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Jim & Andy | Crítica

Confira a opinião de Carlos Redel sobre o emocionante documentário da Netflix!

Jim & Andy | Crítica

Jim & Andy: The Great Beyond – Featuring a Very Special, Contractually Obligated Mention of Tony Clifton

Ano: 2017

Direção: Chris Smith

Elenco: Jim Carrey, Danny DeVito, Milos Forman, Paul Giamatti, Bob Zmuda, Courtney Love, George Shapiro, Jerry Lawler

Por opção pessoal, prefiro não escrever críticas em primeira pessoa. Tenho a sensação de que o texto acaba virando mais declarações de gostos do que uma análise propriamente dita. No entanto, como Jim & Andy: The Great Beyond é um desabafo tão puro e profundo de um dos maiores atores de sua geração, Jim Carrey, é impossível não se colocar dentro dessa experiência em formato de documentário da Netflix.

Logo nos primeiros segundos de projeção, podemos perceber que aquele Jim Carrey que vemos nas entrevistas recentes, dando respostas extremamente filosóficas e enigmáticas – até sendo, absurdamente, taxado de louco –, está ali. Não, ele já não é mais o mesmo. Sua voz é calma e seus olhos passam uma melancolia inexplicável. Houve uma mudança profunda na vida do ator e Jim & Andy nos ajuda a entender – um pouco – como e quando isso aconteceu.

No final dos anos 1990, quando Carrey estava no auge de sua carreira, depois de ter protagonizado arrasa-quarteirões como O Máskara, Ace Ventura, Débi & Lóide e O Mentiroso, além de demonstrar o seu incrível talento dramático em O Show de Truman, o ator se despiu de seu ego e decidiu fazer um teste para interpretar um de seus maiores ídolos: o comediante Andy Kaufman, morto em 1984.

Mesmo contra a vontade do premiado diretor Milos Forman, contratado para comandar O Mundo de Andy, Carrey foi o escolhido para dar vida ao controverso artista, que teve uma meteórica carreira. Assim, o ator começou uma grande pesquisa sobre a vida de Kaufman, entrevistando família e amigos, e fazendo uma imersão na psique do comediante. O resultado é brilhante – e assustador – por tamanha fidelidade e dedicação.

Ao começar a rodar O Mundo de Andy, Carrey aceitou que uma equipe de documentaristas o seguisse no set, retratando todos os seus passos e métodos para a criação (ou recriação) de Kaufman. O material, à época, acabou sendo vetado pela Universal, que temia que o público considerasse Carrey “um babaca”. Assim, todas as filmagens ficaram engavetadas no escritório do ator, por quase 20 anos. Mas, felizmente, elas vieram a público em uma linda obra.

Dirigido por Chris Smith e com produção de ninguém menos que Spike Jonze, Jim & Andy é extremamente feliz em sua narrativa. Intercalando os bastidores de O Mundo de Andy, com emocionantes declarações atuais de Carrey e imagens de arquivo de Kaufman, o filme consegue fazer amarras excelentes e cria contrapontos interessantíssimos entre as personalidades dos dois comediantes.

Ambos com o objetivo de serem grandes astros mundiais, cada um de sua maneira, Carrey e Kaufman compartilham de diversas diferenças – e algumas semelhanças, obviamente – nas histórias de suas carreiras. Mas, quando as duas se encontram, em O Mundo de Andy, algo novo surge: Kaufman é trazido para esse planeta, enquanto Carrey começa a arrumar as malas para abandoná-lo (não preciso dizer que é no sentido figurado, né?).

Jim, ao começar a gravar o filme, “incorporou” Andy – e Tony Clifton, personagem/alter ego de Kaufman que é um arrogante cantor de Las Vegas – e não saiu mais da pele do falecido comediante até o fim das filmagens. Ele confessa que, desde que “Kaufman voltou para fazer o seu filme”, perdeu totalmente o controle da situação. E o método do ator para dar vida ao personagem enriquece ainda mais a sua pouco reconhecida atuação na comédia dramática (é sério, Academia, que nem uma indicação ao Oscar o Jim merecia? Vocês deveriam se envergonhar por essa injustiça!).

Há momentos inacreditáveis captados pela equipe documentarista no set do filme. Em uma das situações mais bizarras, vemos Jim, completamente tomado pela figura de Tony, invadindo o escritório de Steven Spielberg na Universal e exigindo falar para o diretor esquecer a opinião dos outros e seguir fazendo longas como Tubarão, seu “último bom filme”. Ao não encontrar o cineasta, Tony arma um grande circo para todos ali presentes. É impagável.

Mas, apesar das situações hilárias, é nesse personagem grosseiro e caricato que encontramos grandes revelações sobre Jim – e, consequentemente, podemos imaginar que Andy o usava para a mesma finalidade. Em um determinado momento, Carrey, no presente, fala que é no improviso que as verdades são contadas. Corta para Tony, lá em 1998, falando que Jim é “muito forçado”, pois está sempre sorrindo, algo que não deve condizer com o que o ator sente na verdade. Era um grito por ajuda, já naquela época. E essa sequência, tão bem construída, doeu na minha alma, já que eu sempre vi em Jim uma válvula de escape para rir e esquecer dos problemas.

Certamente, a imersão de Carrey em Kaufman é uma das mais marcantes entregas da história recente do cinema – se não era, depois desse documentário, certamente será. E é impressionante como o ator, nos dias de hoje, tem uma visão tão interessante e consciente sobre aquele ponto de sua carreira. Sobre como tudo começou a mudar desde que interpretou Andy. A relação entre os dois foi tão simbiótica que, quando as filmagens terminaram, Jim afirmou que demorou para saber quem ele realmente era.

Apesar do fascinante trabalho de Carrey ao mergulhar no mundo de Andy, o documentário consegue ir além disso. As mensagens de Jim, no presente, mesmo que pareçam complexas ou “loucas”, são extremamente conscientes e de uma sensibilidade impressionante. É como se o ator tivesse entendido o propósito da vida humana, aceitando que a tristeza faz parte de sua natureza, decidindo abraçá-la como uma velha amiga. Os closes nos olhos do ator, com todo o sofrimento ali presente, são emocionantes.

Jim & Andy é muito mais do que apenas os bastidores de um ótimo filme. É uma experiência melancólica e fascinante pela mente de Jim Carrey, que entrou de corpo e alma em Andy Kaufman e, depois disso, tudo mudou. Particularmente, a partir do momento em que o ator olhou nos meus olhos, mesmo que através da tela da televisão, me senti mergulhado em sua tristeza e sua visão ímpar do mundo. E, ao começar a compreender – mesmo que só um pouco – o que se passa em sua cabeça, é difícil de controlar as lágrimas.

Por mais que eu siga escrevendo, não há palavras suficientes para descrever as sensações que Jim & Andy consegue transmitir. Talvez, por idolatrar tanto Jim Carrey, esse filme tenha me afetado mais do que a outras pessoas. É, é possível. Mas, mesmo assim, eu peço: entre de coração nesse documentário e ele, certamente, mudará algo em você. É sério, sinta, é incrível e inspirador!

Nota do crítico:

Nota dos usuários:

[Total: 2    Média: 5/5]

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Jornalista e radialista, é um dos fundadores do Bode na Sala. Tem 25 anos, se orgulha de ter nascido em São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, e, atualmente, mora em Porto Alegre. Trabalhou em todas as áreas que se pode imaginar, mas acabou caindo no submundo geek. É fã do Jim Carrey, acha que o Ben Affleck é o melhor Batman do cinema, não suporta pseudo-cultismo e pretende dominar o mundo.

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