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Em Busca de Fellini | Crítica

Confira a opinião de André Bozzetti sobre o filme!

Em Busca de Fellini | Crítica

Em Busca de Fellini (In Search of Fellini)

Ano: 2017

Direção: Taron Lexton 

Roteiro: Nancy Cartwright, Peter Kjenaas

Elenco: Ksenia Solo, Maria Bello, Mary Lynn Rajskub, David O`Donnell, Beth Riesgraf

Tenho um carinho especial por filmes que retratam de alguma forma a paixão pelo cinema. Para mim, se torna inevitável criar uma identificação com situações, comportamentos e desejos apresentados na tela. Este sentimento se amplia ainda mais quando a história se passa em locais com os quais tenho alguma relação afetiva. Sendo assim, Em Busca de Fellini conseguiu me envolver de forma muito semelhante ao que, acredito eu, motivou a elaboração deste roteiro. E certamente isso pesou bastante na percepção final sobre o filme. 

Escrito por Nancy Cartwright e Peter Kjenaas e dirigido por Taron Lexton, Em Busca de Fellini nos apresenta Lucy (Ksenia Solo), uma garota de 20 anos de idade que, por ter sido super protegida pela mãe durante toda sua vida, é tão imatura e inexperiente quanto um menina de 13 anos. Claire (Maria Bello), a mãe, decidida a evitar que a filha passasse por qualquer sofrimento, sequer a deixava saber a realidade sobre situações tão naturais quanto a morte de familiares ou animais de estimação. No entanto, um fato grave surge e abala esta realidade fantasiosa que havia sido construída por anos. Ao ser obrigada a sair para o mundo e vivenciar a vida adulta, Lucy acaba acidentalmente conhecendo e se apaixonando pela obra de Federico Fellini. Ela então decide que precisa conversar com ele pessoalmente e, para isso, parte em direção à Itália. Mas, obviamente, nem tudo vai correr exatamente como ela planejou.

Desde o início, quando um letreiro indica que a história contém elementos de realidade, já se percebe que o filme terá um tom bem intimista. E isso é algo que o diretor faz questão de confirmar logo a seguir, quando percebemos que o filme é basicamente composto de planos fechados. Mesmo quando Lucy aparece acompanhada, quase sempre se reforça a ideia da proximidade e dependência dela em relação à mãe, à tia Kerri (Mary Lynn Rajskub) e depois a outros personagens com os quais ela se encontra. A maior parte dos planos abertos que surgem são justamente para mostrar os momentos nos quais o mundo de Lucy se amplia. Por exemplo, ao viajar a Cleveland sozinha, ao enxergar o cinema onde conhece os filmes de Fellini, e ao contemplar as belas paisagens das cidades italianas visitadas.

A mudança visual também fica evidente através do contraste na paleta de cores apresentada nos locais por onde Lucy viaja, que reforçam a mudança interior da personagem. Se em Ohio as cores frias sinalizam a tristeza e a solidão da protagonista e sua família, as cores quentes surgem no festival onde ela conhece a obra de Fellini, e principalmente nas cidades italianas às quais visita. Esta oscilação de cores é acentuada pela montagem, que alterna com frequência entre as personagens que estão em Ohio e Lucy que está na Itália e, consequentemente, alternam-se as cores que enxergamos na tela. 

 Mas apesar do efeito visual interessante, na questão da narrativa do filme, esta não é uma boa decisão. São apresentadas cenas em excesso de diálogos entre Claire e Kerri que nem sempre se justificam, e acabam quebrando o ritmo do filme. Tanto é, que apesar da curta duração, cerca de 93 minutos, passa a sensação de ser bem mais extenso. Outro equívoco talvez tenha sido a escolha de Kerri como a narradora da história inicialmente. Esta apresentação das personagens e dos eventos soa desnecessária e pouco coesa da forma que foi realizada, visto que logo precisa ser abandonada já que Lucy começa a viver suas aventuras longe do olhar da tia-narradora.  

 Em compensação, algumas decisões de roteiro se mostraram muito eficientes. Na breve apresentação das personagens, que pareceu uma versão acelerada das aberturas de filmes do Wes Anderson, somos informados que Claire é uma sonhadora, que vive em um mundo de fantasia. Esta característica da personagem é fundamental para a forma com que ela cria Lucy. E entre tantas histórias contadas para a filha, uma se destaca: Alice no País das Maravilhas. Durante a jornada de Lucy, diversas situações fazem referência aos personagens  e acontecimentos daquele livro.

 Em meio a alguns diálogos e situações bizarras ou surreais vividas pela protagonista, algumas vezes fica a dúvida se aquilo realmente aconteceu ou é mera fantasia.  Aí podemos lembrar das palavras de Fellini: “Realismo é uma palavra ruim. Em um sentido de que tudo é realista. Eu não vejo separação entre o imaginário e o real”. Real ou não, a emoção que ela passa é verdadeira, e é isso que traz boa parte da beleza do filme.

Vale destaque também no que se refere à direção, alguns momentos de real tensão nos quais tememos pelo destino de Lucy. Algo que, apesar de ter um clima que destoa um pouco do resto do filme, se justifica pelo simbolismo de alguns elementos que se fazem presentes, e é importante para o crescimento da protagonista.

Em Busca de Fellini emociona, encanta, diverte, ensina. Ou seja, apesar dos problemas citados anteriormente, a qualidade do resultado final é o que conta. E, para quem ama o cinema , é uma bela homenagem a um dos mais importantes e reverenciados cineastas que já viveu.

Nota do crítico:

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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