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